ISSN 1982-1026

Boletim de História e Filosofia da Biologia

Volume 3, número 4

Dezembro de 2009

 

Publicado pela Associação Brasileira de

Filosofia e História da Biologia (ABFHiB)

http://www.abfhib.org

 

 

   Sumário:

1.    Encontro de História e Filosofia da Biologia 2010

2.    1ª Conferência Latino Americana do Grupo Internacional de História, Filosofia e Ensino de Ciências

3.    Tercer Congreso Iberoamericano de Filosofía de la Ciencia y la Tecnología

4.    Fritz Müller: “Para Darwin

5.    Traduções de textos primários de história da Biologia

6.    Lazzaro Spallanzani e o debate sobre a ocorrência de fósseis de organismos marinhos sobre as montanhas (1)

 

 

1.         Encontro de História e filosofia da Biologia 2010

 

 

O Encontro de História e Filosofia da Biologia 2010, promovido pela ABFHiB, será realizado de 11 a 13 de agosto de 2010, no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), com apoio do Laboratório de Licenciatura do IB/USP (LabLic).

Os convidados internacionais para este Encontro e os títulos de suas conferências são:

Charles Smith, “Final causes in evolution: a model”

Douglas Allchin, “Socializing epistemics

James Moore, “Darwin and the 'sin' of slavery”

As inscrições de trabalhos devem ser feitas até o dia 29 de Março de 2010, através do envio de um resumo curto e outro ampliado. Sugerimos o envio de seus resumos com antecedência. Mais informações sobre o Encontro:

www.abfhib.org/index_arquivos/Encontro_2010.html

A figura escolhida para o cartaz é de autoria de Maria Sibylla Merian (1647-1717), uma das mais famosas naturalistas-desenhistas de sua época. Ela publicou obras ilustradas principalmente sobre insetos e plantas, com desenhos muito detalhados. Dedicou-se, entre outras coisas, ao estudo cuidadoso da metamorfose dos insetos e das relações entre eles e as plantas de que se alimentam.

 

 

Realizou uma viagem de dois anos ao Suriname, da qual resultou um de seus livros, Metamorphosis insectorum Surinamensium (1705), que contém a figura escolhida (prancha 9).

As gravuras dos livros de Maria Sibylla Merian eram impressas em preto-e-branco e depois coloridas uma a uma, com aquarela, pela naturalista e suas filhas. Abaixo pode-se ver um detalhe da imagem escolhida para o evento da ABFHiB, com uma lagarta.

 

 

2.         1ª Conferência Latino Americana do Grupo Internacional de História, Filosofia e Ensino de Ciências

 

 

 

A 1ª Conferência Latino Americana do Grupo Internacional de História, Filosofia e Ensino de Ciências (International History, Philosophy, and Science Teaching GroupIHPST) será realizada no Maresias Beach Hotel, na Praia de Maresias, SP, de 19 a 21 de Agosto de 2010.

Seguindo as diretrizes das conferências internacionais do IHPST, a Primeira Conferência Latino Americana será dedicada à apresentação e discussão de trabalhos sobre o uso de história e filosofia da ciência no ensino de ciências.

Este evento está aberto à submissão de trabalhos, que podem ser em inglês, português ou espanhol – os idiomas oficiais deste congresso. O prazo para inscrição de trabalhos é 1° de março de 2010. Mais informações sobre a 1ª IHPST-LA:

http://www.hpsst-brazil2010.org/IHPST-LA/index-p.html

Este evento será precedido pela 8th International Conference for the History of Science in Science EducationICHSSE, a ser realizado no mesmo local, de 16 a 19 de Agosto de 2010.

 

 

O tema geral da 8th ICHSSE será “Aprendendo ciência e sobre a ciência pela história” (“Learning science and about science through history”). Este evento contará com cerca de 25 conferencistas convidados, sem sessões paralelas. Isso facilita um intenso diálogo e troca de informações entre os participantes.

