ENCONTRO DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DA BIOLOGIA 2013

 

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

da Universidade Federal de Santa Catarina – CFH-UFSC

 

07 A 09 DE AGOSTO DE 2013

 

 

 

COMISSÃO ORGANIZADORA:

Felipe Faria
Grupo Fritz Müller-Desterro de Estudos em Filosofia e História da Biologia da Universidade Federal de Santa Catarina

Gustavo Caponi
Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina

Maria Elice Brzezinski Prestes Universidade de São Paulo

João Vicente Alfaya dos Santos PPGECT da Universidade Federal de Santa Catarina

 

 


 

CADERNO DE RESUMOS DO

ENCONTRO DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DA BIOLOGIA 2013

 

ABFHiB

Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia

 

 

EDITORES:

Felipe Faria

Maria Elice Brzezinski Prestes

 

 

Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina

 

Florianópolis

07 a 09 de agosto de 2013

 

 

 

 

APOIO:

Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFH, da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

Grupo Fritz Müller-Desterro de Estudos em Filosofia e História da Biologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Aliança Francesa de Florianópolis.

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).


ENCONTRO DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DA BIOLOGIA 2013

 

Florianópolis, 7 a 9 de agosto de 2013

 

LOCAL:

Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

 

PROMOÇÃO:

Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB)

http://www.abfhib.org

 

COMISSÃO ORGANIZADORA:

Felipe Faria (CFH-UFSC)

Gustavo Caponi (CFH-UFSC)

Maria Elice Brzezinski Prestes (USP)

João Vicente Alfaya dos Santos (PPGECT-UFSC)

 

COMISSÃO CIENTÍFICA:

Aldo M. de Araújo (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Ana Maria de Andrade Caldeira (Universidade Estadual Paulista)

Anna Carolina Regner (Universidade do Vale do Rio dos Sinos)

Charbel Niño El-Hani (Universidade Federal da Bahia)

Gustavo Andrés Caponi (Universidade Federal de Santa Catarina)

Lilian Al-Chueyr Pereira Martins (Universidade de São Paulo/RP)

Nelio M. V. Bizzo (Universidade de São Paulo)

Ricardo Waizbort (Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz)

Roberto de Andrade Martins (Universidade Estadual da Paraíba)

 

COMISSÃO AUXILIAR LOCAL:

Victor Augusto Moreira , Gislaine Lilian Rowedder, Karem Hansen, Tomás Honaiser,Veronyca Rivero, Joseane Mafesoni Caldas, Bruna Vicente, Larissa Zancam Rodrigues e Regiani Magalhães Yamazaki 

 

ENCONTRO DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DA BIOLOGIA 2013

 

ABFHiB

Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia

 

Programa

 

 7 DE AGOSTO DE 2013 – 4a FEIRA

 

8h30 – 9h00 – INSCRIÇÕES

9h00 – 9h30 Abertura (Auditório) com a presença de com a presença do Diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas - UFSC, Prof. Paulo Pinheiro Machado; do Chefe de Departamento de Filosofia-UFSC, Prof Dr. Gustavo Caponi; da Presidente da ABFHiB, Profa. Dra. Maria Elice Brzezinski Prestes; da Vice-Presidente da ABFHiB, Profa. Dra. Lilian Al-Chueyr Pereira Martins; do Diretor Geral da Aliança Francesa de Florianópolis, o Sr. Fernand Defournier e representando a Comissão organizadora do Encontro, o Dr. Felipe Faria (CFH-UFSC).

 

9h30 – 10h30 – Conferência (Auditório)

 

Coordenação: Gustavo Caponi

 

Eric Buffetaut (Laboratoire de Géologie de l'Ecole Normale Supérieure – Paris):

“Albert Gaudry, or how to be an evolutionary paleontologist while rejecting natural selection”.

 

10h30 – 11h00 – Coffee break


11h00 – 12h20 – Sessões Paralelas

Sala A

Sala B

Coordenação: Antonio Carlos Sequeira Fernandes

Coordenação: Nelio Bizzo

Antonio Carlos Sequeira Fernandes; Felipe Faria; Miguel Telles Antunes: “Manuel Aires de Casal, o beemote de Jó e o registro das ocorrências fossilíferas brasileiras no início do século XIX”.

Felipe Faria: “A carta de Cuvier a J.C. Mertrud: uma introdução à anatomia comparada”.

Waldir Stefano; Sabrina Souza de Almeida; Mariana Inglez dos Reis : “As concepções evolutivas de Henry Fairfield Osborn no estudo dos fósseis: uma contribuição”.

Ana Carolina B. Talamoni: “Breve histórico da Anatomia no Brasil”.

 

12h20 – 14h10 – ALMOÇO

 

14h10 – 16h10 – Sessões Paralelas

Sala A

Sala B

Coordenação: Maurício de Carvalho Ramos

Coordenação: Ana Maria de Andrade Caldeira

Maurício de Carvalho Ramos: “A ontogênese como máxima heurística: Schleiden, Goethe e as metamorfoses do empirismo racional”.

Thais Benetti de Oliveira; Ana Maria de Andrade Caldeira: “Organismos adaptados, seleção natural e restrições do desenvolvimento: uma discussão epistemológica acerca das relações entre os conceitos em um Grupo de Pesquisas em Epistemologia da Biologia, GPEB”.

Gustavo Caponi: “Edward Poulton e a polaridade próximo-remoto”.

Marcelo Viktor Gilge; Maria Elice B. Prestes: “Ernst Haeckel nos livros didáticos aprovados no PNLD 2012”.

Marcos Rodrigues da Silva: “Inferência da melhor explicação e a noção de identidade de problemas científicos: o caso do adaptacionismo de Darwin”.

João Vicente Alfaya dos Santos: “Progresso biológico nos livros didáticos de Biologia aprovados pelo PNLEM 2012”.

 

16h10 – 16h40 – Coffee break

 

16h40 – 18h40 – Sessão de Pôsteres

Descrição: O coordenador dará início à sessão com uma breve introdução dos trabalhos a serem apresentados. Em seguida, cada autor fará uma breve apresentação (cerca de 5 minutos) do seu trabalho (em frente ao respectivo pôster). Após o final das apresentações, o público poderá mover-se livremente ao redor dos pôsteres e discutir os trabalhos com os seus respectivos autores.

 

Sala A

Coordenação: João Vicente Alfaya dos Santos

Brunah Schall: “Evolução e catolicismo: discussões em jornais cariocas no final do século XIX e início do século XX”.

Brunno Botelho Borges; Giovanna Paola M. Bergamini; Nicole Wiezel de Carvalho; Pedro Espindola Giuliangeli de Castro; Pedro Margutti Marques Bruneli; Tiago do Amaral Moraes; Wilson França de Oliveira Neto: “A água e a evolução biológica: do século XIX ao século XX”.

Carolina Perozzi Guedes de Azevedo; Caio Guerrato Coelho da Silva; Cristina dos Santos Silva; Giovanna Vasconcelos Maia; João Cervelleira de Mello; Marcel Valentino Bozzo; Thiago del Corso; Maria Elice Brzezinski: “Replicação de experimentos históricos de Robert Hooke (1635-1703) visando o ensino aprendizagem da Teoria celular: um estágio como pesquisa em escola pública de ensino fundamental em São Paulo-SP”.

Caroline Avelino de Oliveira; João José Caluzi: “Stanley Lloyd Miller e a origem da vida, um episódio histórico para discutir aspectos sobre a natureza da ciência”.

Claudio Ricardo Martins dos Reis: “O princípio da divergência na argumentação darwiniana”.

Daiana Evilin Gibram; Heslley Machado Silva; Elaine S. Nicolini Nabuco de Araujo; Paloma Rodrigues da Silva: “Concepções de Futuros Professores de Ciências/Biologia e Pedagogia sobre Criacionismo e Evolução”.

Felipe Lima Pinheiro: “Seria o termo “exaptação” realmente útil?”.

Fernanda Peres Ramos; Marcos Rodrigues da Silva: “A epistemologia do genoma: o determinismo genético como fio condutor”.

 

Francisco Paulo Caires Júnior; Eglaia de Carvalho; Mariana A. B. S. de Andrade: “As relações conceituais sobre gene em livros didáticos”.

Leandro Duso; Marilisa Bialvo Hoffmann: “A herborização de plantas medicinais na escola: interfaces entre a história da Biologia e o ensino de Botânica”.

Leonardo Augusto Luvison Araújo; Russel Teresinha Dutra da Rosa: “Obstáculos à compreensão do pensamento evolutivo: análise em livros didáticos de biologia do ensino médio”.

Luciana Romeira de Jesus; Jesuína Pacca: “Uma Sequência Didática para Ensinar o Sistema Circulatório”.

Marilisa Bialvo Hoffmann; Elizandro Maurício Brick: “A importância da prática da dissecação para a gênese do fato "circulação do sangue no corpo humano".

Nelio Bizzo; Paulo Sano: “Brocchi, Darwin, Mendel and the Vatican: species stability, hibridism, transmutation and an amazing historical irony”.

Priscila Prazeres Clementino; Wellington Gil Rodrigues: “O ensino da teoria evolucionista na perspectiva dos professores de ciências da rede adventista de ensino”.

Regiani Magalhães Yamazaki; Geovana Mulinari Stuani; João Vicente Alfaya dos Santos: “As controvérsias científicas sobre o conceito de gene no ensino para a formação crítica do licenciando em Ciências Biológicas”.

Renata Andrade Medeiros de Araujo; João Paulo Ferraro Turano de Araujo; Davi Martinelli Gonçalves; Mariana Antonieta Barreto do Prado; Ornella Gonçalves Zumpano; Cláudia Barboza de Freitas; Thiago del Corso; Maria Elice Brzezinski Prestes: “A utilização da História a Ciência no ensino: observações de Robert Hooke como recurso motivacional ao estudo a célula”.

Simone Sendin Moreira Guimarães; Rones de Deus Paranhos: “A ideia e vida de futuros professores de Biologia: aspectos históricos e filosóficos de um conceito complexo”.

Veronyca Rivero Corrêa de Souza; Thais Gabriella Reinert da Silva; João Vicente Alfaya dos Santos: “Biologia Histórica e Funcional na Formação Inicial de Professores de Biologia”.

Wellington Gil Rodrigues; Mayara Farias da Silva Santos: “O ensino do criacionismo nas aulas de ciências: a perspectiva dos professores de ciências da rede adventista de ensino”.


8 DE AGOSTO DE 2013 – 5a FEIRA

 

08h30 – 10h30 – Sessões Paralelas

Sala A

Sala B

Coordenação: Maria Elice Brzezinski Prestes

Coordenação: Lilian Al-Chueyr Pereira Martins

Maria Elice Brzezinski Prestes: “Contribuições do uso de História da Biologia na formação de professores: concepções de licenciandos sobre a delimitação do conhecimento científico”.

Heloisa Allgayer: “O princípio da seleção natural na obra Origem das espécies: Uma análise em busca de sua função e significado”. 

Elaine Nabuco de Araújo; Ana Maria Andrade Caldeira; Paloma Rodrigues da Silva; Graça S. Carvalho: “Evolução e religião: concepções de professores brasileiros e portugueses em formação e em exercício”.  

Lilian Al-Chueyr Pereira Martins: “O que teria levado Darwin a aceitar a herança de caracteres adquiridos durante toda sua vida?”

Eduardo Crevelário de Carvalho: “A controvérsia sobre a geração espontânea entre Needham e Spallanzani”.

Gerda Maisa Jensen: “Uma dificuldade especial para Darwin: a origem dos órgãos elétricos dos peixes”.

10h30 – 10h50 – Coffee break

10h50 – 12h10 – Mesa Redonda (Auditório): “A História e Filosofia da Biologia no Ensino de Ciências”

Coordenação: Ana Maria de Andrade Caldeira

Maria Elice B. Prestes (USP):

“Modelos para a História da Ciência no Ensino”

 

Lilian Al-Chueyr P. Martins (USP/RP):

“História da Ciência no Ensino: métodos e abordagens”

 

Ana Maria de Andrade Caldeira (UNESP/Bauru):

“Ensino de Biologia: A experiência do Grupo de Pesquisas em Epistemologia da Biologia

 

12h00 – 14h00 – ALMOÇO

 

14h00 – 15h00 – Conferência (Auditório)

 

Coordenação: Felipe Faria

 

Maurício de Carvalho Ramos:

“A substancialidade da vida vegetal: Leibniz, Digby e a palingênese”

 

15h00 – 15h30 – Coffee break

 

15h30 – 18h10 – Sessões paralelas

Sala A

Sala C

Coordenação: Fernanda da Rocha Brando Fernandez

Coordenação: Maxwell Morais de Lima Filho

Viviane Arruda do Carmo: “Wallace, Sclater e os modelos de distribuição biogeográfica”.

Luciana Pesenti; Luciana Luz Rabinovich: “La crítica a la distinción cualitatativo/cuantitativo de Levins en el contexto de una historia de la filosofía de las ciências”.

