ISSN 1982-1026

Boletim de História e Filosofia da Biologia

Volume 4, número 4

Dezembro de 2010

 

Publicado pela Associação Brasileira de

Filosofia e História da Biologia (ABFHiB)

http://www.abfhib.org

 

 Sumário:

1.    Encontro de História e Filosofia da Biologia 2011

2.    “Do whiggismo ao priggismo”, por Lilian Al-Chueyr Pereira Martins

3.    “É o whiggismo evitável?”, por Anna Carolina Regner

4.    Teses e dissertações recentes sobre história e filosofia da Biologia

5.    Traduções de textos primários de história da Biologia: “Charles Darwin e os marrecos: origem comum e herança de caracteres adquiridos”, por Roberto de Andrade Martins

 

1. Encontro de História e filosofia da Biologia 2011

 

 

O Encontro de História e Filosofia da Biologia 2011, promovido pela ABFHiB, será realizado de 10 a 12 de agosto de 2011, na Universidade Estadual Paulista (UNESP), Campus Bauru.

Está confirmada a participação do seguinte conferencista internacional para este Encontro:

* Prof. François Duchesneau, do Departamento de Filosofia, Faculdade de Artes e Ciências da Universidade de Montreal: "Genesis and mutations of the concept of organism".

As inscrições de trabalhos para apresentação devem ser feitas mediante o envio do título da apresentação acompanhado de um resumo ampliado (aproximadamente 1.000 palavras, além da bibliografia utilizada) e de um resumo curto (entre 100 e 200 palavras) para a Comissão Organizadora do Encontro, no endereço: ehfb2011@abfhib.org.

 

 

O prazo para enviar inscrições de trabalhos é até o dia 05 de abril de 2011. Podem ser submetidos trabalhos para apresentação oral ou para apresentação em formato de poster.

Podem ser encontradas informações mais detalhadas sobre o Encontro de História e Filosofia da Biologia no site da ABFHiB, neste endereço: http://www.abfhib.org/Encontro.html.

A figura escolhida para os cartazes e outros materiais deste evento é uma imagem do manuscrito Cod. Pal. germ. 300 da obra "Das Buch der Natur", de Konrad von Megenberg (1309-1374).

 

2. Do whiggismo ao priggismo

 

 

Lilian Al-Chueyr Pereira Martins

Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência, PUC/SP

E-mail: lacpm@uol.com.br

INTRODUÇÃO

Como já foi discutido em números anteriores desta publicação (Prestes, 2010; Martins, 2010), de acordo com Herbert Butterfield (1968), a interpretação whig da história, inicialmente aplicada à história política e depois à história da ciência, caracteriza-se dentre outras particularidades, por avaliar o passado em termos do presente e deve ser evitada. Entretanto, conforme seja a interpretação anti-whig que se adote, pode-se cair no extremo, que Edward Harrison (1987) chamou de historiografia prig, o que também não é desejável. O termo prig aparece muitas vezes nos dicionários como sinônimo de snob.

O objetivo deste artigo é discutir um pouco sobre o que consiste a historiografia prig na visão de Harrison, o posicionamento de Ernst Mayr (1904-2005) e finalmente apresentar algumas considerações sobre o assunto.

 

 

 

Edward Harrison descreveu o conflito entre whigs e prigs como semelhante ao ciúme entre Clio (musa da história) e Urania (musa da astronomia). Cada uma das musas defende de modo ciumento seu domínio particular.

 

QUEM FAZ A HISTORIOGRAFIA DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA?

De acordo com Edward Harrison, inicialmente a história da ciência foi o foco de interesse de cientistas que desenvolveram diversos estudos. Por exemplo, Pierre Duhem (1861-1916), em relação à ciência medieval; James Partington (1866-1965) em relação à química; Clifford Ambrose Truesdell (1919-2000) na mecânica. Entretanto, nas últimas décadas que antecederam 1980 os profissionais em história da ciência com formação em ciências sociais criaram sociedades, periódicos e encontros próprios. Houve então uma lamentável separação entre a ciência natural e o estudo de sua história. Estudos históricos raramente envolviam a consulta a periódicos científicos (Harrison, 1987, p. 213; Mayr, 1990, p. 303).

Na visão deste autor, esses “novos historiadores” seguiam à risca a máxima de Thomas Kuhn: “Na medida do possível o historiador da ciência deve ficar distante da ciência que ele conhece” e aprender “a partir dos livros e periódicos do período que ele estuda”. Desse modo, quanto menos o historiador da ciência souber sobre a história da ciência atual, menor será a probabilidade de adulterar a ciência de ontem (Harrison, 1987, p. 214).

CRÍTICAS À PROPOSTA DE BUTTERFIELD

Na visão de Harrison, a interpretação whig do passado condenada por Butterfield faz com que a história fique saturada de julgamentos de valor. Ele discorda da afirmação de Butterfield de que “o verdadeiro entendimento histórico não é conquistado pela subordinação do passado ao presente, mas tornando o passado nosso presente e procurando ver a vida com olhos de outro século que não os do nosso”. Para isso, seria necessário dispor de uma máquina do tempo (Harrison, 1987, p. 213).

Historiadores da ciência que não leram a monografia de Butterfield podem cair no extremo do anti-whiggismo. A interpretação whig transforma em virtude o olhar a partir de hoje e descarta do passado o que não trouxe contribuições para o presente. A interpretação anti-whig levada ao extremo descarta do presente o que não contribuiu com nada para o passado. Tornando a ignorância uma virtude, o anti-whiggismo se transforma em uma forma de priggismo (Harrison, 1987, p. 213). Desse modo, as duas posições mencionadas são problemáticas.

A INTERPRETAÇÃO PRIG

A interpretação prig, ou seja, o anti-whiggismo levado ao extremo defende que se deve ignorar a ciência moderna que não existia no passado. Por exemplo, o estudioso da alquimia medieval deve saber pouco sobre a química moderna. Dentro dessa visão, as diferenças existentes entre a terminologia das ciências do passado e atual também não devem ser levadas em conta. Entretanto, Harrison enfatiza que a audiência à qual o historiador da ciência se dirige é atual. Consequentemente, não vai entender muitos aspectos daquilo que está sendo discutido. Em suas palavras: “Reconstruir o passado requer comentários cuidadosos sobre as diferenças entre as ciências e linguagem do passado e do presente” (Harrison, 1987, pp. 213-214).

Como foi possível perceber, a posição de Harrison, que é um cientista, é bastante radical.

A POSIÇÃO DE MAYR

Ernst Mayr (1990) propõe que se faça uma revisão do termo “whig”, muitas vezes empregado com um sentido pejorativo. Isso, a seu ver, fez com que muitos historiadores optassem por não fazer uma avaliação do passado temendo serem rotulados de whig. Ele concorda com Harrison em que com o intuito de evitar ser rotulado de whig o historiador muitas vezes “volta ao método indutivo baconiano que procura investigar os fenômenos com uma mente investigadora, mas vazia” (Harrison, 1987, p. 313, apud, Mayr, 1990, p. 301).

O próprio Mayr (1990) procura se defender da acusação de fazer uma historiografia whig em seu livro The growth of biological thought. Ele argumenta que é importante estudar o desenvolvimento das idéias desde sua origem até a atualidade, que é o que ele procurou fazer nesta obra, porque é impossível entender muitas controvérsias ou conceitos atuais sem conhecer sua história. Ou seja, o estudo do passado auxilia a compreensão do que está ocorrendo no presente. Ele menciona outros autores como Timothy Lenoir e Rachel Laudan que também adotaram esse gênero de historiografia (Mayr, 1990, p. 304).

Mayr partilha da opinião de Michael Ruse (1988) de que não há nada de errado em olhar o passado tendo como base o entendimento do presente. Concorda também com David Lee Hull (1935-2010) em que o conhecimento do presente é crucial para o historiador (Hull, 1979). A seu ver, o historiador deve evitar a tendenciosidade, o chauvinismo, as falsificações de prioridade, as interpretações finalistas qualquer que seja a abordagem historiográfica que adote (Mayr, 1990, p. 308-309).