O modelo deste evento internacional não permite inscrição de comunicações, mas há a possibilidade de assistir à conferência.

Siga este link para mais informações sobre a 8th ICHSSE (página em inglês, idioma oficial do evento): http://www.hpsst-brazil2010.org/8th-ICHSSE/index.html

 

 

3.         Tercer Congreso Iberoamericano de Filosofía de la Ciencia y la Tecnología

Será realizado de 6 a 9 de Setembro de 2010 em Buenos Aires, Argentina, o III Congresso Ibero-Americano de Filosofia da Ciência e da Tecnologia. Os congressos anteriores foram realizados no México e na Espanha (Ilhas Canárias). Os idiomas oficiais do evento são castelhano e português. Haverá sessões dedicadas à Filosofia da Biologia. A história da ciência não está incluída no evento, exceto no caso de trabalhos que relacionem a história da ciência à filosofia da ciência.

A data limite para proposta de simpósios é o dia 31 de Janeiro de 2010; o prazo para envio de trabalhos é 31 de março de 2010. Mais informações: http://cifcyt.wordpress.com

 

 

4.         Fritz Müller: “Para Darwin”

 

 

 

 

A Editora da Universidade Federal de Santa Catarina publicou uma nova tradução do livro Para Darwin (Für Darwin, 1864), escrito por Fritz Müller. Elaborada por Luiz Roberto Fontes, médico legista e biólogo, e por Stefano Hagen, médico veterinário, biólogo e professor, a nova tradução se distingue das outras duas que a antecederam por usar como base a primeira edição do livro, em alemão. De acordo com os autores, a tradução a partir da edição original pretende recuperar o estilo original da escrita de Fritz Müller, além de alguns conceitos próprios do autor, que foram alterados na segunda edição.

A obra inclui a tradução do livro original, com os aditamentos e correções do autor apresentados à 2a edição (1869), 6 resenhas bibliográficas da época e 4 necrológios. Trata-se da obra decisiva na consolidação do evolucionismo darwinista. Foi pioneira na apresentação e discussão minuciosa de provas fatuais, obtidas do estudo de crustáceos em Desterro (atual Florianópolis), SC, pelo eminente naturalista Fritz Müller, de origem alemã e naturalizado brasileiro, que aqui chegou em 1852 aos 30 anos de idade, vivendo em nosso país durante 45 anos, até o seu falecimento em 1897. O livro se integra no conjunto de homenagens prestadas ao naturalista pela Universidade Federal de Santa Catarina, vindo a público no mesmo dia (22/10/2009) em que a Universidade lhe concedeu o título de "Doutor Honoris Causa" In Memorian.

MÜLLER, Fritz. Para Darwin – Für Darwin, 1864. Traduzido por Luiz Roberto Fontes e Stefano Hagen. Florianópolis: Editora da UFSC, 2009.

Mais informações:

http://shopping.correios.com.br/wbm/store/script/wbm2400901p01.aspx?cd_company=qSrEgphfVPk=&cd_product=nT8tzUbZ9sg=

 

 

5.         Traduções de textos primários de história da BiologiA

Neste número do Boletim de História e Filosofia da Biologia prosseguimos a publicação de algumas traduções de textos históricos curtos, de relevância para o estudo e o ensino da História da Biologia. Estas traduções, como a apresentada a seguir, devem conter uma breve introdução, algumas indicações bibliográficas, e a tradução do texto – feita a partir do idioma original.

O texto publicado a seguir, de autoria de Lazzaro Spallanzani, se refere aos estudos de fósseis de animais marinhos, encontrados em montanhas. Por se tratar de um texto longo, apenas a primeira parte está sendo apresentada aqui. A segunda parte será publicada no próximo número do Boletim.