Fernanda da Rocha Brando Fernandez; Lilian Al-Chueyr Pereira Martins: “O lago como objeto de investigação ecológica, uma contribuição: Stephen A. Fobes (1887)”.

Maxwell Morais de Lima Filho: “Searle sobre a identidade dos poderes causais do cérebro e da consciência”.

Arthur Henrique de Oliveira: História das mudanças climáticas antropogênicas: de Fourrier ao IPCC”.

Francisco Javier Serrano Bosquet: “Warren Weaver: presupuestos epistemológicos y axiológicos en la dirección de la División de Ciencias Naturales de la Fundación Rockfeller”.

 

18h10 – 19h00 – Assembléia da ABFHiB


9 DE AGOSTO DE 2013 – SEXTA-FEIRA

 

09h00 – 10h20 – Sessões Paralelas

Sala A

Sala C

Coordenação: Sandra Caponi

Coordenação: Gustavo Caponi

Ricardo Waizbort: “O cérebro progressivo de Domingos Cabral”.

 

Victor X. Marques: “Afinal, o que os genes têm de tão especial? DST como uma teoria materialista do desenvolvimento e da herança”.

Sandra Caponi: “El impacto del evolucionismo en los teóricos de la degeneración y en la psiquiatría de Emil Kraepelin”.

Luiz Felipe Reversi; João José Caluzi: “A importância de uma pesquisa histórica na proposição de uma síntese estendida”.

 

10h20 – 10h40 – Coffee break

 

10h40 – 12h00 – Conferência (Auditório)

 

Coordenação: Antonio Carlos Sequeira Fernandes

 

Nelio Bizzo (USP):

 

“Saberes do alunado na perspectiva internacional: evolução, natureza e sociedade.”

 

12h00 – 14h00 – ALMOÇO


14h00 – 15h20 – Sessões Paralelas

Sala A

Sala B

Coordenação: Viviane Arruda do Carmo

Coordenação: Jerzy Brzozowski

João Paulo Di Monaco Durbano; Lilian A.-C. P. Martins: “Explorando características da ciência na História da Genética: a construção do conceito de crossing-over”.

Herbert Gomes da Silva; María Elena Infante Malachias: “Organização da vida na perspectiva de Humberto Maturana e Francisco Varella: a autopoiesis”.

Lucio Ely Ribeiro Silvério; André Luis Franco da Rocha; Silvia Regina Pedrosa Maestrelli: “A circulação intercoletiva de ideias e a recontextualização do conceito de gene no ensino de Biologia”.

Jerzy Brzozowski: “Uma teoria de referência para nomes próprios dos táxons biológicos”.

 

15h20 – 15h40 – Coffee break

 

15h40 – 18h20 – Sessões Paralelas

Sala A

Sala B

Coordenação: João José Caluzi

Coordenação: Waldir Stefano

André Luis de Lima Carvalho: “História da Ética animal e Darwinismo: contribuições e antecipações de Frances Power Cobbe”.

Carolina Alves D’Almeida: “A importância do diálogo entre ciência, ecologia e espiritualidade frente à crise ecológica atual”.

Fernando Moreno Castilho: “Darwin e a ascendência do homem a partir de um ancestral primitivo comum na Origem do homem e na Expressão das emoções no homem e nos animais”.

Daiane Martins Freitas: “Carl von Martius: as contribuições históricas para a etnobotânica”.

Guilherme Francisco Santos: “Investigações sobre o conceito de Monera de Ernst Haeckel”.

Daniel Dutra Coelho Braga: “Colecionismo, o princípio da vida na obra de Charles Gaudichaud-Beaupré (1789-1854): configurações e controvérsias no campo da Botânica no século XIX”.

18h20 – ENCERRAMENTO DO ENCONTRO

 

Conferência de Abertura

 

Prof. Dr. Eric Buffetaut
Diretor de Pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique

Laboratoire de Géologie de l'Ecole normale supérieure – Paris


"Albert Gaudry, or how to be an evolutionary paleontologist
while rejecting natural selection"

 

Albert Gaudry (1827-1908) was one of the leading palaeontologists in 19th century France. He spent most of his career at the Muséum National d’Histoire Naturelle in Paris, where he held the chair of palaeontology for many years, and worked extensively on fossil vertebrates (especially mammals and early tetrapods). Gaudry is widely recognized as one of the first palaeontologists to have accepted evolution, and indeed as early as the beginning of the1860s, thus only a few years after the publication of Darwin’s Origin of Species, he tried to interpret his palaeontological discoveries in evolutionary terms. He has therefore sometimes been considered as an early exponent of “Darwinian palaeontology” (Tassy, 2006). However, it is very clear from Gaudry’s writings that, although he fully accepted evolution, his conception of the mechanism of evolutionary change was very different from Darwin’s, for the simple reason that he never accepted natural selection and strongly rejected any idea of a “struggle for life”. The aim of this paper is to examine Gaudry’s position concerning evolution, in relation to Darwin’s conceptions.

Gaudry became famous as a palaeontologist at the end of the 1850s, when he conducted large-scale excavations (from 1855 to 1860) in the continental Miocene of Pikermi, near Athens (Greece). There, he found very abundant and well-preserved mammal remains, which permitted a detailed reconstruction of the Late Miocene fauna of Greece. After a series of preliminary papers, mainly in the Bulletin de la Société géologique de France, Gaudry published a large monograph on the fossil animals and geology of Attica, which appeared from 1862 to 1867 and made him famous in the palaeontological community. Beyond the careful, well illustrated descriptions, Gaudry’s work on the Pikermi fauna was remarkable because he clearly interpreted his finds in evolutionary terms. From this point of view, he obviously was one of the first palaeontologists to unhesitatingly embrace evolution in the wake of Darwin’s publication of the Origin of Species in 1859. Another well-known example, in the field of invertebrate palaeontology, is that of Franz Hilgendorf’s work on freshwater molluscs from the Miocene of Steinheim (Germany), published in the 1860s.

From then on, Gaudry’s palaeontological research was carried out within an explicitly evolutionary framework, whether he studied Tertiary mammals or Permian tetrapods. In his great work, Les Enchaînements du Monde Animal (three volumes, published in 1878, 1883 and 1890) he attempted a large-scale reconstruction of the evolutionary history of the animal world, and in his last book, Essai de Paléontologie Philosophique (1897), he tried to draw more general conclusions about the evolution of the living world and its possible mechanisms (or causes).

In his books, he made frequent use of illustrations showing the transformations of various organs (mainly bones and teeth) through geological time.

Gaudry’s conceptions were frequently expressed in the form of diagrams which are reminiscent of Darwin’s well-known theoretical “phylogenetic tree” showing the branching and development of hypothetical species through time, in the Origin of Species. Gaudry used a similar graphical design to illustrate his views on the evolution of various groups of mammals, among which hyenas, proboscideans and horses. In the 1860s, at a time when most of the leading palaeontologists in France (such as Gervais and d’Archiac) were opposed to evolution, Gaudry’s position was innovative, almost revolutionary. The question, however, is to what extent Gaudry can really be considered as a Darwinian palaeontologist. According to Tassy (2006), the main point in this respect is that Gaudry followed Darwin’s programme of research on the genealogy of species, using fossils to reconstruct lineages, and that this makes him a Darwinian palaeontologist. However, one of the essential points of Darwin’s work is that he proposed a mechanism (natural selection) for evolution and that, unlike those proposed by earlier evolutionists such as Lamarck and Geoffroy Saint-Hilaire, this mechanism was considered as convincing by a growing number of scientists, thus contributing greatly to the eventual acceptance of evolution by the scientific community. From this point of view, Gaudry, who never accepted natural selection, can hardly be considered as a Darwinian palaeontologist.

Gaudry’s attitude towards natural selection can be reconstructed from many remarks in his scientific and semi-popular writings, as well as from what is known of his correspondence with Darwin. He had read (and annotated) the French edition of the Origin of Species and clearly was impressed by the book and convinced by much of Darwin’s argumentation. He wrote that he had read Darwin’s book with “a passionate admiration”, “as one sips a delicious liqueur”. He repeatedly expressed his admiration for Darwin as a great scientist whose contribution to science had been of the utmost importance. Nevertheless, he also acknowledged that “in some respects, he had always been far from Charles Darwin’s philosophical ideas”.

Darwin’s philosophical idea that Gaudry found difficult to accept was the most essential of all his ideas, natural selection. For Gaudry, natural selection, or struggle for existence (which he called “concurrence vitale”), basically meant disorder, and he was extremely reluctant to admit that disorder could ever have ruled the natural world. In concluding remarks about his researches at Pikermi, he asked a rhetorical question:

What happened to so many powerful quadrupeds when they faced each other? Were they obliged, to survive, to accept this trial that an eminent naturalist [Darwin] has called struggle for existence? Was there disorder, was there harmony?.

His answer was unequivocal:

Thus there was no struggle for existence, everything was harmonious, and he who today regulates the distribution of living beings similarly regulated it in past ages.

Gaudry was not the only one, in those days of “nature red in tooth and claw”, to understand natural selection in terms of fierce and chaotic struggle. Darwin himself noted Gaudry’s misunderstanding and mildly pointed it out to him in a letter dated 17 September 1866:

I received some time ago your kind present of your Considerations Générales de Pikermi; but I have delayed thanking you until I had time to read your work. I have now done so with the greatest possible interest. Your observations on many points, especially on the various intermediate fossil forms, seem to me most valuable; & I formerly read with great interest some of your memoirs in the Bull. Soc. Geolog. de France, especially that on fossil monkeys. I will venture to make one little criticism, namely that you do not fully understand what I mean by “the struggle for existence”, or concurrence vitale; but this is of little importance as you do not at all accept my views on the means by which species have been modified.

With my sincere appreciation of the value of you paleontological discoveries, & with my thanks for your obliging present.

There was no doubt in Darwin’s mind that Gaudry misunderstood what was meant by “struggle for existence”. Darwin also clearly realized that although the French palaeontologist accepted the evolution of species, they completely disagreed about the mechanisms of evolutionary change.

In a letter to Darwin written in 1866, Gaudry professed to be uninterested in those mechanisms, in terms that were both flattering and subtly critical:

As to the explanations for the transformations, I avoid investigating them, because such a difficult topic can only be studied by a naturalist such as you, with a considerable experience and a very broad knowledge. I shall even confess that when I study embryogenesis and see that there are many causes of which God alone knows the secret, I think that, both in the evolution of species and in the embryogenesis of individuals, there are causes that the greatest geniuses cannot discover.

Although he claimed to avoid speculations about causes, Gaudry made no mystery about the means by which, according to him, species became modified through geological time. In the conclusions to his work on the fossil animals from Pikermi (1866), he both rejected chance and struggle as possible causes for the transformation of species and clearly expressed his belief in divine intervention:

Whatever the mode through which animals have been renewed, what is certain is that no modification has been due to chance. My researches have shown that, in the geological past, Greece was not a scene of struggle and disorder; everything there was in harmony. If we recognize that organized beings have gradually been transformed, we shall regard them as plastic substances an artist chose to knead through the huge course of the ages, sometimes lengthening, sometimes widening or diminishing, like a sculptor who, with a piece of clay, produces a thousand shapes, following the impulse of his genius. But we shall not doubt that that the artist who kneaded was the Creator himself, because each transformation has borne a reflection of his infinite beauty.

In these concluding remarks, Gaudry expresses clearly both his acceptation of the transformation of species through evolution and a spiritual, even mystical, interpretation of this evolution. For him, the evolution of species is directly driven by God, and this naturally results in a natural world that remains harmonious despite its transformations. This highly spiritual view of evolution explains why Gaudry could not accept natural selection, especially as he understood it, viz. as chaotic struggle. Hence his recurring insistence on “harmony” as opposed to “disorder”. Gaudry’s view of evolution is thus slightly Panglossian: “all is for the best in the best of possible worlds”. In such an idyllic conception, there was obviously no place for the struggle for existence and its unpleasant expressions: for Gaudry, carnivores fed on herbivores to put an end to their sufferings when they grew old.

Together with this rather naïve view of the living world, Gaudry developed a broader and optimistic view of evolution as progress, which he clearly expressed in his Essai de Paléontologie Philosophique, in which carefully chosen fossils illustrated the progress of various functions of living beings (such as activity, sensibility, intelligence) through geological time. This of course was an expression of divinely led progress, leading to the human spirit, the “marvel of Creation”. This could not possibly be reconciled with Darwin’s idea of the struggle for existence. In his last book, Gaudry reiterated his fundamental opposition to this concept:

It has been said that the living beings of the various geological ages have fought each other in struggles where the stronger vanquished the weaker, so that the battlefield was left to the fittest; thus progress would be the result of the fights and sufferings of the past. This is not the idea which emerges from the study of palaeontology. The history of the living world shows us an evolution where everything is combined as in the successive transformations of a seed which becomes a magnificent tree covered with flowers and fruits, or an egg which transforms itself into a complicated and charming creature.