A seletividade é importante e avaliações são permitidas ao historiador que trabalha com a história intelectual, ao contrário do que admitem os anti-whigs. Além de comparativa e seletiva, a história do desenvolvimento deve ser “histórica” (Mayr, 1990, p. 308). A história que somente relata fatos e apresenta documentos sem uma avaliação é anti-intelectual, é prig (Mayr, 1990, p. 309).

O rótulo pejorativo whiggismo que tem sido usado demasiadamente e cada vez mais de modo irresponsável em casos em que não se aplica, segundo Mayr, deveria desaparecer da literatura. Quando aparecesse deveria ser aplicado a casos genuínos e não à historiografia do desenvolvimento (Mayr, 1990, p. 309) que é a sua opção historiográfica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A nosso ver, a posição de Harrison (1987), sob diversos aspectos, é bastante radical. Por exemplo, quando ele atribui o mesmo comportamento a todos os historiadores da ciência atuais; ao interpretar a afirmação de Kuhn de modo categórico ou ao a condenar todas as características atribuídas por Butterfield à historiografia da ciência whig. Por outro lado, concordamos com ele em que ao levar em conta todas as críticas da historiografia whig a ponto de perder de vista o que precede e o que sucede a contribuição estudada, concentrando-se apenas na mesma e no período em que ocorreu é igualmente inadequado. O mesmo se aplica à ausência de relações no que se refere às mudanças de conotação da terminologia científica de diferentes períodos, que deve ser considerada.

Concordamos com Mayr (1990) em que a história que somente relata fatos e apresenta documentos sem avaliação é anti-intelectual ou prig, como considera Harrison. O rótulo pejorativo whiggismo da forma que tem sido usado (em demasia e de modo irresponsável) deveria desaparecer da literatura. Deveria ser usado com mais cuidado e moderação aplicando-se a casos específicos onde realmente coubesse. Além disso, que “O estudo de aspectos do passado nos ajuda a entender a ciência do presente”.

Como afirma John V. Pickstone: “O historiador precisa entender o passado em seus próprios termos, mas também fazer uma análise de seu próprio mundo para ser capaz de falar para a audiência não especializada” (Pickstone,1995, p. 205). É muito importante estudar uma contribuição dentro de seu próprio contexto, mas sem perder de vista o que ocorreu antes e o que ocorreu depois.

AGRADECIMENTOS

A autora agradece ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo apoio concedido.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HARRISON, Edward. Whigs, prigs and historians of science. Nature 329: 213-214, 1987.

HULL, David L. In defense of presentism. History and Theory 18: 1-15, 1979.

MARTINS, Roberto de Andrade. Seria possível uma história da ciência totalmente neutral, sem qualquer aspecto whig? Boletim de História e Filosofia da Biologia 4 (3): 4-7, set. 2010. Versão online disponível em <http://www.abfhib.org/Boletim/Boletim-HFB-04-n3-Set-2010.pdf>Acesso em 12/12/2010.

MAYR, Ernst. When is historiography whiggish? Journal of the History of Ideas 51 (2): 301-309, 1990.

PICKSTONE, John V. Past and present knowledges in the practice of the history of science. History of Science 32: 203-224, 1995.

PRESTES, Maria Elice Brzezinski. O whiggismo proposto por Herbert Butterfield. Boletim de História e Filosofia da Biologia 4 (3): 2-4, set. 2010. Versão online disponível em <http://www. abfhib.org/Boletim/Boletim-HFB-04-n3-Set-2010.pdf>Acesso em 12/12/2010.

RUSE, Michael. Booknotes. Biology and Philosophy 2: 377-381, 1987.

 

 

 

Citação bibliográfica deste artigo:

MARTINS, Lilian Al-Chueyr Pereira. Do whiggismo ao priggismo. Boletim de História e Filosofia da Biologia 4 (4): 2-4, dez. 2010. Versão online disponível em: <http://www.abfhib.org/Boletim/Boletim-HFB-04-n4-Dez-2010.pdf>. Acesso em dd/mm/aaaa. [colocar a data de acesso à versão online]

 

3. É o whiggismo evitável?

Anna Carolina Regner

Programa de Pós-Graduação em Filosofia, UNISINOS (RS)

E-mail: aregner@portoweb.com.br

 

A questão que proponho cobre um dos aspectos fundamentais do whiggismo: o condicionamento prévio imposto pelas posições assumidas não só no modo de explicar os fatos, mas já na sua descrição. Deixando de lado características próprias da posição whiggista, minha questão se dirige a um ponto mais fundamental: podemos evitar tal condicionamento prévio? Minha resposta será não. Contudo, penso que podemos fazer dessa negativa um êmulo para a abertura a alternativas.

A INEVITABILIDADE DO “PONTO DE PARTIDA” DO NARRADOR

Ao descrever os fatos ou ao buscar explicá-los, situamo-nos e situamos as coisas das quais falamos em uma teia de “como as coisas acontecem” e, em certa medida, passamos a narrá-las. Já em seu “ponto-de-partida”, ao descrevê-las, não vemos, como nos diz Paul Feyerabend, “fatos nus”. Em um sentido amplo, eles são “ideativos”. Não os vemos, simplesmente, mas os vemos de uma certa maneira. Caso contrário, não teríamos nem a consciência de que estamos diante de um objeto determinado.

Portanto, é inevitável um condicionamento inicial em nossa visão do objeto e em nossa atitude diante dele. Ambas por sua vez refletem nossas crenças e valores, muitas deles partilhadas – embora, a meu ver, não homogeneamente metabolizadas pelos membros da comunidade – pela cultura e meio social em que se insere o narrador. Se o posicionamento do narrador fosse o mero reflexo das condições culturais, seria mesmo impossível um distanciamento crítico e questionamento da inevitabilidade ou não do whiggismo como um conjunto determinado de crenças, valores, atitudes e procedimentos, o qual refletiria as condições sociais em que o whiggismo é plasmado. A possibilidade de tal questionamento, por sua vez, depende, igualmente, de crenças, valores e atitudes que demandam crítica a determinadas distinções epistemológicas tradicionais.

 

O CONDICIONAMENTO DAS DISTINÇÕES EPISTEMOLÓGICAS TRADICIONAIS

Descrição vs. Explicação

Esta distinção tem sido um dos pilares da visão tradicional de ciência. À descrição pertencem os enunciados chamados de observacionais e à explicação pertencem as teorias vistas como alternativas interpretativas dos dados colhidos pelas descrições. Ao nível das descrições devem novamente retornar as explicações calcadas nas interpretações (teorias) bem sucedidas, funcionando as primeiras como corroborações ou falseamentos para as segundas. Ou seja, pressupõe-se que a descrição revele um mundo passível de ser descrito por uma linguagem neutra, observacional, independente das interpretações que deles façamos.

Contudo, desde as críticas de Popper, Kuhn, Feyerabend e Lakatos, temos presente que as distinções “observacional / teórico” são antes distinções que se estabelecem no âmbito de cada sistema teórico e que o “ver” não está desvinculado de “um modo de ver”. (A rigor, uma polêmica similar já havia no interior do próprio Positivismo Lógico, em suas discussões sobre a natureza das proposições elementares e, como bem o viu Carl Hempel em seu seminal artigo “Problemas y cambios en el critério empirista de significado”, sobre a exigência de se compreender a natureza das proposições observacionais como partes de um sistema.) De fato, como pretender uma cisão entre “descrever e explicar”, quando, para que possamos explicar o que descrevemos, devamos recorrer a parâmetros comuns a ambos? Lembremos, igualmente, que a linguagem com que descrevemos os fatos os insere em uma rede de significações taxonomicamente qualificada.

Construção vs. Descoberta

Esta pode ser uma distinção sutil, mas epistemologicamente diferenciada. “Descobrir” o mundo supõe que o mundo está aí, pronto para ser descrito. “Construir” o mundo que conhecemos não nos compromete com um mero nominalismo ou idealismo acerca do mundo, mas com o “mundo que conhecemos”, cujo conhecimento depende não só de sua existência física, de ser algo passível de determinações, mas de ter um significado, o qual pressupõe “nossa” rede de significações. Não apenas conceitualmente, mas mesmo nossa estrutura (e posição) física, biológica, impõe condicionantes ao modo como apreendemos os objetos.