 

 

6.         Lazzaro Spallanzani e o debate sobre a ocorrência de fósseis de organismos marinhos sobre as montanhas (1)

Maria Elice Brzezinski Prestes

Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo

eprestes@ib.usp.br

 

Gerda Maísa Jensen

Escola Municipal de Ensino Fundamental  Brasil-Japão - SME-SP

maisajensen@ig.com.br

 

  O texto “Dissertação sobre os corpos marino-montanos”, de autoria do naturalista italiano Lazzaro Spallanzani (1729-1799), aborda o tema da ocorrência de fósseis de organismos marinhos encontrados em regiões afastadas do mar e em montanhas, seja na superfície seja em profundidade. A explicação sobre a natureza desses corpos, se verdadeiros fósseis ou se artefatos da natureza, bem como sobre os mecanismos de sua distribuição nas diferentes regiões despertou o interesse de diversos estudiosos do século XVIII. Na Dissertação, aqui traduzida em sua primeira metade, Spallanzani sumariza o conhecimento paleontológico da época, examinando os argumentos dos principais autores envolvidos com essas questões.

 

 

A “Dissertação sobre os corpos marino-montanos” não foi publicada, mas apresentada por Spallanzani em sessão da Accademia degli Ipocondriaci di Reggio Emilia, em 27 de janeiro de 17581. Isto ocorreu pouco tempo depois de sua formatura na Faculdade de Filosofia da Universidade de Bologna, em 1755, na época em que lecionava Física e Matemática na recém-criada Universidade de Reggio Emilia, depois de ensinar Lógica, Metafísica e Grego no Colégio dos Jesuítas da mesma cidade. Desse modo, a Dissertação sinaliza o momento em que Spallanzani muda o foco de interesse para as pesquisas em História Natural seguidas pouco depois, a partir de 1761, pela dedicação intensiva às investigações experimentais dos seres vivos, com o que se ocupou ao longo de todo o restante de sua carreira profissional.

  Diferentemente dos textos publicados posteriormente pelo autor, a Dissertação deixa transparecer a influência de sua formação religiosa e o comprometimento com a idéia da Criação. Possui, contudo, uma das marcas que caracterizam as pesquisas de Spallanzani, qual seja, a preponderante tendência em dedicar-se ao estudo de temas controversos.

 

Tradução:

DISSERTAÇÃO SOBRE OS CORPOS MARINO-MONTANOS2 - Parte 1

Lazzaro Spallanzani

 

  Em seu primeiro nascimento, tão logo foi tirado do nada pelas mãos criadoras do Arquiteto supremo, o homem teve por instinto próprio e natural, entre muitas outras qualidades nele colocadas, o desejo de conhecer. Ansiando desafogar essa curiosidade generosa e inata, passou a tudo contemplar na maravilhosa Fábrica do Universo e ao ver impresso em todas as coisas o sinal indubitável do divino Artífice, encontrou ampla matéria para pensar. Ao contemplar, estupefato, a verde pintura das selvas e colinas, a variedade dos animais, a claridade do sol e tantas outras diferentes naturezas que em tão rara beleza compõem o universo, constatou que o globo não é outra coisa senão um grande livro. Livro maravilhoso da natureza, aberto a todos e escrito com tantos caracteres e com tantas cifras da onipotência quantas são as criaturas e os objetos que o compõem e por tudo penetrado e resplandecente por aquela claríssima e cintilante luz que a tudo move, e que de todas as coisas é a primeira origem e fonte, Vi recolher-se, / num só volume unindo com amor, / o que no mundo se desencaderna” 3.