A constant feature of Gaudry’s writings, from his first papers on the fossil mammals from Pikermi in the 1860s to his openly philosophical considerations of the 1890s, is thus an explicit opposition to natural selection. This opposition may have been partly based on a misunderstanding of that essential Darwinian concept, as Darwin himself suspected. Nevertheless, as Darwin also noted, beyond this faulty understanding of what natural selection is, Gaudry’s general conception of evolution as directly and continuously led by God (as clearly expressed in Essai de Paléontologie Philosophique) could hardly be reconciled with the Darwinian paradigm. Although there is no doubt that Gaudry was among the first palaeontologists to try to reconstruct evolutionary lineages on the basis of fossils, and thus played a major part in the development of evolutionary palaeontology in France, it therefore seems difficult to portray him as a Darwinian palaeontologist.

A final aspect of Gaudry’s contribution to evolutionary palaeontology is his possible influence on later palaeontologists, especially in France. Gaudry’s successor at the Paris Museum, Marcellin Boule (1861-1942), apparently did not share his religious conceptions, and Boule’s rival in Lyon, Charles Depéret (1854-1929), although he wrote extensively on evolution, tried to steer clear of speculation. However, some 20th-century palaeontologists trained at the Paris Museum, such as Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) and Jean Piveteau (1899-1991), expressed ideas that may have been partly influenced by Gaudry’s conception of a divinely guided evolution. In particular, Teilhard’s highly mystical conceptions about the evolution of life and man in some respects echo Gaudry’s ideas about an evolutionary progress led by divine action.

In conclusion, Gaudry’s influence on the subsequent development of palaeontology (especially French palaeontology) can probably be seen from two angles. From a purely factual point of view, he definitely was one of the first to try to reconstruct evolutionary lineages on the basis of fossils, and must therefore be considered as an influential pioneer in evolutionary palaeontology - whether his phylogenetic reconstructions were correct or not. From a more theoretical point of view, things are different: Gaudry never accepted the essential mechanism proposed by Darwin to explain evolution, viz. natural selection. The concept of struggle for life was abhorrent to him, because he was convinced that the living world was harmoniously ruled by a benevolent God, who continuously and directly led evolutionary change. Gaudry’s view of evolution was clearly not that of Darwin and his followers, and it therefore seems difficult to really consider him as a Darwinian palaeontologist. Moreover, Gaudry’s influence may at least in part explain the development in France, during the 20th century, of an evolutionary palaeontology that was not Darwinian in the causes and mechanisms it accepted, and is exemplified by Teilhard de Chardin’s conceptions.


Trabalhos

 

Breve Histórico da Anatomia no Brasil

 

Ana Carolina Biscalquini Talamoni

Membro do Grupo de Pesquisa em

Epistemologia da Biologia da UNESP-Bauru

carolinatalamoni@gmail.com

 

Resumo: A história da Anatomia Humana, e mais especificamente, de sua pesquisa e ensino no Brasil é um tema que tem sido pouco explorado academicamente. Com isto, observa-se a quase inexistência de uma visão mais abrangente do percurso da Anatomia contextualizada pelas contingências nacionais, o que tem gerado uma série de inseguranças entre os pesquisadores que buscam aprofundar-se nesta temática, inclusive porque muitos dos dados disponíveis e frequentemente invocados nem sempre se apresentam suficientemente apurados. A partir destas constatações, define-se o objetivo deste trabalho: retraçar o desenvolvimento da disciplina anatômica, de sua pesquisa e ensino no contexto paulista e nacional – em muito sintetizada pela ação da autoproclamada Escola Boveriana de Anatomia fundada pelo médico italiano Alfonso Bovero, por ocasião da fundação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

A história da Anatomia Humana, sua pesquisa e ensino no Brasil é um tema que tem sido pouco explorado academicamente. A partir desta constatação, o objetivo deste trabalho é retraçar o desenvolvimento da disciplina anatômica no contexto paulista e nacional – em muito sintetizada pela ação da auto-proclamada Escola Boveriana de Anatomia fundada pelo médico italiano Alfonso Bovero, por ocasião da fundação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Para isto, é necessário ir buscar no contexto europeu as bases da formação intelectual de Alfonso Bovero, e, em seguida, voltar-se para o contexto nacional mais amplo, já que os representantes da Escola Boveriana também incorporaram um movimento político-acadêmico que, ao tentar tornar hegemônicas as suas concepções de pesquisa e ensino, buscou disseminar-se no âmbito das instituições médico-biológicas de outros estados brasileiros.

No transcorrer do século XVIII a pesquisa e o ensino de Anatomia em Portugal mostravam-se precários, o governo português, de tempos em tempos, proibia a dissecação de cadáveres humanos para fins de instrução dos alunos de medicina, o que impunha a contratação de anatomistas franceses e italianos pelas escolas médicas. No ambiente brasileiro, a carioca Academia de Seletos tem sido indicada como o local onde se realizaram os primeiros estudos de Anatomia. No plano do ensino, destacou-se a trajetória de João Álvares Carneiro que em 1790, ingressou como aprendiz na Santa Casa do Rio de Janeiro. Lá, foi aluno do cirurgião-mor Antonio José Pinto, a quem se atribui o pioneirismo de lecionar o primeiro curso de Anatomia na corte e provavelmente em todo o Brasil (Santos Filho, 1977, p. 294). Ainda no final do século XVIII, a Anatomia Humana era ensinada no Hospital Militar de Vila Rica por Antonio José Vieira de Carvalho, cirurgião do Regimento de Cavalaria das Minas Gerais (Aires Neto, 1948, p. 78-9).

Com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, foram criadas a Escola de Cirurgia do Hospital Militar e a escola médica do Hospital Militar do Morro do Castelo, no Rio de Janeiro, favorecendo-se o ensino sistemático de Anatomia como condição para a prática médica em geral e da cirurgia em especial. Nesse âmbito, é preciso notar que as duas escolas médicas criadas pela corte portuguesa foram orientadas pela vertente francesa da medicina, que priorizava o atendimento do paciente “a beira do leito”, dando impulso a uma formação de médicos destinados ao exercício da clínica. Neste contexto a Anatomia era então uma disciplina-ponte e não um campo disciplinar autônomo. Em âmbito global, a tendência francesa contrapunha-se à abordagem anatomoclínica emblematizada pela medicina germânica, fortemente influenciada pelas pesquisas laboratoriais e cuja ascendência no Brasil terá como símbolo maior a Faculdade de Medicina de São Paulo, inaugurada na segunda década do século XX.

O médico italiano Alfonso Bovero nasceu no Piemonte em 1871, obteve seu diploma na escola médica da Universidade de Turim. Empenhou-se em desenvolver trabalhos correlatos ao estudo da morfologia cerebral, antropologia criminal e teratologia, sendo uma de suas contribuições mais significativas, no que tange à prática anatômica, o aperfeiçoamento da técnica de emprego da glicerina para a fixação de peças anatômicas. (Lacaz, 1986). Aprimorou seus conhecimentos na Alemanha durante os anos de 1897 e 1898, trabalhando no Anatomish-biologisches Institut de Berlim; estudou Anatomia com Heinrich W. von Waldeyer e Histologia e Embriologia com Oskar Hertwig (Lacaz, 1989, p. 66). Sua opção por prosseguir os estudos na Alemanha deu-se porque lá se encontravam os principais centros de pesquisa na área, e também porque lá ressurgia com vigor a Anatomia Comparada, vertente que contava com raros especialistas na Itália. No plano epistemológico, a linhagem germânica da Anatomia guardava clara influência da teoria darwiniana e visava, sobretudo, o desenvolvimento de pesquisas instrumentais e experimentais que superavam a clássica vertente descritiva que até então prevalecera nesta disciplina.

A formação em Anatomia que se solidificou no encontro da tradição italiana e germânica granjeou reputação a Bovero, motivo que levou Arnaldo Vieira de Carvalho a convidá-lo a ocupar o cargo de lente de Anatomia e Fisiologia na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, criada em 1913 (Marinho, 2006) como parte de um projeto maior que pretendia levar para São Paulo médicos e cientistas europeus com o objetivo de impulsionar novas áreas de pesquisa (Salles, 1997, p. 118-9). A vinda de pesquisadores estrangeiros contribuiria para fazer da “Casa de Arnaldo” e do cenário acadêmico paulistano um local de produção de conhecimentos consoante com os propósitos da capital paulista de se modernizar, constituindo-se no locus privilegiado de desenvolvimento científico-intelectual, econômico e social do país (Motta, 2005, p. 167).

Bovero deu sua aula inaugural em 25 de abril de 1914. Sua missão em São Paulo era não só lecionar sua especialidade, mas organizar o departamento de Anatomia da jovem escola médica, inaugurando um novo período do ensino e da pesquisa na área, a qual tem sido denominada de “fase boveriana da Anatomia brasileira” (Montes, 2009, p. 28; Lacaz, 1989, p, 66). A tarefa de maior destaque de Bovero foi no campo do ensino, e dos princípios que o subjazem. Na perspectiva boveriana, o ensino pautava-se no equilíbrio entre o conhecimento básico, tradicional da disciplina, e os conhecimentos contemporâneos derivados das pesquisas recentes, aliando docência e pesquisa (Liberti, 2010). Com isto passava a ser rejeitado o modo de ensino de Anatomia até então praticado no país, no qual o estudante tinha pouco acesso direto aos cadáveres e ralo incentivo para a pesquisa. No plano curricular, a Anatomia passou a constituir-se em uma disciplina do ciclo básico na formação médica, exigindo dos estudantes um novo grau de desempenho e competência, além de um aumento considerável na carga horária.

Durante sua permanência no Brasil, Bovero e seus alunos desenvolveram um número significativo de pesquisas. Em 1937, com sua morte, já se preconizava a existência de uma “escola boveriana” em São Paulo (Tavano, 2010; Didio, 1986) que, aliando ensino e pesquisa contrapunha-se assim à prática anatômica preconizada no Rio de Janeiro e em Salvador. A proposta de ensino e pesquisa inaugurada por Bovero mostrou-se inovadora no contexto brasileiro, porém, um olhar mais minucioso acerca de suas prerrogativas insinua que o seu modelo fora semelhante ao empreendido por Mondino no século XIV e Vesalius, no século XVI, considerados os “reformadores” da anatomia e que, ao darem prioridade à prática da dissecação e ao uso de compêndios e livros textos instauraram um método tradicional de ensino e pesquisa que caracterizam a disciplina anatômica.

 

Referências Bibliográficas:

AIRES NETO, J. O ensino de anatomia no Brasil. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, 12 (33): 78-94, jan./ago, 1948.

DIDIO, L. J. A. Biografia do Professor Renato Locchi: um gigante das ciências anatômicas. Rio de janeiro: Guanabara Koogan, 1986.

LACAZ, C. S. Ensaios médico-sociais. São Paulo: Fundo Ed. Byk, 1986.

_____. Médicos italianos em São Paulo: trajetória em busca de uma nova pátria. São Paulo: Aquarela, 1989.

LIBERTI, E. A escola anatômica de Bovero: de onde veio, para onde vai? O anatomista, São Paulo, 1, jan. 2010. Disponível em: <http://sbanatomia.org.br/oAnatomista.php>. Acesso em: 21 set. 2010.

MARINHO, M. G. S. M. C. Trajetória da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: aspectos históricos da “Casa de Arnaldo”. São Paulo: FMUSP, 2006.

MONTES, M. A. de A. Reflexões sobre o ensino de anatomia humana: subsídios para pensar sobre propostas de ensino-aprendizagem. Rio de Janeiro, 2009. Tese (Doutorado em Ensino em Biociências e Saúde) – Instituto Oswaldo Cruz.

MOTTA, A. A Casa de Arnaldo. Pp. 167-210, in: MOTTA, A.  Tropeços da medicina bandeirante: Medicina paulista entre 1892-1920. São Paulo: Edusp, 2005.

SALLES, M. R. R. O caráter da inserção profissional em São Paulo. Pp. 93-148, in: SALLES, M. R. R. Médicos Italianos em São Paulo (1890-1930): um projeto de ascensão social. São Paulo: Sumaré/FAPESP, 1997.

SANTOS FILHO, L. de C. História geral da medicina brasileira. São Paulo: Hucitec, 1977.

TAVANO, P. T. Onde a morte se compraz em auxiliar a vida: a trajetória da disciplina de anatomia humana no currículo médico da primeira faculdade oficial de medicina de São Paulo – período de Renato Locchi (1937-1955). São Paulo, 2011. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo.