Natural vs. Social

Por fim, a última distinção apontada, para o que aqui nos interessa, tem a ver com a anterior. Minha proposta não é reduzir um ao outro, mesmo porque a discussão de tal redução demandaria que antes, discutíssemos o que entender por um e outro termo. Em qualquer caso, enquanto fatos a serem descritos e explicados, a questão de fundo é que tanto fenômenos chamados de naturais como os chamados sociais são “sociais”, na medida em que toda ciência é produção humana, sujeita aos condicionantes inicialmente referidos. Isso significa que toda a ciência é produção como tal contextualizada e dependente dos nossos pressupostos sobre o que seja “real”, “natural”, “social” etc. Parece-me um tanto ingênuo querer despir o que chamamos de “fenômenos naturais” da ingerência dos elementos “subjetivos” (opostos a “objetivos” da pesquisa), bem como reduzir o que chamamos de “sociais” a uma realidade diferenciada pelo fato de que, nesse caso, mas não no da investigação da Natureza, o investigador é ao mesmo tempo “sujeito e objeto” da pesquisa. Também a investigação da Natureza sofre determinações que lhe são impostas pelo sujeito que a pesquisa.

O ESFORÇO HERMENÊUTICO

As considerações acima buscaram apontar à necessidade de revermos as distinções epistemológicas que orientam nossas análises, seus pressupostos, valores e atitudes, ou, pelo menos, de admitir que possa haver alternativas. Essa atitude é o primeiro passo para que a inevitabilidade de um condicionamento prévio – seja qual for, whiggista ou não – encontre a possibilidade de uma atitude crítica em relação à sua própria posição, a refletir-se no cuidado em seus próprios procedimentos de investigação, sabedor das ingerências dos condicionamentos prévios, tanto de parte do investigador, como do investigado, quando este for também suscetível a tais ingerências. Dito de modo breve é pelo confronto de alternativas que podemos conhecer melhor as posições que defendemos, ou encontrarmos novas posições, conciliadoras ou não. Para a posição que ora defendo a melhor denominação que encontro é a de defesa de uma “teoria das controvérsias”, que encontra naquela proposta por Marcelo Dascal em vários de seus textos a expressão mais aprofundada.

BIBLIOGRAFIA

AYER, A. J. El positivismo logico. México: Fondo de Cultura Económica. 1993 (1ª. Edição: 1959).

DASCAL, Marcelo. A dialética na construção coletiva do saber científico. In: REGNER, A.C.K.P. & ROHDEN, L. (orgs). A filosofia e a ciência redesenham horizontes. São Leopoldo: Editora da UNISINOS, 2005.

FEYERABEND, Paul. Contra o método. São Paulo: UNESPE, 2007 (1ª. Edição: 1975).

KUHN, Thomas. O caminho desde a Estrutura. São Paulo: UNESPE, 2003. (1ª. Edição: 2000).

LAKATOS, Imre. Falsification and the methodology of scientific research programs. In: LAKATOS, I. & MUSGRAVE, A. (eds.). Criticism and the growth of knowledge. Cambridge: Cambridge University Press, 1970.

 

Citação bibliográfica deste artigo:

REGNER, Anna Carolina. É o whiggismo evitável? Boletim de História e Filosofia da Biologia 4 (4): 5-7, dez. 2010. Versão online disponível em: <http://www.abfhib.org/Boletim/ Boletim-HFB-04-n4-Dez-2010.pdf >. Acesso em dd/mm/aaaa. [colocar a data de acesso à versão online]

 

 

4. Teses recentes sobre história e filosofia da biologia

NUNES NETO, Nei de Freitas. Bases epistemológicas para um modelo funcional em Gaia. Dissertação (Mestrado em Ensino, Filosofia e História das Ciências). Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, BA, 2008. Orientador: Charbel Niño El-Hani. Defendida em 03/07/2008.

Resumo. Gaia é um programa de pesquisa científico, que foi proposto pelo químico inglês James Lovelock, no final da década de 1960, a partir de estudos desenvolvidos por ele para a NASA, com o objetivo de formular métodos para a detecção de vida em outros planetas. O programa de pesquisa foi fortemente rejeitado pela comunidade científica nos primeiros anos de sua história, ao passo que foi recebido com entusiasmo por grupos espiritualistas e ambientalistas. Entretanto, a rejeição da comunidade científica tem sido significativamente reduzida, sobretudo a partir de meados dos anos 1980 e anos 1990. Neste trabalho, temos como objetivo oferecer uma abordagem consistente para as atribuições e explicações funcionais no programa de pesquisa. Assim, para alcançar o objetivo, realizamos nosso trabalho em duas vertentes. Na primeira, apresentamos uma discussão sobre o surgimento e o desenvolvimento de Gaia enquanto um programa de pesquisa, as questões epistemológicas suscitadas por ele e suas implicações para a compreensão do sistema Terra. Na segunda vertente, discutimos as atribuições e explicações funcionais na filosofia da biologia, com ênfase para duas teorias: a abordagem etiológica selecionista de Larry Wright e a análise funcional de Robert Cummins. Defendemos que as duas teorias são empreitadas distintas e que não devem ser unificadas numa única abordagem sobre as funções. Isto leva-nos a apoiar a tese do consenso dualista de Godfrey-Smith. Apresentamos também a crítica de Cummins às abordagens etiológicas selecionistas, as quais ele rotulou de neo-teleologia. Apesar de algumas das críticas de Cummins localizarem corretamente falhas naquela abordagem, outras críticas perdem de vista pontos importantes das abordagens etiológicas de função, que não podem ser deixadas de lado. A partir das críticas de ambos os lados do debate filosófico, a compreensão sobre função na biologia, é sobremaneira enriquecida. Em seguida, a partir das discussões anteriores, nos voltamos especificamente para as atribuições e explicações funcionais em Gaia, construindo uma síntese dos argumentos apresentados nas duas vertentes do trabalho. Buscamos uma solução para a questão teórica investigada a partir da perspectiva sobre as funções de Cummins. Para este filósofo, função é uma capacidade de um ítem à qual recorremos para compreender a realização de uma capacidade do sistema que o contém. Após discutir questões como decomposição e localização em sistemas complexos e em Gaia, aplicamos a teoria de Cummins sobre as funções a um subsistema de Gaia, o sistema proposto pela hipótese CLAW, que interliga algas oceânicas, compostos voláteis de enxofre, nuvens sobre os oceanos e o clima global. O resultado de tal aplicação é um modelo funcional do sistema, onde as capacidades dos componentes são tratadas como as funções destes e explicam, juntamente com a organização do sistema, a realização da capacidade sistêmica em questão, a saber, a produção de nuvens sobre os oceanos. O modelo proposto permite concluir que a análise funcional de Cummins fornece um quadro teórico consistente para a construção de explicações funcionais consistentes em Gaia e pode contribuir também para a superação do problema das explicações teleológicas no programa de pesquisa. Por fim, consideramos as implicações de Gaia para o ensino de ciências, especialmente o de biologia, na medida em que ela já está presente nos livros didáticos de biologia do ensino médio. Além disso, Gaia pode ser uma interessante via de inserção de história e filosofia da ciência no ensino de ciências, assim como pode contribuir para a abordagem de temas ambientais.

SANTOS, Vanessa Carvalho dos. Genes, informação e semiose: do conhecimento de referência ao ensino de Biologia. Dissertação (Mestrado em Ensino, Filosofia e História das Ciências). Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, BA, 2008. Orientador: Charbel Niño El-Hani. Defendida em 03/09/2008.