  Foi então, por meio de suas contemplações, que os intelectos humanos, acesos pela nobre chama de bela glória, puseram-se a inquirir a Obra da Sapiência infinita. Alguns, alçando atônito olhar ao azul sereno do céu e vendo em seus vastos e infinitos campos a semeadura de Deus, a mão cheia de estrelas, puseram-se a tratar do ardente desejo de procurar a sua natureza e os movimentos, de conhecer a harmonia da esfera e de rever, se não com os olhos semicerrados, mas com a mente que vê mais sutil e firmemente o que há de maior e admirável no amplo giro dos Céus, que narra a glória do Senhor e o firmamento com tantas línguas quantas são as estrelas, que louva e declara o magistério de suas mãos. Outros, contentes em fixar seus pensamentos em alguma parte daquele nosso globo terrestre, com a sábia direção daquela soberana mestra que nós chamamos Filosofia natural, puseram-se a considerar a perpétua vertiginosa circulação de água que circunda a terra, de cuja figura, dimensões e amplitude impõem-se a admirável estrutura e o trabalho das montanhas. Muitos dentre estes últimos, ao encontrarem sobre a superfície das montanhas certos animais do mar, como crustáceos, caramujos e conchas petrificadas, avidamente procuram saber como e quando foram para lá transportados esses produtos marinhos. Assim, desse simples desejo, que outro não foi que uma curiosidade filosófica, teve começo e princípio aquela célebre questão dos corpos que vulgarmente são chamados marino-montanos; a qual foi então tratada e ilustrada por tantos Homens de alto saber e muito respeitada doutrina. Sobre a controvérsia há, entre outros, os escritos do incomparável Leibniz4 e, depois de um não longo intervalo, ela foi renovada pelo claríssimo senhor Vallisneri5. Nobres Filósofos da França, da Alemanha, da Inglaterra, da Itália e de toda a Europa se exercitaram na controvérsia e trataram das diferentes opiniões a respeito. Com seus purgados escritos enriqueceram a História da Natureza de modo que, devido à sua grande sorte, esses corpos do mar vieram a ser considerados como o mais belo ornamento dos Museus naturais e como um dos mais curiosos objetos das mais ilustres Academias.

  Esses corpos seriam verdadeiros espólios de peixes, nascidos, nutridos e criados na água marinha, ou, em vez disso, pedras figuradas de modo a imitar ora um testáceo6, ora um peixe, ora um coral, de modo que deveríamos chamá-los simples brinquedos [scherzi] da bizarra natureza? E se, com mais própria razão, devessem ser chamados verdadeiros produtos do mar, o que os haveria transportado para lá? Por qual encantamento, por assim dizer, teriam sido transformados em pedra para eternizar a memória de seu exílio, forçados a morrer em país estrangeiro? Talvez, deva-se recorrer, como imaginou o ilustre Woodward7, ao dilúvio universal que ao alagar até mesmo o topo das mais altas montanhas arrastou-os consigo, e, depois, esvaindo-se a água embora, para longe, dispersou-os aqui e ali no terreno deixado seco? Ou, mais verdadeiramente, de um tão estranho acontecimento devemos acusar o próprio mar, como estimaram Fracastoro8 e Leibniz, o qual outrora havia inundado naturalmente as planícies e as montanhas onde agora se encontram as abundantes quinquilharias marinhas? Essas duas opiniões são as que fizeram o maior alarde no mundo pensante e deram surgimento a um séquito de homens incomuns e de não primeira fama. Eu os examinarei, deixando de lado aqueles cuja escassez de seguidores evita-me o constrangimento de os ter que rejeitar, assim como retiro desta muito conceituada Assembléia o castigo de ouvir, já que “que perder tempo ao sábio mais despraz 9.

  Inútil saber que o refutar se prende ao sentimento de certos Filósofos bizarros, que estimam que esses crustáceos não passam de meros jogos da natureza. Com esse dizer lacônico e sentencioso, querem encerrar a questão rapidamente, sem se dar ao trabalho de os comparar. Pois, se com o olhar sincero e desapaixonado comparassem esses corpos montanos com os verdadeiros e reais corpos do mar encontrariam que uns em nada diferem dos outros, mas que entre eles existe aquela perfeita semelhança que se observa entre um ovo e um ovo; semelhança que eu mesmo verifiquei não somente nos corpos que vemos nas nossas montanhas, mas, também em Pádua, em uma série numerosa descrita no renomado Museu vallisneriano, que pode servir de desengano a quem pensa não serem todos eles de uma mesma raça.