 

 

História da Ética Animal e Darwinismo:

contribuições e antecipações de Frances Power Cobbe

 

André Luis de Lima Carvalho

Colaborador do Laboratório de Avaliação de Ensino e

Filosofia das Biociências (LAEFIB-IOC-FIOCRUZ)

acbiopsi@yahoo.com.br

 

Resumo: Embora o campo da Ética Animal conte com discussões acadêmicas significativas no Brasil, a história desse campo ainda é pouco investigada em nosso país. Vindo ao encontro dessa necessidade, o presente trabalho discute algumas contribuições e antecipações de Frances Power Cobbe - a mais influente e aguerrida antivivisseccionista vitoriana – para os debates atuais em Ética Animal. Liderando a Victoria Street Society, então a principal organização antivivisseccionista na Inglaterra e no mundo, Cobbe contribuiu para conquistas políticas na regulamentação da vivissecção em seu país. Jornalista e escritora prolífica, publicou inúmeros artigos de crítica à vivissecção. Uma vez que Charles Darwin e seus aliados apoiavam a prática da vivissecção, Cobbe se tornou uma adversária ferrenha da fisiologia experimental e do darwinismo. Recorrendo à tese darwinista da origem comum entre animais e humanos, Cobbe afirmava a sensibilidade do animal darwiniano e a imoralidade da experimentação animal, apontando a incoerência ética em que os darwinistas incorriam ao defender a legitimidade da vivissecção. Além disso, Cobbe antecipou importantes conceitos e argumentos atuais da Ética Animal, como os de ‘Comunidade Moral’ e ‘Especismo’, além da defesa do status de pessoas (em oposição ao de coisas) para os animais não-humanos, conforme será demonstrado na apresentação desse trabalho.

 

Embora o campo disciplinar da ‘Ética Animal’ somente receba essa denominação a partir da década de 1970 (Ryder, 1989), já existiam discussões acerca de legitimidade moral da exploração dos animais pelos humanos desde o século XVII, quando Henry More, em 1648, teria dito a René Descartes que considerava ‘assassina’ a doutrina deste, por justificar a matança indiscriminada de animais (Thomas, 2001, p. 42). A Inglaterra, por sua tradição de país de amantes de animais, sempre esteve à frente desses debates (French, 1975; Ryder, 1989). Na segunda metade do século XIX, com o advento do darwinismo, a História Natural sofria um processo de secularização, que incluiu o florescimento da Biologia e, mais especificamente, da Fisiologia Experimental. Entusiasta e promotor do avanço da ciência, Charles Darwin, com a ajuda de aliados como Thomas Huxley e George Romanes, apoiou a plataforma política dos fisiologistas experimentais britânicos, que tinha como ponto central a legitimação da prática da vivissecção (experimentação animal) (French, 1975). Assim, Darwin entrou em rota de colisão com uma importante atora social da Inglaterra vitoriana, até então sua amiga e interlocura intelectual: a jornalista Frances Power Cobbe.

A teoria darwinista da origem comum (common descent, em inglês) foi apresentada ao mundo com a publicação do Origin of Species, em 1859 (Darwin, 1859). Segundo essa teoria, unanimemente aceita pelos biólogos atuais, há uma relação de continuidade biológica entre a espécie humana e os demais animais. Ao publicar, posteriormente, The Descent of Man o evolucionista explicitava que essa continuidade não seria apenas física, mas também mental (Darwin, 1871). Hoje a tese darwinista da origem comum é amplamente usada na argumentação de autores contemporâneos da Ética Animal, pois essa relação de continuidade biológica implica a existência de semelhanças entre os humanos e os (outros) animais em suas experiências de sofrimento físico e emocional (Midgley, 1985; Rachels, 1998; Regan, 1983; Singer, 2002). Muito antes disso, na Inglaterra vitoriana não foram poucos os antivisseccionistas que recorreram a esse mesmo argumento para apontar a contradição em que incorriam Darwin e seus aliados. Afinal, estes, por um lado, defendiam um programa de pesquisa que, ao evidenciar o parentesco com os humanos e a complexidade mental dos animais, expandia seu status moral; por outro lado, lutavam pela legitimação da vivissecção, prática que, na visão dos antivivisseccionistas, era aviltante e causadora de extremo sofrimento (Carvalho e Waizbort, 2012). Dentre esses críticos das contradições éticas e políticas do darwinismo destacou-se, por seus textos e atuação social, Frances Power Cobbe. O presente trabalho visa demonstrar a importância histórica dessa autora e ativista social não apenas em função de suas contribuições em termos de mobilização do cenário político vitoriano, mas também de seus argumentos, muitos dos quais consistiam em antecipações - ignoradas pela historiografia – de conceitos e teses empregados por eticistas atuais em defesa dos interesses animais.

As discussões atuais em Ética Animal abrangem diversas questões: indústrias de pele e cosméticos; alimentação carnívora; uso de animais em circos e seu aprisionamento em zoológicos, entre outras. Na era vitoriana, contudo, nenhuma outra forma de exploração foi alvo de tanta polêmica quanto a vivissecção, e a Inglaterra foi o primeiro país no qual esse debate floresceu, e onde teve maior proeminência. Dentre as organizações antivivisseccionistas inglesas a maior e mais atuante era a Victoria Street Society, encabeçada e administrada por Frances Cobbe (French, 1975, p. 222). Cobbe era, portanto, a mais destacada antivivisseccionista da Europa e do mundo na segunda metade do século XIX, e eventuais contribuições do movimento antivivisseccionista vitoriano para com as conquistas políticas e discussões atuais relativas à vivissecção devem algo a essa personagem. Combatendo vigorosamente essa prática, Cobbe se tornou a maior adversária individual do avanço da fisiologia experimental e uma das maiores críticas do darwinismo – menos por questões epistemológicas do que pelas escolhas políticas de Darwin e aliados, especialmente no que se referia à vivissecção.

Além de lançar mão da teoria darwiniana da origem comum para defender a sensibilidade dos animais, apontando as contradições em que incorriam os darwinistas, ao apoiar a experimentação animal (Cobbe, 1874; 1889;1895), Cobbe articulou ideias que parecem antecipar alguns conceitos e argumentos presentes nas discussões atuais da Ética Animal. Um deles se refere à noção atual de ‘comunidade moral’, uma rede de seres com os quais reconhecemos ter uma conexão ética, em decorrência das demandas de justiça, dos laços de compaixão ou de um senso de obrigação (Spohn, 1996). A esse respeito, Cobbe observa que existe “uma linha demarcatória, fora da qual os sentimentos ternos não se estendem, e as obrigações morais relativas a tais sentimentos, consequentemente, não se aplicam”, e defende que com o processo civilizatório a humanidade avança em direção a um progresso em extensão da simpatia, “da Tribo à Nação, da Raça Humana ao todo da Criação senciente” (Cobbe, 1874).

Em 1970 o psicólogo britânico Richard Ryder cunhou o termo especismo (speciesism), como analogia ao racismo, para criticar a exclusão dos animais da comunidade moral por não pertencerem à espécie humana (Ryder, 1989: 328). Esse termo se revelaria de grande importância para as discussões posteriores em Ética Animal. Nessa chave, nota-se que, em The Moral Aspects of Vivisection, Cobbe critica uma frase de Thomas Huxley, que afirmou que não hesitaria em sacrificar uma “hecatombe de cães” em prol de um único humano. A autora considera essa atitude incoerente com a hierarquia de valores que deveria se esperar dos defensores do darwinismo, e afirma que a frase de Huxley reflete a manifestação de um “egoísmo racial” (‘raça’, aqui, tendo o sentido de espécie) sem fundamentos éticos sólidos. (Cobbe, 1889, p. 14).

Outra questão atual significativa é a atribuição do status de pessoas aos animais (Francione, 2008; Midgley, 1985; Singer, 2002). Cobbe não fazia uso costumeiro desse recurso, mas não hesitou em responder a um prelado jesuíta, o padre Rickaby. “Os brutos”, dissera Rickaby, “não possuem compreensão e, portanto, não sendo Pessoas, não podem ter quaisquer direitos”. Contra tal argumento Cobbe replica que a ciência tem demonstrado que os animais “possuem uma certa medida de Compreensão”, de modo que “eles devem, em uma certa medida, ser considerados Pessoas, e têm por consequência uma certa medida de direitos” (Cobbe, 1895, p. 5). Esse discurso de Cobbe, recorrendo à oposição kantiana entre pessoas e coisas, e defendendo que os animais estariam na categoria de pessoas, e não na de coisas, antecipava, assim, em quase um século um texto da filósofa Mary Midgley, com o mesmo tipo de linha argumentativa (Midgley, 1985).

Articulando vários argumentos e conceitos que até hoje têm validade nos debates éticos, Frances Power Cobbe se revela, assim, uma autora que ainda não recebe a devida atenção no Brasil, cujo meio acadêmico já desenvolve discussões significativas no campo da Ética Animal, mas que pouco conhece da história desse campo.

 

Referências Bibliográficas:

CARVALHO, André Luis de Lima; WAIZBORT, Ricardo. Os mártires de Bernard: a sensibilidade do animal experimental como dilema ético do darwinismo na Inglaterra vitoriana. Scientia Studia 10 (2): 355-400, 2012.

COBBE, Frances Power . Heteropathy, Aversion, Sympathy. The Theological Review: a quarterly journal of religious thought and life, 11 (44): 1-35, jan. 1874.

–––––. The Modern rack – papers on vivisection. London: Swan Sonnensche in & CO, 1889.

–––––.  The ethics of zoophily. Pp. 3-16, in: COBBE, Frances Power. On jesuit doctrines concerning the rights of animals. London: Victoria Street, Westminster, 1895.

DARWIN, Charles Robert. The origin of species by means of natural selecti on ,or the preservation of favoured races in the struggle for life. 1ª ed. London: John Murray, 1859.

–––––. The descent of man, and selection in relation to sex 1ª ed.. London: John Murray, 1871.

FRANCIONE, Gary. Animals as persons: essays on the abolition of animal exploitation. New York: Columbia University Press, 2008.

MIDGLEY, Mary. Persons and non-persons. Pp. 52-62, in: SINGER, Peter (ed), In defense of animals. New York: Basil Blackwell, 1985.

RACHELS, James. Created from animals: the moral implications of darwinism. London: Oxford University Press, 1998.

REGAN, Tom. The case for animal rights. California: University of California Press, 1983.

SINGER, Peter. Vida ética. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

SPOHN, WILLIAM. Who counts?: images shape our moral community. Issues in Ethics, 7 (2), 1996. Disponível em:  http://www.scu.edu/ethics/publications/iie/v7n2/spohn.html. Acesso: 13 de junho de 2008.

THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural: mudanças de atitudes em relação às plantas e aos animais (1500-1800). São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

 

 

Manuel Aires de Casal, o beemote de Jó e o registro das ocorrências fossilíferas brasileiras no início do século XIX

 

Antonio Carlos Sequeira Fernandes

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional.

Bolsista de Produtividade do CNPq e Sócio Correspondente Brasileiro da Academia das Ciências de Lisboa.

fernande@acd.ufrj.br

Felipe Faria

Pós-Doutorando do Programa de Pós Graduação em Filosofia

Universidade Federal de Santa Catarina

felipeafaria@uol.com.br

Miguel Telles Antunes

Academia das Ciências de Lisboa

CICEG, Universidade Nova de Lisboa

migueltellesantunes@gmail.com

 

Resumo: As duas últimas décadas do século XVIII e o início do século seguinte foram marcados pelas notícias da existência de gigantescas ossadas de uma fantástica animália que teria habitado as terras de Minas Gerais e do Nordeste do Brasil. Desta última região, duas localidades, Rio de Contas, na Bahia, e Pão de Açúcar, em Alagoas, foram mencionadas por Manuel Aires de Casal em sua obra Corografia Brasílica, de 1817. Nesta obra, apesar de reunir informações sobre as diversas regiões do Brasil, Aires de Casal não fez referências às ocorrências fossilíferas já documentadas e conhecidas pelas populações locais. Este fato corrobora a sugestão de que Aires de Casal era mais um excelente rebuscador de arquivos e bibliotecas do que um viajante atencioso às riquezas naturais do território brasileiro. Como homem culto, soube tecer considerações sobre as ossadas, interpretando-as como representantes de elefantes extintos que teriam habitado o sertão nordestino.

 

O registro documentado de fósseis no território brasileiro ocorreu somente a partir da segunda metade do século XVIII, sendo poucas as referências a possíveis achados antes desse período, como por exemplo as ocorrências registradas por Gabriel Soares de Sousa (1540s-1591), referentes à “cascas de ostras e de outro marisco”, que na verdade são rochas holocênicas cujo conteúdo conchífero é por vezes considerado como fossilífero por estar preservado em um corpo lítico (Sousa, 1938, p. 420) e as ocorrências registradas por Ambrósio Fernandes Brandão (1555-?), referentes às concreções de âmbar-gris encontradas no litoral do Nordeste, que por sua vez não passam de uma substância gordurosa produzida no aparelho digestivo de cachalotes (Physeter macrocephalus) que, após ser eliminada, é levada pelas correntes aos litorais dos continentes e então depositada nas praias e que na época eram interpretadas como material fossilizado (Brandão, 1997, p. 114-115 e p. 186).