Resumo. Na era pós-genômica, co-existe uma diversidade de conceitos e modelos de gene. Frente a demanda de se assimilar a complexidade e a diversidade da arquitetura genética, as quais dificultam as individuações moleculares de gene, tem se argumentado a favor do abandono da busca por um conceito unificado de gene para adotarmos um pluralismo cientifico e uma visão instrumentalista dos mesmos. Em suma, podemos inferir que a necessidade de acomodar os novos resultados empíricos a idéia do gene como unidade forca os programas de pesquisa a enfatizarem diferentes características em situações variadas ou para distintos propósitos. Opiniões como estas foram emitidas por muitos cientistas e filósofos da biologia, para os quais e desnecessária a adoção de um conceito de gene único e abrangente, que inclua toda a diversidade de significados e funções epistêmicas conectada a esse termo e que, contanto que os contextos de aplicação sejam bem definidos, esta diversidade será frutífera em termos explicativos e heurísticos. O status quo na genética e na biologia molecular torna patente a subordinação dos padrões de expressão genética ao complexo e dinâmico aparato regulatório celular. Nesta conjuntura, a depender dos propósitos de um domínio de investigação, e necessário prescindir não apenas da concepção de gene como unidade de estrutura, função e informação, mas ainda das propriedades de permanência entre gerações e de estabilidade tradicionalmente atribuídas a ele. Decerto que estas duas últimas propriedades são salvaguardadas quando conferidas ao DNA. Todavia, ha muito se sabe que esta molécula não e um agente autônomo que encerra em si mesmo a decisão de quando e onde se expressar e duplicar, muito menos e a sua estabilidade um atributo inabalável. Assim, não ha nada de contra-intuitivo em atentar que ser estável e permanente não e algo peculiar do DNA em si mesmo, que estas são características inapropriadamente imputáveis a ele, se não como propriedades relacionais. Se esta ressalva for estendível ao geral das propriedades biológicas significantes atribuídas convencionalmente aos ácidos nucléicos (DNA ou RNA), torna-se premente a necessidade de se ressaltar a relevância de suas interações dinâmicas com a miríade de processadores enzimáticos que convergem sobre eles, subordinados ao contexto sistêmico em que estão imersos. A semiótica do lógico pragmatista Charles Sanders Peirce constitui uma ferramenta analítica heuristicamente poderosa para acomodar os desafios atuais aos conceitos de gene e de informação na biologia. No modelo semiótico que empregamos, as maquinarias de transcrição (e.g., RNA polimerase), de tradução (e.g., o ribossomo), da emenda alternativa (e.g., o spliceossomo) e, na sinalização celular, um receptor de membrana que reconhece um dado sinal extracelular são considerados como sistemas interpretativos subordinados ao interprete global, a célula. Cremos que, dentro desta perspectiva, podemos refutar de maneira contundente as visões genocêntricas que atribuem aos genes um papel privilegiado na hereditariedade e no desenvolvimento com base na suposição de que os mesmos, e apenas eles, carregariam informação – mais precisamente, em sua seqüência de bases. Nossos resultados sugerem que ha, nos livros didáticos de ensino médio, um equivalente a chamada ‘semiotização espontânea’ da biologia, que se encontra, porem, intrinsecamente associada a controversa concepção seqüencial da informação biológica. Será interessante averiguar, em trabalhos futuros, se a transposição do modelo alternativo semiótico que aqui aplicamos para compreensão dos sistemas genéticos de informação pode ser conduzida em termos de uma ‘semiotização estimulada’ no ensino médio, dentro das possibilidades de transposição didática da própria semiótica.

 

 

5. Traduções de textos primários de história da Biologia: “Charles Darwin e os marrecos: origem comum e herança de caracteres adquiridos”

 

Roberto de Andrade Martins

Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

roberto.andrade.martins@gmail.com

 

Apresentamos aqui a tradução de uma parte do capítulo VIII do livro Variation of animals and plants under domestication, de Charles Darwin.

DARWIN, Charles. The variation of animals and plants under domestication. 2nd ed. London: John Murray, 1875. 2 vols.

O capítulo discute a origem de diversos animais domésticos – marreco, ganso, galinha d’Angola, canário, peixes ornamentais, abelhas, bicho da seda. Selecionamos apenas a primeira parte, referente aos marrecos (costuma-se traduzir “duck” por “pato”, porém a tradução tecnicamente correta de “duck” é “marreco”, no Brasil). Trata-se de um texto representativo da análise que Darwin faz para tentar mostrar a realidade do fenômeno de transformação das espécies, através da análise detalhada de animais domésticos.

Primeiramente, Darwin descreve algumas das raças mais importantes de marrecos. Nessa parte, acrescentamos algumas ilustrações ao texto, para facilitar a compreensão dos leitores. Darwin enfatiza as semelhanças e diferenças entre essas raças, e chama a atenção dos leitores para a inexistência de qualquer referência a elas, na Antigüidade, o que parecia indicar que a domesticação e a produção das várias raças descritas ocorreram em menos de 2.000 anos. Esse é um ponto muito importante, para Darwin, pois mostra que em um prazo curto podem ser introduzidas modificações muito importantes nos animais domésticos, pela ação do homem – e, portanto, na natureza também podem ser desenvolvidas diferenças enormes, em um tempo mais longo.

É interessante notar a grande quantidade de fontes de informação diferentes que Darwin utiliza, incluindo não apenas publicações, mas também seu conhecimento direto e a obtenção de informações de correspondentes, que também lhe fornecem espécimes raros para análise.

Darwin considera que todas as raças domésticas são provenientes do marreco selvagem (atualmente denominado Anas platyrhynchos) e apresenta várias evidências importantes, como experimentos realizados em sua época de domesticação do marreco selvagem, seu cruzamento com raças domésticas, coloração e detalhes das penas dos machos, etc. É interessante observar que o próprio Darwin criou marrecos e realizou experimentos de cruzamento, para esse fim.

Depois de enfatizar os pontos semelhantes, que reforçam a idéia de uma origem comum, Darwin analisa diferenças notáveis entre algumas raças, inclusive em seus esqueletos. Esta é uma parte muito interessante do texto, pois mostra um Darwin que não costumamos descrever. Ele analisa cuidadosamente os ossos de diversas raças, comparando-as com o marreco selvagem. Mede, pesa, estabelece comparações quantitativas, apresentando tabelas com seus dados. Não utiliza qualquer análise estatística, o que é compreensível – na época, raramente se empregava estatística no estudo de dados experimentais de história natural. É muito importante notar que essa análise das mudanças quantitativas é utilizada por Darwin para argumentar a favor da herança de caracteres adquiridos pelo uso e pelo desuso. Ele argumenta que o aumento relativo do tamanho e do peso dos ossos das patas dos marrecos domésticos, e a redução dos ossos das asas, quando comparados aos marrecos selvagens, seria devido à ação do uso e desuso e sua transmissão aos descendentes. Embora às vezes se pense que Lamarck foi o principal defensor da herança de caracteres adquiridos por uso e desuso, foi Darwin e não Lamarck quem estudou mais detalhadamente essa idéia e apresentou enorme quantidade de evidências favoráveis à mesma.

A presente tradução, feita a partir da segunda edição da obra Variation of animals and plants under domestication, não procurou seguir a formatação do texto original, por motivo de disponibilização na Internet. As notas de rodapé foram colocadas abaixo de cada parágrafo, para facilidade de consulta. Foram acrescentados alguns comentários do tradutor, entre colchetes. As duas únicas figuras originais estão identificadas como “Figura 39” e “Figura 40”, as outras foram acrescentadas nesta tradução para facilitar a compreensão do leitor. A paginação do original é indicada por números entre colchetes.

Charles Darwin

Variação dos animais e plantas sob domesticação

Volume 1, Capítulo VIII (parcial) – Marrecos

 

[p. 290] Como em casos anteriores, em primeiro lugar descreverei brevemente as principais raças domésticas do marreco:

RAÇA 1. Marreco doméstico comum. Varia muito em cores e proporções, e difere em instintos e disposição do marreco selvagem. Existem várias sub-raças: (1) Aylesbury, de tamanho grande, branco, com bico e as pernas amarelo pálido; saco cutâneo abdominal muito desenvolvido. (2) Rouen, de tamanho grande, colorido como o marreco selvagem, com bico verde ou manchado; saco cutâneo muito desenvolvido. (3) Marreco de topete [tufted duck], com um grande penacho de penugem fina, apoiado sobre uma massa carnuda, com o crânio perfurado abaixo. O nó no topo de um marreco que eu importei da Holanda tinha duas e meia polegadas de diâmetro. (4) Labrador (ou Canadense, ou Buenos Aires, ou das Índias Orientais), plumagem totalmente negra, bico mais largo, relativamente ao seu tamanho, do que no marreco selvagem, ovos levemente tingidos de preto. Esta sub-raça talvez devesse ser classificada como raça; inclui duas sub-variedades, uma tão grande como o marreco doméstico comum, que tenho mantido viva, e outra menor e, muitas vezes, capaz de voar1. Presumo que foi esta última sub-variedade que foi descrita na França2 como voando bem, sendo bastante selvagem, e quando cozida tem o sabor do marreco selvagem. No entanto, [p. 291] esta sub-variedade é polígama, como outros marrecos domesticados, ao contrário do marreco selvagem. Estes marrecos pretos Labrador se reproduzem fielmente; mas o Dr. Turral fornece um caso em que a sub-variedade Francesa produziu filhotes com algumas penas brancas na cabeça e pescoço, e com uma mancha de cor ocre sobre o peito.