  Decidido isso, aqueles que atribuem a presença dos corpos marinhos sobre as montanhas ao dilúvio universal dividem-se em dois partidos. Alguns são da opinião que o transporte foi espontâneo, enquanto outros, de que foi violento. De acordo com os primeiros, ao verem o transbordamento do Reino aquático, os animais marinhos, carentes de novidades, abandonaram a sua pátria salgada e passaram a vagar não apenas pelo terreno plano, mas, também, com a ajuda do elemento [água] elevaram-se aqui e ali pelas colinas e pelas montanhas, a perder de vista. Rebaixadas as águas, após não longo tempo, sob o lodo e os seixos, a terra viscosa envolveu a todos nos braços da morte. Esse pensamento, à primeira vista vago e espirituoso, se examinado de perto me parece muito suspeito e discordante da verdade. Considerando que as águas que inundaram a terra certamente não eram do mar, mas, ao contrário, água doce comum, conforme o consentimento dos mais sensatos Filósofos, e cuja conseqüência seria que a maioria dos peixes de água salgada teria morrido, em vez de ser carregada [pela água doce], resta incompreensível como os outros corpos marinhos, pelo menos os peixes, seriam tão estúpidos a ponto de não seguirem com o abaixar das águas, voltando finalmente ao mar de onde tinham partido. Além disso, parece mais que na ocasião do terrível cataclismo os referidos peixes em vez de vagarem de país em país por toda a vastidão da terra devessem, ao contrário, descer ao fundo do mar, retirando-se aos rochedos e à mais funda escuridão da água não agitada. Pois se sabe pela prática dos pescadores e pelas observações do experiente Boyle10 que, na mais horrível tempestade do mar e na mais furiosa tormenta, todos vão ao fundo para se protegerem no lugar em que, no momento da borrasca, reina sempre uma plácida calmaria. Mas apesar desta galante suposição ser boa manobra aos eruditos Adversários, resta ainda uma dificuldade insuperável. Não há como compreender de que modo tantos crustáceos solitários, sempre tenazmente grudados nos rochedos do mais fundo e escuro mar, ou enterrados na lama, foram arrancados e puderam realizar assim longas viagens, e de que modo tantas plantas marinhas também alcançaram o cume das montanhas, já que em qualquer furiosa tempestade marinha não são jamais destacadas do fundo.

  Bom número de defensores do julgamento referido anteriormente, percebendo não poder explicar o transporte espontâneo dos animais marinhos para as montanhas, recorreu ao transporte violento, derivado dos vórtices e turbilhões produzidos no tempo do dilúvio. Colocando toda a água em desordem e confusão, permitiram aos peixes que eles mesmos, pronta e brevemente, elevassem-se à tona, de onde, erguidos, atirados e saltando de um canto a outro do mundo, surpreendidos e confusos, fossem forçados a seguir na direção irregular daquelas ondas violentas. Este partido, ingenuamente confesso, parece até certo ponto mais apto a explicar em parte o presente acontecimento; mas, posto que se tem por máxima da Física, que quem não explica todo o fenômeno, nada explica, não ousarei abraçar assim rapidamente um tal pensamento.