Este jejum de registros documentados somente começou a ser quebrado nas últimas décadas do setecentos com o encontro de ossadas de grande porte que, por seu tamanho colossal e semelhança às ossadas de elefantes atuais, desconhecidos no território brasileiro, despertaram a curiosidade de naturalistas e autoridades provinciais que encaminharam alguns dos achados a Portugal, registrados em ofícios que os acompanhavam (Lopes, 2005; Pataca, 2006). Durante este período e no início do século seguinte surgiram notícias sobre a existência de gigantescas ossadas de uma fantástica animália que teria habitado as terras de Minas Gerais e do Nordeste do Brasil. Desta última região, duas localidades, Rio de Contas, na Bahia, e Pão de Açúcar, em Alagoas, foram mencionadas por Manuel Aires de Casal (1754?-1821?) em sua obra Corografia Brasílica, de 1817.

Dedicando sua vida ao estudo da geografia e história do país, durante sua permanência no Brasil (1796-1821), Aires de Casal coroou seu trabalho com a obra Corografia Brazilica, ou Relação Historico-Geografica do Reino do Brazil composta e dedicada a Sua Magestade Fidelissima por hum Presbitero Secular do Gram Priorado do Crato com Licença e Privilégio Real, primeiro livro publicado no Brasil em dois volumes pela Impressão Régia, em 1817. Nesta obra, apesar de reunir informações sobre as diversas regiões do Brasil, Aires de Casal não fez referências às ocorrências fossilíferas já documentadas e conhecidas pelas populações locais. Mas ainda assim, ao fazer menção somente a informações sobre a ocorrência de fósseis nas duas localidades já citadas, Aires de Casal se tornou, após as publicações dos naturalistas Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815) e João da Silva Feijó (1760-1824), um dos primeiros autores a registrar numa obra a existência de restos da megafauna pleistocênica no território brasileiro (Ferreira, 1972; Feijó, 1997).

Em virtude da amplitude e escopo das informações da obra, a análise de seu conteúdo pelo historiador e geógrafo, Caio Prado Júnior (1907-1990), levantou considerações sobre a personalidade e a formação cultural de Aires de Casal. Para Prado Júnior (1945, p. IX; 1955, p. 53), Aires de Casal não tinha “vocação ou instinto científico algum”, sendo um “simples colecionador e registrador de fatos” não revelando um observador direto. Sobre esta observação, Prado Júnior ressaltou o desconhecimento de que Aires de Casal tenha realizado viagens destinadas à coleta de dados para a redação de seu livro. Ao contrário dos grandes exploradores que percorreram o país, Aires de Casal teria obtido suas informações “em longo e paciente trabalho de pesquisa em textos escritos” sendo “um incansável rebuscador de bibliotecas e arquivos” (Prado Júnior, 1945, p. IX; 1955, p. 53) como os volumes e documentos da Biblioteca Real.

Aires de Casal demonstrou conhecer algumas ocorrências de fósseis de grandes mamíferos, como as da América do Norte, que certamente inteirou-se através da leitura de textos publicados na Europa e na América sobre esses animais na segunda metade do século XVIII, como por exemplo, o trabalho de Louis-Jean-Marie Daubenton (1716-1799) sobre ossadas fósseis descobertas nas margens do rio Ohio, na América do Norte, em 1739, em que discutiu, como Aires de Casal o fez anos mais tarde, assuntos como a extinção e o grande tamanho deste animal, além de incorrer no equívoco de utilizar a denominação de mamute para o animal, da mesma forma que Aires de Casal (Daubenton, 1764, p. 206-7, 217-8 e 229).

Mas ainda que fosse voraz pesquisador de bibliotecas e arquivos, curiosamente, Aires de Casal não utilizou como referência os trabalhos do naturalista francês, Georges Cuvier (1769-1832), que em 1806 descreveu o gênero Mastodon, e dirimiu definitivamente a polêmica estabelecida sobre a determinação taxonômica da ossada do “animal de Ohio”, como ficou conhecido o fóssil que Daubenton descrevera, a qual já se arrastava há décadas (Cuvier, 1806; Rudwick, 1997).

Mesmo assim, ainda encontramos vários fatos importantes para corroborar a sugestão de que Aires de Casal era um excelente rebuscador de arquivos e bibliotecas, como também de que ele não era um viajante atencioso às riquezas naturais do território brasileiro, pois mesmo tendo morado no Ceará no período em que desempenhou a função de sacerdote na cidade do Crato, ele não citou na Corografia Brasílica a existência dos fósseis de peixes presentes na chapada vizinha à cidade, bem conhecidos da população local e abordados por João da Silva Feijó, no início do oitocentos.

Entretanto o valor das observações sobre ocorrências fossilíferas feitas na obra de Aires de Casal não pode ser ignorado. Mesmo que limitada em suas observações sobre poucas ocorrências paleontológicas já conhecidas quando de sua redação, ainda assim a Corografia Brasílica é um importante marco para a paleontologia brasileira por ser a primeira obra publicada no Brasil com informações sobre os restos dos animais que habitaram o país no passado geológico.

 

Referências Bibliográficas:

BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das grandezas do Brasil. 3ª ed. Notas de José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: Massangana, 1997.

CUVIER, Georges. Sur le grand Mastodonte, animal trés-voisin de l’éléphant, mais à mâchelières hérissées de gros tubercules, donc on trouve les os en divers endroits des deux continens, et surtout près des bords de l’Ohio, dans l’Amérique Septentrionale, improprement nommé Mammouth par les Anglais et par les habitants des États-Unis. Annales du Muséum d’Histoire Naturelle, 8: 270-312, 1806.

DAUBENTON, L-M. Mémoire sur des os et des dents remarquables par leur grandeur. Histoire de l’Académie Royale des Sciences, année M.DCCLXII: 206-229, 1764.

FEIJÓ, João da Silva. Memória sobre a Capitania do Ceará e outros trabalhos. Ed. Fac-símile. Fortaleza: Fundação Waldemar Alcântara (Biblioteca Básica Cearense), 1997.

FERREIRA, Alexandre Rodrigues. Viagem filosófica pelas capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. Memórias: zoologia e botânica. Brasília: Conselho Federal de Cultura, 1972.

LOPES, Maria Margaret. “Raras petrificações”: registros e considerações sobre os fósseis na América Portuguesa. Pp. 1-17, in: Actas do Congresso Internacional Atlântico do Antigo Regime: poderes e sociedade. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/Universidade Nova de Lisboa, 2005.

PATACA, Ermelinda Moutinho. Terra, água e ar nas viagens científicas portuguesas (1755-1808). Campinas, 2006. Tese (Doutorado em Geoci ências) – Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas.

PRADO JÚNIOR, Caio. Introdução. Pp. VII-XL, in: Corografia Brasílica de Aires de Casal. Fac símile da edição de 1817. Tomo I. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1945.

PRADO JUNIOR, Caio. A evolução da Geografia e a posição de Aires de Casal. Boletim Paulista de Geografia, (19): 52-66, 1955.

RUDWICK, Martin J. S. Georges Cuvier, fossil bones and geological catastrophes. Chicago: University of Chicago Press, 1997.

SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descriptivo do Brasil em 1587. Coleção Brasiliana. Volume 117, 3ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938.

 

 

História das mudanças climáticas antropogênicas: de Fourier ao IPCC

 

Arthur Henrique de Oliveira

Mestre em História da Ciência, Professor de Biologia e Ciências na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo

swamiarthur@terra.com.br

 

Resumo: As mudanças climáticas, fenômeno conhecido também como aquecimento global, têm implicações significativas para as nossas vidas, gerações futuras e ecossistemas dos quais a humanidade depende. Consequentemente, tem sido objeto de intensa investigação científica e debate público, pois sua origem pode estar relacionada às atividades antrópicas, forças naturais ou ambas concomitantemente. Em tempos de destaque para as questões ambientais faz-se necessário o resgate histórico sobre os primórdios das mudanças climáticas antrópicas, bem como as personalidades do passado e do presente envolvidas na construção do tema, o que nos permitirá compreender, entre outras coisas, como a hipótese do aquecimento global antropogênico tornou-se uma força hegemônica dentro do atual cenário científico e político mundial.

 

O clima do planeta Terra está sempre em constante transformação. Isto vem ocorrendo há bilhões de anos e a ascensão das temperaturas globais vem ocorrendo desde o fim da ultima Era Glacial, quando uma enorme parte do hemisfério norte esteve sob uma camada de gelo com mais de um quilômetro de espessura e o nível dos oceanos era inferior ao atual. Apesar do clima do planeta ser governado por uma série de fatores internos e externos (vulcanismo, correntes oceânicas, geomagnetismo, raios cósmicos, excentricidade e obliquidade do eixo terrestre, intensificação do efeito estufa, manchas solares), a ideia de que o aumento nas concentrações antrópicas de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera estaria intensificando o efeito estufa ganhou consistência e tornou-se quase uma “unanimidade” dentro e fora dos meios acadêmicos, constando inclusive no Sumário para Formuladores de Políticas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Segundo o documento, se a concentração de CO2 dobrar nos próximos cem anos, poderá haver um aumento da temperatura média global entre 2 e 4,5ºC.

Para alguns pesquisadores a hipótese do CO2 de origem humana afetar o clima remonta ao final do século XIX e está ancorada nas premissas estabelecidas por pesquisadores como o físico e matemático francês Jean Baptiste Joseph Fourier (1768-1830) e o químico sueco Svante August Arrhenius (1859-1927). Fourier é erroneamente apontado como o “precursor” da descoberta do efeito estufa, porém, a palavra francesa para estufa “serre” não aparece em nenhum dos seus trabalhos, e ainda segundo o próprio Fourier, três fatores seriam responsáveis pela manutenção das temperaturas do globo terrestre: o calor emanado do sol, o calor interno da Terra, as temperaturas do espaço e não o efeito estufa (Fourier, 1827).

Arrhenius, por sua vez, simplificou demais o sistema climático, ignorou o fato do vapor de água também absorver radiação infravermelha, propôs que o aumento nas concentrações de CO2 na atmosfera poderia retardar a chegada de uma nova era glacial e utilizando a Lei de Stefan-Boltzmann utilizou cálculos equivocados na obtenção da temperatura média global, ou seja, ao invés de tirar a raiz quarta de cada temperatura para a partir daí obter um valor global, ele simplesmente somou todas as temperaturas, determinou o valor médio e extraiu a raiz quarta (Blüchel, 2008).

Atualmente, embora tenhamos a impressão de que os debates em torno da hipótese do aquecimento global pareçam uma novidade, o interesse e as considerações sobre as alterações climáticas induzidas pelas atividades humanas certamente não o são, constituindo-se uma difícil tarefa precisar a origem dessa discussão. Da antiguidade grega, passando pelos Estados Unidos e pela Europa dos séculos XVII e XVIII, até alcançar os dias atuais o tema vem sendo alvo de debates. Como o tema não tem recebido a atenção adequada, nosso objetivo é resgatar a origem da história do desenvolvimento da teoria do efeito estufa antropogênico e buscar subsídios para entender como esta teoria foi se consolidando no decorrer dos últimos cem anos.

Até alguns séculos atrás, o clima era um problema central para diversos pensadores. Muitos atribuíam ao clima um poder enorme acreditando, por exemplo, que a ascensão e queda de civilizações inteiras dependiam do clima e de suas mudanças. O clima teria uma influência muito grande no humor, no caráter e no cotidiano das pessoas (Carvalho Jr, 2011).

Charles Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu (1689-1755) é um dos mais conhecidos pensadores quando a referência é o determinismo climático. Montesquieu, com sua ênfase no papel do clima sobre a cultura, buscou compreender as influências dos fatores naturais e culturais sobre o homem objetivando a elaboração das leis, ou seja, um princípio geral que pudesse guiar o bom legislador.

Samuel Williams (1743-1817), membro de instituições como a Academia Alemã de Meteorologia, Sociedade Filosófica da Filadélfia e Academia de Artes e Ciências de Massachusetts, endossava a ideia de que o clima na Europa e América do Norte estava mudando em decorrência da derrubada das florestas para o plantio. O naturalista alemão Alexander Von Humboldt (1769-1859), por sua vez, no livro Views of Nature: Or Contemplations on the Sublime Phenomena of Creation (1850), foi mais cauteloso e questionou as afirmações de que o clima havia se tornado mais quente. Segundo Humboldt, tais informações não estavam baseadas em dados empirícos, e mesmo aquelas baseadas em medições, poderiam ser creditadas à urbanizazção, ao crescimento da população e às inúmeras máquinas a vapor (Humboldt, 1850, pp 103-104).

Os estudos e as discussões a respeito da influência das florestas sobre o clima prosseguiram. Em 1871, o professor do Museu de História Nacional e membro da Academia de Ciências, M. Becquerel (1788-1878), em artigo intitulado Forests and Their Climatic Influence tratou das relações entre florestas, agricultura, solo e clima. Becquerel era favorável à elaboração de trabalhos respaldados por dados empíricos e a necessidade de se colocar de lado as especulações baseadas apenas nos relatos dos antigos. Segundo o autor, Alexander Von Humboldt estava no caminho certo quando confrontou os dados fornecidos pelos termômetros espalhados por diversas estações no continente americano, com os relatos dos antigos (Becquerel, 1871).