[1. Poultry Chronicle (1854), vol. ii. p. 91 e vol. i. p. 330.]

[2. Dr. Turral, Bull. Soc. d'Acclimat., tom. vii., 1860, p. 541.]

Marreco doméstico Aylesbury

Marreco doméstico com topete

Marrecos domésticos Labrador (esquerda) e Rouen (direita)

RAÇA 2. Marreco bico de gancho [hook-billed duck]. Esta ave apresenta uma aparência extraordinária de um bico com curvatura para baixo. A cabeça muitas vezes tem tufos. A cor mais comum é branca, mas algumas são coloridos como os marrecos selvagens. É uma raça antiga, tendo sido notada em 1676.3 Mostra sua domesticação prolongada por botar ovos quase incessantemente, como as aves que são chamadas de botadeiras eternas.4

[3. Willughby's Ornithology, por Ray, p. 381. Esta raça também é representada por Albin in 1734 em seu Nat. Hist. of Birds, vol. ii. p. 86.]

[4. F. Cuvier, em Annales du Muséum, tom. ix. p. 128, diz que apenas a troca de penas e a incubação interrompem a postura desses marrecos. O Sr. B. P. Brent faz um comentário semelhante em Poultry Chronicle, 1855, vol. iii. p. 512.]

RAÇA 3. Marreco chamariz [call duck]. Notáveis por seu pequeno tamanho, e pela loquacidade extraordinária das fêmeas. Bico curto. Estas aves são brancas ou coloridas como o marreco selvagem.

Marreco doméstico chamariz, cinzento

RAÇA 4. Marreco pingüim [penguin duck, atualmente denominado Indian runner, ou seja, corredor indiano]. Esta é a mais notável de todas as raças, e parece ter se originado no Arquipélago Malaio. Caminha com seu corpo extremamente ereto, e com o pescoço fino esticado diretamente para cima. Bico bastante curto. Cauda virada para cima, incluindo apenas 18 penas. Fêmur e metatarso alongados.

Marreco doméstico pingüim [corredor indiano]

Quase todos os naturalistas admitem que as diferentes raças são descendentes do marreco selvagem comum (Anas boschas) [A designação “Anas boschas”, utilizada por Darwin seguindo Linné, foi substituída por Anas platyrhynchos.]; a maioria dos criadores, por outro lado, têm uma opinião muito diferente, como de costume.5 A menos que neguemos que a domesticação prolongada, durante séculos, pode afetar até mesmo características tão sem importância como a cor, tamanho, e em um leve grau as proporções de dimensões e a disposição mental, não há qualquer razão para duvidar que o marreco doméstico descende da espécie selvagem comum, pois um não difere dos outro em nenhuma característica importante. Temos algumas evidências históricas no que diz respeito ao período e ao progresso da domesticação do marreco. Ele era desconhecido6 para os antigos egípcios, os judeus do Antigo Testamento, e os gregos do período homérico. Cerca de dezoito séculos atrás, Columella7 e Varro falam da [p. 292] necessidade de manter os marrecos em compartimentos fechados por redes, como outras aves selvagens, de modo que, neste período, havia o risco de voarem para longe. Além disso, o plano recomendado pelo Columella para aqueles que quisessem aumentar seu estoque de marrecos, a saber, recolher os ovos das aves selvagens e colocá-los debaixo de uma galinha, mostra, como observa o Sr. Dixon, “que o marreco nessa época não tinha se tornado um recluso naturalizado e prolíficos do galinheiro romano”. A origem do marreco doméstico a partir das espécies selvagens é reconhecida em quase todas as línguas da Europa, como há muito tempo Aldrovandi observou, pois o mesmo nome é aplicada a ambos. O marreco selvagem tem uma grande distribuição, do Himalaia à América do Norte. Ele se cruza facilmente com a ave doméstica, e os descendentes desses cruzamentos são perfeitamente férteis.

[5. Rev. E. S. Dixon, Ornamental and Domestic Poultry (1848), p. 117. Sr. B. P. Brent, em Poultry Chronicle, vol. iii., 1855, p. 512.]

[6. Crawfurd on the Relation of Domesticated Animals to Civilisation, lido diante da Brit. Assoc. em Oxford, 1860.]

[7. Dureau de La Malle, em Annales des Sciences Nat., tom. xvii. p. 164; e tom. xxi. p. 55. Rev. E. S. Dixon, Ornamental Poultry, p. 118. Na época de Aristóteles não eram conhecidos marrecos domesticados, conforme comentado por Volz, em seu Beiträge zur Kulturgeschichte, 1852, p. 78.]

Marreco selvagem, Anas platyrhynchos, pintado por Audubon

Tanto na América do Norte quanto na Europa, verificou-se que o marreco selvagem é fácil de domesticar e reproduzir. Na Suécia, esta experiência foi cuidadosamente realizada por Tiburtius; ele conseguiu criar marrecos selvagens durante três gerações, mas, apesar de serem tratados como marrecos comuns, não mudaram sequer em uma única pena. As aves jovens sofriam quando as deixavam nadar em água fria,8 como se sabe acontecer com os filhotes do marreco doméstico comum – embora este seja um fato estranho. Um observador bem conhecido e cuidadoso da Inglaterra9 descreveu detalhadamente seus experimentos bem sucedidos e repetidos muitas vezes de domesticar o marreco selvagem. As aves jovens são facilmente criadas a partir de ovos incubados sob uma fêmea Bantam [uma raça pequena de marrecos]; mas para ter sucesso, é indispensável não colocar juntamente ovos de marreco selvagem e doméstico sob a mesma galinha, pois neste caso “os filhotes de marrecos selvagens morrem, deixando os seus irmãos mais resistentes de posse indisputada dos cuidados de sua mãe adotiva. A diferença inicial de hábitos entre os [p. 293] marrequinhos recém-nascidos ocasiona esse resultado quase com certeza”. Os marrequinhos selvagens eram desde o início muito mansos em relação àqueles que cuidavam deles, desde que usassem as mesmas roupas, e também em relação aos cães e gatos da casa. Eles até mesmo beliscavam os cães com seus bicos para afastá-los de qualquer lugar que cobiçavam. Mas eles se assustavam muito com homens e cães estranhos. Diferentemente do que ocorreu na Suécia, o Sr. Hewitt descobriu que seus pássaros jovens sempre se transformavam e deterioravam suas características no decurso de duas ou três gerações, apesar do grande cuidado tomado para evitar o seu cruzamento com marrecos domesticados. Depois da terceira geração seus pássaros perderam o movimento elegante das espécies selvagens, e começaram a adquirir a marcha do marreco comum. Eles aumentaram de tamanho a cada geração, e suas pernas tornaram-se menos finas. O colarinho branco no pescoço do macho tornou-se mais largo e menos regular, e algumas de suas penas primárias das asas tornaram-se mais ou menos brancas. Quando isso ocorreu, o Sr. Hewitt destruiu quase todo o seu estoque e obteve ovos frescos de ninhos silvestres, de modo que ele nunca criou uma mesma família por mais de cinco ou seis gerações. Sua aves continuaram a se acasalar em pares, e nunca se tornaram polígamas, como o marreco doméstico comum. Eu forneci esses detalhes, porque nenhum outro caso, que eu saiba, foi registrado tão cuidadosamente por um observador competente, do progresso da mudança das aves selvagens criadas por várias gerações em uma condição doméstica.

[8. Cito esse relato a partir de Die Enten-und Schwanenzucht, Ulm 1828, s. 143. Ver Audubon's Ornithological Biography, vol. iii. p. 168, sobre a domesticação de marrecos no Mississippi. Para o mesmo fato na Inglaterra, ver o Sr. Waterton no Mag. of Nat. Hist. de Loudon, vol. viii. 1835, p. 542; e o Sr. St. John, Wild Sports and Nat. Hist. of the Highlands, 1846, p. 129.]