  Eu não nego que a força daqueles ventos raivosos unida à extraordinária agitação das águas não poderia seqüestrar parte daquelas tantas relíquias do mar que são vistas sobre as montanhas situadas não muito distantes do mar. Porém não entendo como essa causa explicaria de que modo eles foram cravados debaixo dos mais profundos estratos das montanhas e espalhados com ordem tão admirável sobre as suas encostas, na medida em que essas substâncias marinhas não se distribuem igualmente em todas as montanhas, algumas contendo apenas ostras, outras, apenas conchas, outras, caramujos. Em algumas abundam testáceos de enorme tamanho, em outras aqueles medianos e em outras ainda os pequeninos e recém-nascidos. Não somente são observados na superfície exterior, mas a carnificina ocorre ainda nas mais profundas minas metálicas das montanhas, e sob os estratos das planícies, como aquelas que foram encontradas no escavar dos poços de Modena, e aquelas que foram descritas das escavações de um poço profundo em Amsterdã. Ora, expliquem os doutos Adversários, como puderam aqueles turbilhões em vórtice com tão judicioso discernimento depositar os crustáceos marinhos de um tipo em uma montanha e de outro tipo, em outra montanha; e como souberam tão advertidamente medi-los para conceder a algumas montanhas os de certo tamanho, a outras, de outro; e usando tanta parcialidade, de montanha em montanha, dar a algumas, grande quantidade, e ser, para outras, um tão avaro distribuidor. Expliquem como foram encontrados produtos marinhos em abundância nas montanhas da Suíça, conforme o testemunho do cirurgião Scheuchzer11, como aqueles ventos fortes puderam transportar tais corpos não obstante a enorme distância de 150 milhas entre as montanhas e os dois mares vizinhos, o Adriático e o Ligustico; e que trabalho contrastante seria o transporte deles pelo ar sob a enorme e pesadíssima chuva na ocasião do dilúvio.

  Expliquem finalmente, com argumentos satisfatórios, de que modo, na Inglaterra, em muitos lugares subterrâneos profundos, encontram-se ossos e esqueletos inteiros de baleias e de outros peixes grandes, como nos atesta o Senhor Woodward, grande defensor do sistema diluviano. E de como lá se observam esqueletos de elefante e chifre de uma espécie de cervo que, no presente, só se encontra na América, além de certas árvores que não se encontram nas florestas da Inglaterra. Devemos então aceitar que dos mares Peruvianos os ventos seqüestraram os peixes, da América, os cervos, da África ou da Ásia, os elefantes, e transportando-os por longas regiões da Ásia, finalmente os depositaram em tão remoto país? E de que raça eram esses turbilhões que depois de terem reunido com poder inaudito tais amostras marinhas das profundezas do mar, fizeram ainda um último esforço para enterrá-las sob os estratos rochosos das montanhas, dentro das duras massas de pedra e até no fundo do minério metálico?

  Apesar de algumas tentativas de simplesmente recorrer ao dilúvio para explicar o nosso fenômeno, mais desejosos de dar esse nome a novos erros, do que de procurar a verdadeira fama, alguns tinham recorrido a fogos subterrâneos enterrados acesos no tempo do dilúvio e unidos à água em raro milagre, disputando espaço em toda essa grande máquina. Não refletiram, esses mau agourentos Filósofos, como tanta água não foi capaz de impedir a ascensão do enxofre e do nitro, nem como tanto fogo não foi suficiente para diminuir tanta água. Esse pensamento não é comparável às notícias românticas do senhor Burnet12? Ou ao do galante sonho daquele sábio Abissínio, que disse que por serem os homens soberbos e intoleráveis, Júpiter, lá de cima, com raios, e Plutão, cá de baixo, com terremotos, começaram a mover e a quebrar terrivelmente a terra, decomposta e em muitas partes dilacerada, tragando em cavernas um meio mundo de água? Então por que os investigadores de metais e mármores encontram a muitas milhas do mar, os peixes, ostras e conchas de moluscos petrificados?

  Desta insuperável dificuldade aterrorizadora, alguns poucos dos Observadores físicos pensaram se não deviam procurar qualquer outra razão, mais natural e mais simples, para explicar o nosso fenômeno, e de maneira mais condizente com as leis invioláveis da natureza. Pensaram então dever recorrer-se ao mar, o qual esteve antigamente no topo daqueles lugares altos onde os produtos marinhos são encontrados. Embora poucos, estes são, porém, muito respeitados pela doutrina bem célebre e por vários outros títulos, entre os quais destacam-se como estrelas de primeira grandeza um Aristóteles, um Fracastoro e um Leibniz.

  

Notas:

1 A primeira publicação do manuscrito, conservado em Reggio Emilia, com algumas variações, foi feita em 1981, por S. L. Borrini & colaboradores. Todas as notas de rodapé apresentadas neste artigo são das tradutoras.