Mas, foi somente a partir do final do século XIX que a ideia de que o CO2 poderia influenciar foi colocada. A partir daí vários estudos foram publicados visando refutar ou reafirmar tal possibilidade. Arrhenius defendeu a ideia ao publicar o artigo On the Influence of Carbonic Acid in the Air upon the Temperature of the Ground (1896), afirmando que a atmosfera se comportaria como uma estufa. Robert Williams Wood (1868-1955), físico e inventor americano publicou na Revista Filosófica de Londres um artigo intitulado Note on the Theory of the Greenhouse (1909), no qual refutava a hipótese de que a atmosfera poderia se comportar como uma estufa.

Como os termômetros começaram a apontar para uma queda nas temperaturas, a ideia de aquecimento “esfriou”. Da década de 1940 até meados da década de 1970 diversos artigos foram publicados defendo a hipótese do planetaTerra estar entrando novamente em uma era glacial. O resfriamento global foi capa da revista Time em vários momentos naquele período: Another Ice Age? (24 de junho de 1974), The Big Freeze (31 de janeiro de 1977) e How To Survive the Coming Ice Age (8 de abril de 1977).

No dia 09 de julho de 1971, a Revista Science publicou o artigo Atmospheric Carbon Dioxide and Aerosols: Effects of Large Increases on Global Climate, dos pesquisadores S. Ichtiaque Rasool e H. Stephen Schneider defendendo a hipótese de resfriamento global.

No final da década de 1980 a Organização Meteorológica Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, sob os auspícios da ONU (Organização das Nações Unidas), reconheceu formalmente que o frio não era mais uma ameaça iminente, mas sim o aquecimento global. Em 1988 foi criado o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). A cada quatro anos, aproximadamente, o painel realiza uma compilação dos últimos resultados de pesquisas relacionadas às mudanças climáticas globais. Os relatórios têm sido alvo de diversas críticas pelos chamados céticos climáticos. A polarização entre defensores e opositores do aquecimento global antropogênico (AGA) tem se intensificado nos últimos anos e ambos os lados têm apresentado pesquisas que embasam seus argumentos.

Nessas circunstâncias de incertezas é preciso destacar que a Ciência não é local de consenso e quando as teorias opostas se rivalizam em torno de um fenômeno único na expectativa da sua elucidação, a atividade científica torna-se transparente, uma vez que, as teorias científicas são construções no qual a ciência fornece a ambas as partes divergentes seus próprios corpos de informações relevantes e justificados.

Mudanças climáticas são fenômenos naturais que ocorrem há centenas de milhões de anos, e no estado atual do conhecimento científico o homem pouco pode fazer a não ser entender melhor a sua dinâmica e adaptar-se a ela. Na atualidade os cientistas continuam trabalhando para diminuir as incertezas, tendo apenas a convicção que o dióxido de carbono é um componente atmosférico essencial para a produção primária nos vegetais, e que a polarização existente entre teorias antagônicas para explicar as possíveis mudanças climáticas causadas pela ação humana vem ocorrendo há muito tempo, e ao que tudo indica, está muito longe de chegar a um ponto final.

 

Referências Bibliográficas:

ARRHENIUS, Svante August. On the influence of carbonic acid in the air upon the temperature of the ground.  Philosophical Magazine, 5 (4) 251: 237-276, 1896.

–––––.  Worlds in the making. The evolution of the universe. New York: Harper & Row, 1908.

BECQUEREL, M. Forests and their Climatic Influence. Annual Report of the Board of Regents on the Smithsonian Institution: 394-416. Washington: Government Printing Office, 1871.

BLÜCHEL, Kurt G. A fraude do efeito estufa. São Paulo: Publishing House, 2008.

FOURIER, Jean Baptiste. Remarques générales sur les températures du globe terrestre et des espaces planétaires. Annales de Chimie et de Physique, 2e série, XXVII: 136-167, 1824.

–––––. Mémoire sur les températures du globe terrestre et des espaces planétaires. Mémoires de l’Académie royale des sciences de l’Institut de France, VII: 570-604, 1827.

–––––. Oeuvres de Fourier. Paris: Gauthier-Villars II, 1890.

MARINE Conference. Report of the Conference held at Brussels at the invitation of the Government of the United States of America, for the purpose of concerting a systematical and uniform plan of meteorological observation at sea (1853). Disponível em: http://books.google.com.br/books/about/Maritime_conference_held_at_Brussels_for.html?id=0Ys_AAAAcAAJ&redir_esc=y. Acesso em: 09 março de 2013.

MONTESQUIEU, Baron de (Charles de Secondat). The spirit of laws [1748]. Kitchener: Batoche Books, 2001.

RASOOL, Ichtiaque; SCHNEIDER, Stephen. Atmospheric carbon dioxide and aerosols: effects of large increases on global climate. Science, 173: 138-141, 1971.

VON HUMBOLDT, Alexander. Views of nature: or contemplations on the sublime phenomena of creation, with scientific illustrations. Disponível em: http://books.google.com/. Acesso em: 14 junho, 2012.

WILLIAMS, Samuel. The Natural and Civil History of Vermont. Volume I. Burlington: Samuel Mills, 1809.

WOOD, Robert Williams. Note on the theory of the greenhouse. Philosophical Magazine, 17, 1909. Dispponível em: http://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1080/14786440208636602. Acesso em: 10 fev. 2013.

 

 

Evolução e catolicismo: discussões em jornais cariocas no final do século XIX e início do século XX

 

Brunah Schall

Bióloga, Mestranda em Sociologia, Orientador: Renan Springer de Freitas

Departamento de Sociologia, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil

brunah.schall@gmail.com

Resumo: A recepção do darwinismo no Brasil foi considerada por Thomas Glick em 2003 menos problemática do que em outros países católicos devido a três motivos: o imperador Dom Pedro II não era de todo contrário a Darwin; a elite católica viu no darwinismo uma oportunidade de legitimar a supremacia branca; e no controle das principais instituições científicas (museus e faculdades) estavam simpatizantes do darwinismo. Contudo, um estudo do contexto do catolicismo no Brasil pode revelar outras possíveis explicações para essa recepção menos problemática, ou até mesmo demonstrar que ela foi mais polêmica do que se pensa. O catolicismo no Brasil sofreu um período de decadência desde a Independência e durante a República. Entretanto, no início do século XX um movimento de “reação católica” começou a ser articulado por intelectuais, com o intuito de ampliar a participação da Igreja em âmbitos sociais, científicos e educacionais. Tendo em vista os diferentes momentos históricos do catolicismo no Brasil, foram buscadas referências ao evolucionismo e ao darwinismo em periódicos do Rio de Janeiro. Entre os resultados obtidos, dois autores chamaram a atenção por expressarem opiniões diametralmente opostas, que refletem as diferenças que marcaram a relação entre catolicismo e ciência no Brasil na virada do século XIX para o século XX.

 

A literatura sobre a recepção do darwinismo no Brasil surpreende pela raridade de estudos com enfoque em questões religiosas envolvendo as ideias de Darwin no país. A recepção brasileira foi considerada por Thomas Glick em 2003 menos problemática em comparação com outros países católicos, como Espanha e México, nos quais a recepção da teoria evolucionista foi em geral negativa. O autor levanta três possíveis razões para isso: o imperador Dom Pedro II não era de todo contrário a Darwin; a elite católica viu no darwinismo uma oportunidade de legitimar a supremacia branca; e no controle das principais instituições científicas (museus e faculdades) estavam simpatizantes do darwinismo. Contudo, um estudo do contexto do catolicismo no Brasil pode revelar outras possíveis explicações para essa recepção menos problemática, ou até mesmo demonstrar que ela foi mais polêmica do que se pensa.

Desde a Independência e durante a República o espírito cristão passou por uma fase de decadência no Brasil, na qual o catolicismo resumia-se aos costumes e festas. O clero estava mais preocupado com “festas para os vivos e pompas fúnebres para os mortos” (Villaça, 2006, p.74) do que com a doutrinação de seus fiéis e a participação na vida social e política do país. O pensamento filosófico da época era influenciado pelo positivismo de Comte, o evolucionismo de Haeckel e Spencer e o transformismo de Darwin, propagados por intelectuais como Benjamin Constant, Sylvio Romero e Miranda Azevedo. Entretanto, no início do século XX um movimento de restauração da espiritualidade e revitalização do ideário cristão começou a ser articulado, o qual Villaça (2006) chama de “reação católica”. Esse movimento foi liderado por intelectuais católicos empenhados em aumentar a participação da religião na sociedade, na ciência e na educação:

O problema dos intelectuais católicos brasileiros, no começo do século, era o das relações entre Ciência e Fé. Spencer reinava. O positivismo se impunha (a matemáticos, militares e engenheiros). A Ciência lograra destruir Deus e a Metafísica. Tratava-se, pois, de restaurar os direitos de uma Metafísica do ser. (Villaça, 2006, p. 149)

Tendo em vista os diferentes momentos históricos do catolicismo no Brasil, foram buscadas referências ao evolucionismo e ao darwinismo em periódicos do Rio de Janeiro, disponibilizados na Hemeroteca Digital da Fundação Biblioteca Nacional. Esse levantamento incluiu publicações desde 1859, ano de lançamento de A Origem das Espécies até a primeira década do século XX. Dentre os resultados obtidos, dois autores chamaram a atenção por representarem opiniões diametralmente opostas e aparecerem repetidamente nas pesquisas. O primeiro é o militar Rodolpho Pao Brasil, que assinava seus textos como P. B. ou com o pseudônimo “Hartmann”. Esse último nome refere-se a Eduard von Hartmann, filósofo alemão que entre seus trabalhos escreveu A Auto Dissolução do Cristianismo e A Religião do Futuro (1874). P. B. era membro de uma associação filosófica fundada em 1881 na Escola Militar da Praia Vermelha (Rio de Janeiro), chamada “Família Evolucionista”. Publicava semanalmente no jornal Gazeta da Tarde, e sua coluna foi mudando de nome ao longo do tempo de “Folhetim Evolucionista” para “Semana Scientifica”, “Philosophia Instantanea” e por fim “Pessimismo Philosophico”. Dedicou vários textos à reflexão sobre uma “Religião do Futuro”, dizendo que “(...) a Arte, a Sciencia e a Industria, eis o evolucionismo. A lei que liga a Arte á Sciencia, e a Sciencia á Industria, é a Lei da Evolução, que é a Lei ou a Religião do amor do Homem á Humanidade, no espaço e no tempo” (1882). Apesar de se dizer contrário ao positivismo de Comte, P.B. tinha uma visão semelhante à este ao defender a progressão intelectual do teologismo ao evolucionismo, afirmando que “o christianismo foi o prefacio necessário do evolucionismo” (1883). Também possuía o hábito positivista de fazer analogias organicistas, referindo-se diversas vezes à atrofia do teologismo:

O órgão tinha funcionado assaz. De então em diante começou de atrofiar-se. Como certos aparelhos existentes nos organismos superiores, que apenas servem para atestar incapacidade de funcionamento, assim o teologismo, triste legado hereditário do passado, não pode se adaptar ao meio moderno. Está, pois, condenado fatalmente. (P.B. 1882)

As publicações de P.B. encontradas até agora datam principalmente de 1882 e 1883. No início do século XX outro colunista semanal passa a ter como tema principal o evolucionismo, porém com a intenção de criticá-lo. Esse assina como “Oliveira e Silva”, provavelmente um pseudônimo, mas em nenhum momento se identifica como P.B. eventualmente faz. Oliveira e Silva publicava sempre aos domingos no jornal Gazeta de Notícias uma coluna chamada “Rabiscos”, principalmente em 1902 e 1903. Em 1908 também publicou alguns textos refutando as ideias evolucionistas do criminalista italiano Enrico Ferni, que veio naquele ano ao Brasil divulgar suas ideias. Na primeira referência encontrada de Oliveira e Silva, esse assume a posição que irá adotar em seguida em todos seus escritos:

Eu nego a teoria de que o homem se aperfeiçoa per si: nego o evolucionismo de Spencer; nego o transformismo; nego o socialismo econômico: sustento o livre arbítrio, sustento o direito da Igreja em intervir no governo dos povos; sustento a moral revelada [...]. (Oliveira e Silva, 1902)

O colunista argumenta que a hipótese do transformismo foi muito abalada quando Pasteur provou em seus experimentos que não é possível haver geração espontânea. Também se opõe à ideia de que o homem descende do macaco, afirmando que todas as pesquisas empenhadas em encontrar o intermediário entre os dois não foram bem sucedidas e que, portanto, não existe um homem-macaco. Em seus textos utiliza a própria ciência para refutar os argumentos do transformismo de Darwin e do evolucionismo de Spencer, concluindo que a Igreja Católica, em sua sabedoria, espera com paciência que as doutrinas arquitetadas com o intuito de destruir as verdades eternas por ela propagadas sejam destruídas pelo próprio espírito crítico que as criou.

Separados por apenas uma década, os textos de P.B. e Oliveira e Silva refletem bem as diferenças que marcaram a relação entre catolicismo e ciência no Brasil na virada do século XIX para o século XX. Assim, essa pesquisa pretende demonstrar as possíveis relações entre o contexto religioso brasileiro e a repercussão das ideias de Darwin na imprensa popular carioca, e outros registros estão sendo coletados de modo a fundamentar tal perspectiva histórica.