[9. Sr. E. Hewitt, em Journal of Horticulture, 1862, p. 773; e 1863, p. 39.]

A partir destas considerações dificilmente pode haver dúvida de que o marreco selvagem é o progenitor do tipo doméstico comum; e não precisamos procurar outras espécies para os antepassados das raças mais distintas, ou seja, os marrecos pingüim, chamariz, bico de gancho, topete e Labrador. Não vou repetir os argumentos utilizados nos capítulos anteriores sobre a improbabilidade de que o homem, em tempos antigos, tenha domesticado várias espécies que depois se tornaram desconhecidas ou extintas, pois os marrecos não são facilmente exterminados no estado selvagem; ou de que alguma das supostas espécies originais tivesse características anormais em comparação com todas as espécies do gênero, como nos marrecos pingüim e de bico de gancho; de que todas as raças, tanto quanto se sabe, [p. 294] são férteis entre si;10 de que todas as raças têm a mesma disposição geral, instinto, etc. Mas deve-se notar um fato sobre essa questão: na grande família dos marrecos, uma única espécie, ou seja, o macho de A. boschas, tem suas quatro penas médias da cauda enroladas para cima; ora, em todas as raças domésticas indicadas acima, existem estas penas enroladas, e supondo que elas são descendentes de espécies distintas, devemos assumir que o homem antigamente conseguiu encontrar espécies todas as quais tinham esse caráter que agora é exclusivo. Além disso, em cada raça há subvariedades que são coloridas quase exatamente como o marreco selvagem, como tenho visto com a maior e a menor das raças, ou seja, Rouen e marrecos chamariz e, como afirma o Sr. Brent,11 ocorreu no caso do marreco com bico de gancho. Este senhor, como me informou, cruzou um marreco macho Aylesbury branco e uma marreca Labrador preta, e alguns dos marrequinhos, quando cresceram, assumiram a plumagem do marreco selvagem.

[10. Encontrei várias afirmações sobre a fertilidade das diversas raças quando cruzadas. O Sr. Yarrell me assegura que os marrecos chamariz e comum são perfeitamente férteis juntos. Eu cruzei marrecos de bico de gancho e comum, e um pingüim e um Labrador, e os marrecos cruzados eram bastante férteis, embora eles não fossem cruzados entre si, de modo que o experimento não foi desenvolvido de forma completa. Alguns mestiços de pingüim e Labrador foram novamente cruzados com pingüim, e depois eu os cruzei entre si, e eram extremamente férteis.]

[11. Poultry Chronicle, 1855, vol. iii. p. 512.]

No que diz respeito aos marrecos pingüins, eu não tenho visto muitos espécimes, e nenhum colorido exatamente como o marreco selvagem; mas Sir James Brooke me enviou três peles de Lombok e Bali, no Arquipélago Malaio; as duas fêmeas eram mais pálidas e mais ruivas do que o marreco selvagem, e o macho diferia por ter toda a superfície inferior e superior cinza-prateada (com exceção do pescoço, cobertura da cauda, cauda e asas), finamente desenhada com linhas escuras, assemelhando-se muito com certas partes da plumagem dos marrecos selvagens. Mas descobri que esse macho era idêntico, em todas as suas penas, a uma variedade da raça comum adquirida de uma fazenda em Kent, e tenho visto ocasionalmente espécimes similares em outros lugares. A ocorrência de um marreco criado sob um clima tão peculiar como a do Arquipélago Malaio, onde a espécie selvagem não existe, com plumagem exatamente igual [p. 295] à que pode ser vista ocasionalmente em nossas fazendas, é um fato digno de nota. No entanto, o clima do Arquipélago Malaio aparentemente, tende a fazer o marreco variar muito, pois Zollinger,12 falando da raça Pingüim, diz que em Lombok “há uma variedade de marrecos pouco usual e maravilhosa”. Um marreco macho Pingüim que eu mantive vivo diferia daqueles cujas peles me foram enviadas de Lombok, tendo seu peito e costas parcialmente coloridas de castanho-escuro, assemelhando-se assim mais ao marreco.

[12. Journal of the Indian Archipelago, vol. v. p. 334.]

A partir destes fatos diversos, mais especificamente a partir do machos de todas as raças terem penas da cauda encurvadas, e por determinadas subvariedades de cada raça, ocasionalmente, assemelhar-se à plumagem geral do marreco selvagem, podemos concluir com segurança que todas as raças são descendentes de A. boschas. [ou seja, Anas platyrhynchos]

Agora vou indicar algumas das peculiaridades características das diversas raças. Os ovos variam de cor; alguns marrecos comuns botam ovos esverdeados claros e outros ovos completamente brancos. Os ovos que são postos primeiramente em cada estação pelo marreco Labrador preto, são de cor preta, como se tivessem sido cobertos com tinta. Um bom observador garantiu-me que em um ano os seus marrecos dessa raça botaram ovos quase perfeitamente brancos. Outro caso curioso mostra que ocorrem às vezes variações incomuns, e são herdadas; o Sr. Hansell13 relata que tinha um marreco comum que sempre punha ovos com a gema de cor castanho-escura, como cola derretida; e os marrecos jovens, nascidos a partir desses ovos, colocavam o mesmo tipo de ovos, de modo que a raça teve que ser destruída.

[13. The Zoologist, vols. vii, viii. (1849-1850), p. 2353.]

O marreco bico de gancho é altamente notável (ver figura do crânio, xilogravura 39); e seu bico peculiar foi herdado pelo menos desde o ano 1676. Esta estrutura é, evidentemente, análoga à que é descrita para o pombo Bagadotten. O Sr. Brent14 diz que, quando marrecos bico de gancho são cruzados com marrecos comuns, “são produzidos muitos filhotes com a parte superior da mandíbula mais curta do que a inferior, o que não raro provoca a morte da ave”. Um tufo de penas sobre a cabeça não é uma ocorrência rara entre os marrecos; ocorre na raça de tufos verdadeiros, no bico de gancho, no tipo comum de fazendo e em um marreco que não tem qualquer outra peculiaridade e que me foi enviado do Arquipélago Malaio. O tufo só é interessante quando afeta o crânio, que se torna ligeiramente mais arredondado e é perfurado por inúmeras aberturas.

[14. Poultry Chronicle, 1855, vol. iii. p. 512.]

Os marrecos chamarizes são notáveis por sua loquacidade extraordinária: [p. 296] o macho só chia, como machos comuns; no entanto, quando cruzado com a marreca comum, ele transmite aos seus descendentes do sexo feminino a forte tendência de grasnar. Essa loquacidade parece à primeira vista uma característica adquirida sob domesticação. Mas a voz varia nas diferentes raças; o Sr. Brent15 diz que os marrecos bico de gancho são muito loquazes, e que os Rouen proferem um “grito de chato, alto, e monótono, facilmente distinguível por um ouvido experiente”. Como a loquacidade do marreco chamariz é muito útil, estas aves tendo sido utilizadas como chamariz, essa qualidade pode ter sido aumentada pela seleção. Por exemplo, o coronel Hawker diz que, se não podem ser obtidos jovens marrecos selvagens para chamariz, “podem ser substituídos por pássaros domesticados que são os mais clamorosos, mesmo se sua cor não for como a dos selvagens”.16 Afirmou-se incorretamente que os marrecos chamariz chocam seus ovos em menos tempo do que os marrecos comuns.17

[15. Poultry Chronicle, vol. iii. 1855, p. 312. Com respeito aos Rouen, ver o que foi ditto no vol. i. 1854, p. 167.]

[16. Col. Hawker, Instructions to young Sportsmen, citado pelo Sr. Dixon no seu Ornamental Poultry, p. 125.]

[17. Cottage Gardener, 9 de Abril de 1861.]