2  Fonte original: SPALLANZANI, Lazzaro. Dissertazione sopra i corpi marino-montani. Pp. 197-204, in: Edizione nazionale delle opere di Lazzaro Spallanzani. Parte Seconda, Lezione. Volume Primo. A cura di Pericle di Pietro. Modena: Enrico Mucchi Editore, 1994.

3  “S’interna / legato com amore in un volume / ciò che per l’universo si squaderna”. Trata-se de uma citação da Divina Comédia de Dante Alighieri, Canto XXXIII do Paraíso, aqui transcrita da tradução feita por Italo Eugenio Mauro, para a Editora 34, 1998.

4  O filósofo alemão, Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716).

5  O médico e naturalista italiano Antonio Vallisneri (1661-1730).

6  O termo “testáceo” foi empregado por Aristóteles e usado até o final do século XVIII para designar um grupo de organismos invertebrados, que possuem algum tipo de carapaça rígida, como, por exemplo, bivalves, gastrópodes, equinodermos, foraminíferos, etc.

7  O filósofo natural inglês John Woodward (1665-1728).

8  O médico italiano Girolamo Fracastoro (1478-1553).

9  “Il perde tempo a chi più as, a più spiace”. Citação da Divina Comédia de Dante Alighieri, Canto III do Purgatório, aqui transcrita da tradução feita por Italo Eugenio Mauro, para a Editora 34, 1998.

10  O filósofo natural Robert Boyle (1627-1691).

11  O médico e naturalista suíço Johann Jakob Scheuchzer (1672-1733).

12  O teólogo e filósofo natural inglês Thomas Burnet (c. 1635-1715).

 

 

 

Citação bibliográfica deste artigo:

PRESTES, Maria Elice Brzezinski; JENSEN, Gerda Maísa. Lazzaro Spallanzani e o debate sobre a ocorrência de fósseis de organismos marinhos sobre as montanhas (1). Boletim de História e Filosofia da Biologia 3 (4): 4-8, dez. 2009. Versão online disponível em: <http://www.abfhib.org/Boletim/ Boletim-HFB-03-n4-Dez-2009.pdf >. Acesso em dd/mm/aaaa. [colocar a data de acesso à versão online]

 

 

Objetivos do Boletim

O objetivo do “Boletim de História e Filosofia da Biologia” é divulgar informações de interesse dos pesquisadores e estudantes interessados em história e filosofia da Biologia. Com periodicidade trimestral, este Boletim traz informações atualizadas sobre congressos e outros eventos relevantes (no Brasil e no exterior), novas publicações da área (livros e revistas), informações sobre teses e dissertações, informes sobre as atividades da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB), bem como artigos curtos, descritos abaixo.

Poderão ser publicados no “Boletim de História e Filosofia da Biologia” artigos assinados (curtos) que discutam temas gerais de interesse da área como, por exemplo, a metodologia da pesquisa em história e filosofia da biologia, ou o uso da história e filosofia da biologia no ensino; bibliografias comentadas sobre tópicos específicos de história e filosofia da biologia; e textos de divulgação. Podem também ser publicadas resenhas, assinadas, de livros recentes sobre história e/ou filosofia da biologia. Os artigos devem ser submetidos aos Editores deste Boletim (ver endereços no Expediente, ao final deste número). Todos os artigos submetidos devem ser elaborados tendo em vista os padrões acadêmicos usuais.

 

 

 

Boletim de História e Filosofia da Biologia    ISSN 1982-1026

Expediente. O “Boletim de História e Filosofia da Biologia” é uma publicação trimestral da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB), iniciado em Setembro de 2008. Editores: Roberto de Andrade Martins, rmartins@ifi.unicamp.br (Universidade Estadual de Campinas); Aldo Mellender de Araújo, aldomel@portoweb.com.br (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e Waldir Stefano, stefano@mackenzie.com.br (Universidade Presbiteriana Mackenzie).

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