 

Referências Bibliográficas:

GLICK, Thomas. Introdução, in: DOMINGUES, M. B.; SÁ, M. R.; GLICK, T. F. (org.). A Recepção do Darwinismo no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003.

OLIVEIRA E SILVA, Antonio José. Rabiscos: A Luiz Castro. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, Quarta-feira, 5 de fevereiro de 1902.

PAO BRASIL, Rodolpho. Folhetim Evolucionista: Evolucionismo. Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro, Terça-feira, 2 maio 1882.

–––––. Folhetim Evolucionista: Religião do Futuro I. Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro, Terça-feira, 23 maio 1882.

–––––. Philosophia Instantanea. Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro, Sábado, 7 abr. 1883.

VILLAÇA, A. C. O pensamento católico no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

 

 

A água e a evolução biológica: do século XIX ao século XX

 

Brunno Botelho Borges*

brunnobborges@usp.br

 

Giovanna Paola M. Bergamini*

giogi@uol.com.br

 

Nicole Wiezel de Carvalho*

niih.carvalho@hotmail.com

 

Pedro Espindola Giuliangeli de Castro*

pedroespindola11@hotmail.com

 

Pedro Margutti Marques Bruneli*

pedro.bruneli@usp.br

 

Tiago do Amaral Moraes*

tiagoye@hotmail.com

 

Wilson França de Oliveira Neto*

bob-nek-will@hotmail.com

 

*Graduandos no Departamento de Biologia, Faculdade de Filososofia, Ciência e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo

 

Resumo: O objetivo deste trabalho é discutir de que modo a água apareceu em teorias evolutivas dos séculos XIX e XX. Para isso, selecionamos propostas de alguns autores que defendiam a evolução biológica, a saber: Jean Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829); Erasmus Darwin (1731-1802) ; Robert Chambers (1802-1871); August Weismann (1834- 1914) e Alexander Ivanovich Oparin (1894-1980). Este estudo levou à conclusão de que a água esteve presente nas teorias evolutivas analisadas. Em todas elas a água está relacionada à origem da vida e à formação dos primeiros seres. Lamarck, Erasmus Darwin, Chambers e Weismann a associavam à geração espontânea dos primeiros seres, que seriam extremamente simples. Lamarck mencionou a presença de água ou lugares úmidos, Erasmus Darwin e Chambers mencionaram a água do mar como substrato. Já Weismann, no início do século XX explicava que na formação dos primeiros seres atuaram forças moleculares e que houve uma interação entre corpos sólidos e fluidos. Oparin se referia à “sopa” ou “caldo” primordial, uma solução aquosa onde ocorreram as primeiras transformações.

 

O objetivo deste trabalho é discutir de que modo a água apareceu em teorias evolutivas dos séculos XIX e XX. Para isso, selecionamos propostas de alguns autores que defendiam a evolução biológica, a saber: Jean Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829); Erasmus Darwin (1731-1802) ; Robert Chambers (1802-1871); August Weismann (1834- 1914) e Alexander Ivanovich Oparin (1894-1980).

Lamarck admitia a existência da geração espontânea. As primeiras formas de animais e plantas, extremamente simples, teriam surgido na água e em lugares úmidos e se formado, por forças de atração e repulsão sob a ação de fenômenos físicos (naturais) conhecidos na época: calórico e eletricidade. Esses corpos gelatinosos e microscópicos teriam se formado no início e estariam se formando até hoje por geração espontânea. Entretanto, algumas dessas formas foram desenvolvendo órgãos específicos com o tempo até se chegar a seres mais complexos que constituem grupos taxonômicos maiores que Lamarck chamou de “massas”. Esse processo continua sempre sob a ação da lei da tendência de aumento de complexidade que existe na natureza. Ao mesmo tempo, existe a influência de circunstâncias que podem causar modificações nos grupos taxonômicos menores que Lamarck chamou de raças (Lamarck, 1815, p. 146-147; Martins, 2007, p. 107-117).

Como Lamarck, Erasmus Darwin defendia a formação das espécies a partir de um processo gradual. Ele acreditava que os seres vivos tinham surgido na água (oceano) e foram evoluindo em cavernas, de tal forma até terem barbatanas, pés, e finalmente asas. Portanto a evolução sempre foi dependente da água. A partir das primeiras formas de vida que nela surgiram, originaram-se as formas terrestres. Estas, então, só conseguiram sobreviver na medida em que desenvolveram mecanismos fisiológicos que lhes permitiram retirar água do meio e retê-la em seus próprios organismos (Darwin, Erasmus, 1802, p. 26).

Ele aceitava no que se refere à origem da vida, a geração espontânea, limitando-a aos menores organismos. Os mais complexos foram originados a partir de outras formas de vida, ou a partir da decomposição destes (Osborn, 1903, p. 142).

Segundo Chambers, autor de uma obra que foi publicada anonimamente, Vestiges of the natural creation (1844), a vida surgiu a partir da matéria inanimada com alto teor de carbono. Nesse sentido, ele mencionou o próprio ciclo do carbono. Outro ponto presente na teoria de Chambers foi a “vesícula nucleada” que seria a forma fundamental de toda a vida, e também o ponto de encontro entre a matéria inorgânica e os seres orgânicos. Chambers não negava a existência de Deus. Explicou que o processo evolutivo é regido por leis naturais. Ele também acreditava que todo o carvão presente na crosta hoje, no passado eram óxidos de carbono, o que tornava o meio terrestre inapropriado à vida. Com isso, considerou que a vida começou na água, mais especificamente no mar. Para isso, ele se baseou em evidências paleontológicas disponíveis na época, dedicando quarenta e três páginas para discutir sobre as formações fósseis. Outro ponto interessante é que Chambers utilizou uma terminologia própria para se referir aos períodos geológicos. Como os mais antigos fósseis encontrados eram marinhos, para Chambers os primeiros animais a surgir foram: crustáceos, moluscos e cnidários, pois ocupavam camadas fossilíferas mais antigas. Logo em seguida, surgiram os brachiopodes, trilobitas, analídeos e finalmente os peixes, considerados por ele os primeiros vertebrados (Chambers, 1844, p. 54-65; Osborn, 1903, p. 217; Hueda & Martins, 2010, p 358).

O biólogo e médico alemão Weismann, no início do século XX, ao tratar da origem da vida, considerou que os primeiros seres seriam os menos complexos. Teriam surgido através da geração espontânea e, com o tempo, iriam se tornando cada vez mais complexos. Esses primeiros seres que ele chamou de Biophoridae, teriam surgido na camada superficial de uma substância porosa (areia ou argila), onde as forças moleculares de corpos sólidos fluidos e gasosos pudessem interagir entre si (Weismann, 1904.vol. 2, cap. 6).

Em sua obra Modern state and prospects for the solution of the problem of the origin of the life, Oparin (1968) descreveu as possíveis condições para o surgimento da vida na Terra. A água, ao que tudo indica, teve um papel decisivo. O autor mencionou a existência de um “caldo” ou “sopa primordial”. Explicou que na solução aquosa simples das substâncias orgânicas formadas na sopa, as transformações ocorreram de acordo com as leis gerais da física e da química.

Nossa pesquisa levou à conclusão de que a água esteve presente nas teorias evolutivas analisadas. Em todas elas ela está relacionada à origem da vida e formação dos primeiros seres. Lamarck, Erasmus Darwin, Chambers e Weismann a associavam à geração espontânea dos primeiros seres, que seriam extremamente simples. Lamarck mencionou a presença de água ou lugares úmidos, Erasmus Darwin e Chambers mencionaram a água do mar como substrato. Já Weismann, no início do século XX explicava que na formação dos primeiros seres atuaram forças moleculares e interação de corpos sólidos e fluidos. Oparin se referia à “sopa” ou “caldo” primordial, uma solução aquosa onde ocorreram as primeiras transformações.

 

Referências Bibliográficas:

CHAMBERS, Robert. Vestiges of the natural creation. London: John Churchill, 1844.

DARWIN, Erasmus. Zoonomia or the laws of organic life. 2th edition. London: J. Johnson, 1796.

OPARIN, Alexander Ivanovich. The origin and development of life. Washington, 1968. Trad. NASA.

HUEDA, Marcelo Akira ; MARTINS, Lilian Al-Chueyr Pereira. Lamarck, Chambers e a evolução orgânica. In: MARTINS, Roberto de Andrade; LEWOWICZ, Lucía; FERREIRA, Juliana Mesquita Hidalgo; SILVA, Cibelle Celestino; MARTINS, Lilian Al-Chueyr Pereira (orgs.). Filosofia e História da Ciência no Cone Sul. Seleção de Trabalhos do 6º Encontro. Campinas: AFHIC, 2010.

LAMARCK, Jean Pierre Antoine de Monet, Chevalier de. Histoire naturelle des animaux sans vertèbres. Volume 1. Paris: Verdière, 1815.

MARTINS, Lilian Al-Chueyr Pereira. A teoria da progressão dos animais de Lamarck. Rio de Janeiro: BookLink/FAPESP, 2007.

OSBORN, Henry Fairfield. From Greeks to Darwin. New York: The Macmillan Company, 1903.

WEISMANN, August. The evolution theory. Volume 2. Trad. Thomson, J. Arthur & Thomson, Margaret R. London: Edward Arnold, 1904.

 

 

A importância do diálogo entre ciência, ecologia e espiritualidade frente à crise ecológica atual

 

Carolina Alves d’Almeida

Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Filosofia da PUC-RJ

Pesquisadora voluntária do Lab. de Bioecologia de Insetos e Comportamento Animal do Dep. de Biologia Geral da UFF; Pesquisadora voluntária do Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro - IPJBRJ

caroldalmvegan@gmail.com

 

Resumo: Atualmente, com o agravamento da Crise Ecológica, as discussões acerca da reconfiguração da Espistemologia Clássica e da constituição de uma nova ciência ética têm crescido consideravelmente. Neste trabalho pretendemos discutir a urgência da abolição do pensamento dualista moderno ocidental para a mudança nas relações (de poder) entre seres humanos e a comunidade ecológica, com ênfase no diálogo entre Ciência, Ética e Espiritualidade. Um dos primeiros passos para essa conciliação é a reprodução de formas híbridas de pensamento que podem dissolver a divisória epistemológica clássica entre científico e não-científico; entre a ciência “pura” e os diálogos ou histórias “impuras” (ou ainda não purificadas). Trata-se da construção de uma ciência híbrida, relacional e pluralista que combine as perspectivas objetivas e técnicas com as perspectivas subjetivas e sociais, superando o caráter objetificante e intrumentalizante das Ciências Naturais e permitindo o diálogo com as abordagens “ecoespiritualistas” e transcendentais da Natureza. Tais abordagens podem contribuir para a sensibilização ética e moral das práticas científicas, ocasionando a mudança nas relações (instrumentais) dos cientistas (e não-cientistas), com a comunidade ecológica e seus indivíduos, para relações (intersubjetivas) de respeito, empatia, responsabilidade e amor incondicional, atribuindo à comunidade ecológica e a todos os seus seres um valor intrínseco e espiritual.

 

Atualmente, com o agravamento da Crise Ecológica, as discussões acerca da reconfiguração da Espistemologia Clássica e da constituição de uma nova ciência híbrida e ética têm crescido consideravelmente na comunidade acadêmica. Dentre as questões mais discutidas, destacam-se : a interface entre as Ciências Naturais (objetivas) e as Ciências Sociais (subjetivas) ; o reconhecimendo de não-humanos como sujeitos, “agentes” ou actantes (Ingold, 2011,p. 210-214 ; Latour, 2000, 2012); a consideração ética e moral com relação à todas as espécies e à comunidade ecológica; a importância das experiências e relações intersubjetivas, bem como das narrativas “paracientíficas” (ou não-científicas), para as Ciências Naturais (ou Biológicas); e, sobretudo, a abolição do pensamento dualista moderno ocidental para a mudança profunda nas relações (de poder) entre seres humanos e a Natureza. Neste trabalho, discutiremos essa última questão, com ênfase no diálogo Ciência, Ética e Espiritualidade.

Pensadores como Tim Ingold, Gregory Bateson, Bruno Latour, Isabelle Stengers, Donna Haraway, dentre outros, através de suas perspectivas sociais, relacionais, simétricas e “ecopluralistas”[1], começaram a repensar a ciência dessa forma híbrida e multidimensional. A discussão sobre a “reprodução de híbridos”, que são, segundo Guilherme Sá (2010, p. 184), “formas de pensar — artefatos — oficialmente oficiosas e oficiosamente oficiais; naturalmente culturais e culturalmente naturais”, conquistou antropólogos e filósofos da ciência interessados, particularmente, na visão ‘relacionalista’ das práticas científicas como coletivos ou redes de relações sociais[2] (Latour, 2000, p.  2012). Tais formas de pensar podem dissolver a grande divisória epistemológica clássica entre científico e não-científico (“paracientífico”); entre a ciência “pura” (ou purificada) e os diálogos ou histórias “impuras” (ou ainda não purificadas). Trata-se da construção de um pensamento científico híbrido, relacional e pluralista que combina perspectivas objetivas e técnicas com perspectivas subjetivas e sociais, superando o caráter ‘objetificante’ e ‘instrumentalizante’ das Ciências da Natureza.