O marreco pingüim é a mais notável de todas as raças; o pescoço fino e o corpo são mantidos eretos; as asas são pequenas; a cauda é virada para cima; e os ossos da coxa e metatarsos são consideravelmente alongados em proporção com os mesmos ossos no marreco selvagem. Em cinco espécimes examinados por mim, havia apenas dezoito penas na cauda em vez de vinte, como no marreco selvagem; mas também encontrei apenas dezoito e dezenove penas da cauda em dois marrecos Labrador. Sobre o dedo médio da pata, em três exemplares, havia 27 ou 28 scutellæ, enquanto em dois marrecos selvagens havia trinta e um e trinta e dois. Quando o marreco pingüim é cruzado, transmite muito fortemente sua forma peculiar do corpo e da marcha à sua prole; isso ficou claro com alguns híbridos criados no Zoological Garden entre uma destas aves e o ganso egípcio (Anser aegyptiacus)18 e também com alguns mestiços que produzi entre os marrecos pingüim e Labrador. Não estou muito surpreso que alguns escritores defendam que esta raça deve ser descendente de uma espécie desconhecida e diferente; mas pelas razões já atribuídas, parece-me muito mais provável que seja descendente, muito modificada pela domesticação em um clima não natural, de Anas boschas.

[18. Esses híbridos foram descritos pelo Sr. Selys-Longchamps em Bulletins Acad. Roy. de Bruxelles (tom. xii. No 10).]

Caracteres osteológicos. Os crânios das diversas raças diferem muito pouco uns dos outros e do crânio do marreco selvagem, exceto no comprimento proporcional e curvatura dos premaxilares. Estes ossos são curtos no marreco chamariz, e uma linha traçada a partir de suas extremidades para o topo do crânio é quase reta, em vez de ser côncava, como no marreco comum; de modo que [p. 297] o crânio se assemelha ao de um pequeno ganso. No marreco bico de gancho (fig. 39), esses mesmos ossos, bem como o maxilar inferior, se encurvam para baixo de forma muito notável, tal como representado. No marreco Labrador o premaxilares são bastante mais largos do que no marreco selvagem; e em dois crânios desta raça, os sulcos verticais de cada lado do osso supra-ocipital são muito proeminentes. No pingüim os premaxilares são relativamente mais curtos do que no marreco selvagem; e os pontos inferiores do paramastóide mais proeminentes. Em um marreco holandês de topete, o crânio sob o topete enorme era um pouco mais globular e era perfurado por duas grandes aberturas; neste crânio, os ossos lacrimais foram prolongados muito mais para trás, de modo a ter uma forma diferente e quase tocando os processos postero-laterais dos ossos frontais, assim, quase completando a órbita óssea do olho. Como os ossos quadrado e pterigóides possuem forma muito complexa e se relacionam com tantos outros ossos, eu os comparei cuidadosamente em todas as raças principais; mas com exceção do tamanho eles não apresentaram diferença.

Fig. 39. Crânios, vistos lateralmente, reduzidos a dois terços do tamanho natural. A. Marreco selvagem. B. Marreco bico de gancho.

Vértebras e costelas. Em um esqueleto do marreco Labrador havia as habituais quinze vértebras cervicais e as usuais nove vértebras dorsais que sustentam as costelas; no outro esqueleto havia quinze vértebras cervicais e dez dorsais com as costelas; tanto quanto foi possível julgar, isso não se deveu meramente a uma costela ter se desenvolvido na primeira vértebra lombar; pois em ambos esqueletos as vértebras lombares concordavam perfeitamente em número, forma e tamanho com as do marreco selvagem. Em dois esqueletos do marreco chamariz havia [p. 298] quinze vértebras cervicais e nove dorsais; em um terceiro esqueleto, pequenas costelas estavam presas àquela que é chamada de décima quinta vértebra cervical, totalizando dez pares de costelas; mas essas dez costelas não correspondiam, ou não surgiam das mesmas vértebras, que as dez no marreco Labrador mencionado acima. No marreco chamariz, que tinha pequenas costelas presas à décima quinta vértebra cervical, as espinhas hemais da décima terceira e da décima quarta vértebras (cervicais) e da décima sétima (dorsal) correspondem às espinhas da décima quarta, décima quinta e décima oitava vértebras do marreco selvagem: assim, cada uma dessas vértebras adquiriu uma estrutura própria àquela que lhe é posterior em posição. Na oitava vértebra cervical deste mesmo marreco chamariz (fig. 40, B) os dois ramos da espinha hemal estão muito mais próximos do que no marreco selvagem (A) e os processos hemais descendentes são muito mais curtos. No marreco pingüim o pescoço, por causa de ser fino e ereto, parece enganosamente (como determinado por medidas) ser muito alongado, mas as vértebras cervicais e dorsais não apresentam diferença; as vértebras dorsais posteriores, no entanto, são mais completamente anquilosadas à pélvis do que no marreco selvagem. O marreco Aylesbury tem quinze vértebras cervicais e dez dorsais, dotadas de costelas, mas o mesmo número de vértebras lombares, sacrais e caudais, tanto quanto foi possível notar, como no marreco selvagem. As vértebras cervicais neste mesmo marreco (fig. 40, D) eram muito mais largas e grossas relativamente ao seu comprimento do que no selvagem (C); tanto que eu pensei que era útil fornecer um desenho da décima segunda vértebra cervical dessas duas aves. A partir das afirmações anteriores vemos que a décima quinta vértebra cervical ocasionalmente se torna modificada em um vértebra dorsal, e quanto isso ocorre todas as vértebras adjacentes são modificadas. Também vemos que se desenvolve ocasionalmente uma vértebra dorsal adicional com uma costela, permanecendo aparentemente o número de vértebras cervicais e lombares como é habitual.

Examinei o aumento ósseo da traquéia nos machos das raças pingüim, chamariz, bico de gancho, Labrador e Aylesbury; em todas ele tinha forma idêntica.

A pélvis é notavelmente uniforme; mas no esqueleto do marreco bico de gancho a parte anterior é muito dobrada para dentro; no Aylesbury e algumas outras raças, o foramen isquiádico é menos [p. 299] alongado. No esterno, fúrcula, coracóides e escápulas, as diferenças são tão leves e são variáveis que não são dignas de nota, exceto que nos dois esqueletos do marreco pingüim a porção terminal da escápula estava muito atenuada.

Fig. 40. Vértebras cervicais, em tamanho natural. A. Oitava vértebra cervical do marreco selvagem, vista sobre a superfície hemal. B. Oitava vértebra cervical do marreco chamariz, vista como acima. C. Décima segunda vértebra cervical do marreco selvagem, vista lateralmente. D. Décima segunda vértebra cervical do marreco Aylesbury, vista lateralmente.

Nos ossos da perna e da asa não foi possível observar nenhuma modificação de forma. Mas nos marrecos pingüim e bico de gancho, as falanges terminais da asa são um pouco mais curtas. No primeiro deles, o fêmur, o metatarso (mas não a tíbia) são consideravelmente mais longos, relativamente aos mesmos ossos do marreco selvagem, e aos ossos das asas em ambos os pássaros. Este alongamento dos ossos da perna pode ser visto enquanto a ave estava viva, e sem dúvida está associado ao seu modo peculiar de andar ereto. Em um grande marreco Aylesbury, por outro lado, a tíbia era o único osso da perna que, relativamente aos outros ossos, era ligeiramente alongada.

Sobre os efeitos do aumento e diminuição de uso dos membros. Em todas as raças, os ossos das asas (medidos separadamente depois de terem sido limpos) se tornaram ligeiramente mais curtos, relativamente aos da perna, em comparação com os mesmos ossos do marreco selvagem, como pode ser visto na seguinte tabela:

 

Nome da raça

Soma dos comprimentos do fêmur, da tíbia e do metatarso

Soma dos comprimentos do úmero, do rádio e do metacarpo

Razão

 

 Polegadas

Polegadas

 

Marreco selvagem

7·14

 9·28

100 : 129

Aylesbury

8·64

10·43

100 : 120

Topete (Holandês)

8·25

 9·83

100 : 119

Pingüim

7·12

 8·78

100 : 123

Chamariz

6·20

 7·77

100 : 125

 

Comprimento dos mesmos ossos

Comprimento de todos os ossos da asa

 

 

Polegadas

Polegadas

 

Marreco selvagem (outro espécime)

6·85

10·07

100 : 147

Marreco doméstico comum

8·15

11·26

100 : 138

 

Na tabela anterior vemos, por comparação com o marreco selvagem, que a redução do comprimento dos ossos da asa, relativamente aos das pernas, embora ligeiro, é universal. A redução é menor no marreco chamariz, que tem o poder e o hábito de voar freqüentemente.

Em peso há uma maior diferença relativa entre os ossos da perna e da asa, como pode ser visto na seguinte tabela: [p. 300]

 

Nome da raça

Peso do fêmur, da tíbia, e do metatarso

Peso do úmero, do rádio, e do metacarpo

Razão

 

Grãos

Grãos

 

Marreco selvagem

 54

 97

100 : 179

Aylesbury

164

204

100 : 124

Bico de gancho

107

160

100 : 149

Topete (Holandês)

111

148

100 : 133

Pingüim

 75

 90.5

100 : 120

Labrador

141

165

100 : 117

Chamariz

 57

 93

100 : 163

 

Peso de todos os ossos da perna e do pé

Peso de todos os ossos da asa

 

 

Grãos

Grãos

 

Selvagem (outro espécime)

 66

115

100 : 173

Marreco doméstico comum

127

158

100 : 124

 

Nessas aves domésticas, o peso consideravelmente reduzido dos ossos da asa (isto é, em média, vinte e cinco por cento de seu peso proporcional), assim como seu comprimento ligeiramente reduzido, relativamente aos ossos da perna, podem ser devidos não a uma redução efetiva dos ossos das asas, mas de um aumento de peso e comprimento dos ossos das pernas. A primeira das duas tabelas na página seguinte mostra que os ossos da perna, relativamente ao peso do esqueleto inteiro, realmente aumentaram de peso; mas a segunda tabela mostra que de acordo com o mesmo padrão, os ossos da asa também diminuíram realmente de peso; de modo que a desproporção relativa mostrada nas tabelas anteriores entre os ossos da asa e da perna, em comparação com os do marreco selvagem, é devida parcialmente ao aumento de peso e comprimento dos ossos da perna, e parcialmente à diminuição de peso e comprimento dos ossos da asa.

Com relação às duas tabelas seguintes, posso primeiramente afirmar que as testei tomando outro esqueleto de um marreco selvagem e de um marreco doméstico comum, e comparei o peso de todos os ossos da perna com todos os das asas, e o resultado foi o mesmo. Na primeira dessas tabelas vemos que os ossos da perna em cada caso aumentaram realmente de peso. Poder-se-ia esperar que, com o aumento ou diminuição do peso do esqueleto inteiro, os ossos da perna teriam se tornado proporcionalmente mais pesados ou leves; mas seu maior peso em todas as raças, relativamente aos outros ossos, só pode ser explicada por estas aves domésticas terem usado suas pernas para andar e ficar de pé muito mais do que as selvagens, pois elas nunca voam, e as raças mais artificiais raramente nadam. Na segunda tabela vemos, com exceção do segundo caso, uma clara redução do peso dos ossos da asa, e isso sem dúvida resultou de seu uso reduzido. O único caso excepcional, [p. 301] a saber, um dos marrecos chamariz, na verdade não é uma exceção, pois esta ave tinha constantemente o hábito de voar; e eu o vi dia após dia ascender de minhas terras, e voar por um longo tempo em círculos de mais de uma milha de diâmetro. Neste marreco chamariz não apenas não há redução, mas um real aumento no peso dos ossos da asa relativamente aos do marreco selvagem; e isso provavelmente é uma conseqüência da notável leveza e finura de todos os ossos do esqueleto.

 

Nome da raça

Peso do esqueleto inteiro (Observação: um metatarso e um pé foram removidos de cada esqueleto, pois tinham sido perdidos acidentalmente em dois casos)

Peso do fêmur, da tíbia, e do metatarso

Razão

 

Grãos

Grãos

 

Marreco selvagem

 839

 54

1000 : 64

Aylesbury

1925

164

1000 : 85

Topete (Holandês)

1404

111

1000 : 79

Pingüim

 871

 75

1000 : 86

Chamariz (do Sr. Fox)

 717

 57

1000 : 79

 

Peso do esqueleto, como acima.

Peso do úmero, do rádio, e do metacarpo

 

 

Grãos

Grãos

 

Marreco selvagem

 839

 97

1000 : 115

Aylesbury

1925

204

1000 : 105

Topete (Holandês)

1404

148

1000 : 105

Pingüim

 871

 90

1000 : 103

Chamariz (do Sr. Baker)

 914

100

1000 : 109

Chamariz (do Sr. Fox)

 717

 92

1000 : 129

 

Finalmente, eu pesei a fúrcula, coracóides e escápula de um marreco selvagem e de um marreco doméstico comum, e encontrei que seus pesos, relativamente ao do esqueleto todo, tinha a razão de cem no primeiro para oitenta e nove no segundo; isso mostra que esses ossos no marreco doméstico se reduziram onze por cento de seu devido peso proporcional. A proeminência da crista do esterno, relativamente ao seu comprimento, também é muito reduzida em todas as raças domésticas. Essas mudanças foram evidentemente causadas pela diminuição de uso das asas.

É bem sabido que várias aves, pertencentes a diferentes ordens, que habitam ilhas oceânicas, têm suas asas muito reduzidas em tamanho e são incapazes de voar. Sugeri na minha “Origem das Espécies” que, como essas aves não são [p. 302] perseguidas por inimigos, a redução de suas asas tinha sido causada provavelmente pelo desuso gradual. Assim, durante os estágios iniciais do processo de redução, tais aves provavelmente se assemelhariam aos nossos marrecos domesticados, quanto ao estado de seus órgãos de vôo. Este é o caso da galinha-d’água (Gallinula nesiotis) de Tristão da Cunha, que “pode flutuar um pouco, mas obviamente usa suas pernas, e não suas asas, como modo de fuga”. Ora, o Sr. Slater19 encontra nesta ave que as asas, esterno e coracóides são todos reduzidos em comprimento, e a crista do esterno em profundidade, em comparação com os mesmos ossos na galinha d’água européia (G. chloropus). Por outro lado, os ossos das coxas e da pélvis têm comprimento aumentado, o primeiro por quatro linhas, relativamente aos mesmos ossos na galinha d’água comum. Portanto, no esqueleto desta espécie natural ocorreram aproximadamente as mesmas mudanças – apenas um pouco mais desenvolvidas – que com nossos marrecos domésticos, e neste último caso presumo que ninguém colocará em dúvida que eles resultaram do uso reduzido das asas e uma maior utilização das pernas.

[19. Proc. Zoolog. Soc., 1861, p. 261.]

 

 

Citação bibliográfica deste artigo:

MARTINS, Roberto de Andrade. Charles Darwin e os marrecos: origem comum e herança de caracteres adquiridos. Boletim de História e Filosofia da Biologia 4 (3): 9-21, set. 2010. Versão online disponível em: <http://www.abfhib.org/Boletim/ Boletim-HFB-04-n4-Dez-2010.pdf >. Acesso em dd/mm/aaaa. [colocar a data de acesso à versão online]

 

 


Objetivos do Boletim

O objetivo do “Boletim de História e Filosofia da Biologia” é divulgar informações de interesse dos pesquisadores e estudantes interessados em história e filosofia da Biologia. Com periodicidade trimestral, este Boletim traz informações atualizadas sobre congressos e outros eventos relevantes (no Brasil e no exterior), novas publicações da área (livros e revistas), informações sobre teses e dissertações, informes sobre as atividades da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB), bem como artigos curtos, descritos abaixo.

Poderão ser publicados no “Boletim de História e Filosofia da Biologia” artigos assinados (curtos) que discutam temas gerais de interesse da área como, por exemplo, a metodologia da pesquisa em história e filosofia da biologia, ou o uso da história e filosofia da biologia no ensino; bibliografias comentadas sobre tópicos específicos de história e filosofia da biologia; e textos de divulgação. Podem também ser publicadas resenhas, assinadas, de livros recentes sobre história e/ou filosofia da biologia. Os artigos devem ser submetidos aos Editores deste Boletim (ver endereços no Expediente, ao final deste número). Todos os artigos submetidos devem ser elaborados tendo em vista os padrões acadêmicos usuais.

 

Boletim de História e Filosofia da Biologia ISSN 1982-1026

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