A ciência híbrida, neste sentido, desempenha um papel ético muito importante para a superação da Crise Ecológica e para a diminuição dos danos causados à Natureza pelas atividades humanas, através das práticas (ético)científicas de preservação e conservação da biodiversidade e dos ecossistemas e, principalmente, da mudança na conduta e nas relações dos seres humanos com o restante da comunidade ecológica. Tais mudanças incluem a atribuição de considerações éticas e morais, como valores intrínsecos (além do instrumental), bem como o respeito por todos os indivíduos, humanos ou não-humanos, que compõem essa vasta rede.

Para “solucionar” a gravidade da Crise Ambiental, Latour (2011:5) destaca a necessidade urgente de tal transformação na postura e nas relações dos seres humanos com todos os ecossistemas – na nossa desconexão com a comunidade ecológica – através do reconhecimento de que somos os responsáveis pelo “Antropoceno”[3] e por esta Crise – pelos danos climáticos e ambientais causados pelas ações antrópicas. Assim, permitimos que a consciência ecológica eleve nosso senso de compromisso moral ao nível exigido por esse Planeta (Latour, 2011, p. 5). Isso nos levaria a uma reconexão com a Natureza. Indo mais além, Latour (2009, p. 459-463) ressalta a importância da reflexão sobre o que ele chama de “Ecoteologia”, ou uma possível conexão entre ecologia e teologia ou entre consciência ecológica e espiritualidade cristã.

Acerca dessa questão, sugerimos que o diálogo entre as Ciências Naturais e cosmovisões “ecoespiritualistas”, pode contribuir para a mudança de nossas relações com a Natureza. O desconhecido e o sobrenatural, de uma perspectiva “multinaturalista”[4] (pegando emprestado o termo do Eduardo Viveiros de Castro), na verdade, pode ser concebido como um tipo particular de realidade (ou natureza) não-objetiva e não-materializada.

A “Ecoespiritualidade”, tal como a “Ecoteologia”, consiste na conexão entre ecologia e espiritualidade. Trata-se de uma “Ecosofia”[5] (Drengson & Inoue, 1995, p. 8; Naess, 1989, p. 35-37), na qual a espiritualidade desempenha papel importante, uma vez que a Ecologia[6], que nós ocidentais restringimos ao mundo material, físico ou visível, os “ecoespiritualistas” transcendem para o plano astral, espiritual e invisível. No entanto, eles fazem isso sem negar a realidade objetiva e a Evolução, uma vez que concebem esses planos espirituais como “reais” e “naturais”. Nosso objetivo principal, neste trabalho, é refletir sobre a possibilidade (ou impossibilidade) de conceber os fenômenos espirituais e astrais como parte da realidade e da Natureza, e assim, testar a possibilidade de uma interface entre as Ciências da Natureza e a Espiritualidade, como complementares.

Algumas formas de espiritualidade, como a Doutrina Espírita “científica”, o Universalismo, o Budismo, o Taoísmo, a Umbanda, entre outras, transcendem o pensamento “ecológico” e “evolucionista” para além do plano físico e visível, ou da realidade objetiva e material. Elas não negam a Evolução biológica, a (Filo)genética e a Ecologia, muito pelo contrário, algumas destas perspectivas espiritualistas – principalmente aquelas ligadas à Física Quântica – adotam essas teorias científicas objetivas para tentar explicar fenômenos espirituais. Por outro lado, elas também podem complementar a Ciência com aspectos espirituais e transcendentais, dissolvendo a oposição entre o físico e o extra-físico, e admitindo a interface entre ambos.

Existe, portanto, uma tentativa de explicar e esclarecer o “mundo espiritual e astral”, através de perspectivas científicas, que não se trata de “Criacionismo”. Nem tudo que não é evolucionista, é criacionista. O Criacionismo é concebido pelo pensamento científico Ocidental como a “negação” do Evolucionismo. O que propomos aqui é oposto: é a afirmação do Evolucionismo e do seu diálogo com outras teorias, perspectivas e cosmologias. Uma Teoria da Evolução que abrange aspectos sociais, subjetivos, vitalistas, fenomenológicos, históricos, culturais, ecopolíticos, éticos e espirituais, muito além dos biológicos e ecológicos, seria um bom exemplo do que chamamos de ciência híbrida.

Um dos principais obstáculos que atrapalham essa discussão é o preconceito dos cientistas objetivos e “puros” contra qualquer assunto que esteja além do mundo físico e material, ou da sua percepção. Mesmo não se tratando de Criacionismo, ou negação da Evolução biológica, falar do desconhecido, do “misterioso”, do impossível de ser observado, evidenciado e comprovado através do Método Científico, ainda é um tabu para a Ciência Ocidental.

Ao transcender a Ecologia, a abordagem “ecoespiritualista” atribui aos elementos naturais, aos organismos vivos e não-vivos, aos ecossistemas, um “(multi)valor intrínseco e espiritual”. A comunidade ecológica, nessa concepção, tal como nas concepções éticas ecocêntricas (Curry, 2011, p. 92; Drengson & Inoue, 1995), também é concebida como uma comunidade ética (Sylvan & Bennett, 1994, p. 91), dotada de valor intrínseco. Desse modo, a incorporação dessas abordagens “ecoespiritualistas” pelas Ciências da Natureza pode contribuir para a sensibilização ética e moral das práticas científicas, facilitando a mudança nas relações, antes instrumentalizantes e objetificantes, dos cientistas com a comunidade ecológica e seus indivíduos, para relações sociais de respeito, empatia, consideração, responsabilidade e, até mesmo, amizade ou amor.

Pensar uma nova forma de ciência que consiga levar em consideração a sociedade, a ecologia, a política, a espiritualidade e o amor incondicional, tornou-se uma das tarefas dos cientistas da atualidade frente a esta Crise Ambiental sem precedentes.

Por fim, esperamos, com esse trabalho, despertar reflexões sobre a necessidade, nos dias de hoje, da conciliação entre diferentes perspectivas que podem trabalhar juntas na Ciência Híbrida, em particular, a interface entre as perspectivas físicas e extra-físicas, ou do mundo físico, material e visível com o mundo “desconhecido”, invisível e espiritual.

Assim como evolucionistas esclarecem e explicam as origens e a evolução biológica de todos os organismos ou espécies do Planeta Terra, os espiritualistas podem contribuir acrescentando algo para a sensibilização ética e para o enriquecimento pluralista teórico da ciência, fornecendo conteúdo para a reflexão ética e crítica da prática científica e para possíveis reconfigurações.

Assim como ecologistas podem explicar esse vasto sistema ou rede de relações ecológicas sociais e heterogêneas que é o planeta, como funcionam nossos ecossistemas e como os organismos interagem com o meio-ambiente, os ecoespiritualistas transcendem essas explicações materiais, mostrando o significado espiritual (vibracional e energético) dessas relações ecológicas para além do plano físico. Enfim, diferentes atores podem trabalhar juntos nessa nova configuração da ciência híbrida, pluralista e, acima de tudo, ética.

 

Referências Bibliográficas:

CALLON, Michel. Techno-economic networks and irreversibility. Pp. 132-

165, in: LAW, John (ed.). A sociology of monsters: essays on power, technology and domination. London: Routledge. 1991.

CURRY, Patrick. Ecological ethics: an introduction. Cambridge, UK: Polity Press, 2011.

–––––. Re-thinking nature: towards an eco-pluralism. Environmental Values, 12 (3): 337-360, 2003.

DRENGSON, Alan & INOUE, Yuichi (Eds.). The deep ecology movement: an introductory anthology. Berkeley: North Atlantic Books. 1995.

INGOLD, Tim. When ant meets spider: social theory for arthropods, in: INGOLD, Tim. Being alive : essays on movement, knowledge and description. London and New York: Routledge. 2011.

LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. Trad. Ivone C. Benedetti. São Paulo: UNESP, 2000.

–––––. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.

–––––. Reagregando o Social: uma introdução à teoria do Ator-Rede. Trad. Gilson César Cardoso de Souza. Salvador/Bauru: Edufba/Edusc, 2012.

–––––. Waiting for Gaia: composing the common world through arts and politics.  A Lecture at the French Institute, London, for the launching of SPEAP (the Sciences Po program in arts & politics). London, November, 2011.

–––––. Will non-humans be saved? An argument in ecotheology. The Henry Myers Lecture, 2008. Royal Anthropological Institute. Journal of the Royal Anthropological Institute, 15: 459-475. 2009.

NAESS, Arne. Ecology, community and lifestyle: outline of an ecosophy. Trad. David Rothenberg. Cambridge:  CUP,1989.

SILVA e SA, Guilherme José. Abraços de mono: elos perdidos e encontros intersubjetivos em etnografia com primatólogos no Brasil. Mana [online], 16 (1): 179-211, 2010.

SYLVAN, Richard & BENNETT, David. The greening of ethics: from human chauvinism to deep-green theory. Cambridge: White Horse Press, 1994.

VIVEIROS DE CASTRO, E. Perspectivismo e multinaturalismo na América indígena, Pp. 345-399, in: A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac & Naify. 2002.

 

 

Replicação de experimentos históricos de Robert Hooke (1635-1703) visando o ensino-aprendizagem da Teoria Celular: um estágio por pesquisa em escola pública de ensino fundamental em São Paulo-SP

 

Carolina Perozzi Guedes de Azevedo*

carolina.perozzi.azevedo@usp.br

 

Caio Guerrato Coelho da Silva*

gueratto_coelho@hotmail.com

 

Cristina dos Santos Silva*

cristina.santos.silva@usp.br

 

Giovanna Vasconcelos Maia*

gihmaia.biousp@gmail.com

 

João Cervelleira de Mello*

joao.cervelleira.mello@usp.br

 

*Graduandos de Ciências Biológicas do IB-USP e

bolsistas de Iniciação à Docência PIBID-IB-USP

 

Marcel Valentino Bozzo

Professor Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e

bolsista PIBID-IB-USP

marcelbozzo@hotmail.com

 

Thiago del Corso

Monitor do Laboratório de Licenciatura de Ciências Biológicas do IB-USP, mestrando em Ensino de Ciências, PPG Interunidades da USP

thiagodelcorso@usp.br

 

Maria Elice Brzezinski Prestes

Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do IB-USP e bolsista PIBID-IB-USP

eprestes@ib.usp.br

 

Resumo: O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) objetiva elevar a qualidade da formação inicial de professores e promover a integração entre educação superior e educação básica. Inserido nesse Programa, este trabalho relata resultados parciais de um projeto de estágio como pesquisa mediante inovação no planejamento e aplicação de sequências didáticas (Méheut, 2005). A proposta de trabalho foi baseada na replicação de experimentos históricos no ensino de Ciências (Chang, 2011) e o episódio histórico selecionado foram as observações microscópicas da cortiça por Robert Hooke (1635-1703). A replicação é contextualizada em uma sequência didática (Méheut, 2005) elaborada com o objetivo de levar os alunos a iniciarem suas observações a partir das questões de investigação (sobre as propriedades físicas da cortiça) do próprio Hooke e traçarem relações com o desenvolvimento da teoria celular e do conceito atual de célula. Outro objetivo foi o de mostrar aos alunos que os conceitos não se desenvolvem imediatamente após as descobertas, promovendo uma melhor compreensão da Natureza da Ciência. A sequência será aplicada nos meses de abril e maio de 2013 a alunos de 7ª série da “EMEF Presidente Campos Salles”, São Paulo. Os dados serão coletados mediante triangulação e analisados segundo metodologia de pesquisa em ensino de ciências, possibilitando apresentação de resultados parciais da pesquisa.

 

O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID – é uma iniciativa da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) para aperfeiçoamento e valorização da formação de professores para a educação básica. O Programa estabelece parceria entre a Universidade e escolas-campo de estágio, mediante oferecimento de subsídios para o desenvolvimento de projetos que envolvem licenciandos, professores supervisores da escola pública e docente da Licenciatura.

O presente trabalho, ainda em desenvolvimento, constitui o Subprojeto PIBID-IB-USP intitulado “Sequências didáticas voltadas à replicação de experimentos históricos, modelos e simulações em intervenções de estágio de formação de professores de ciências e biologia”, coordenado por Maria Elice Brzezinski Prestes e composto por dez licenciandos do IB-USP e dois professores supervisores de escolas públicas do município de São Paulo. A proposta de trabalho é a de promover intervenções de estágio como pesquisa, modelo esse que se consolida na superação da separação entre teoria e prática, com base nas contribuições recentes “da epistemologia da prática que diferencia o conceito de ação (que diz dos sujeitos) do conceito de prática (que diz das instituições)” (Pimenta & Lima, 2011, p. 44).

A replicação de experimentos históricos é uma modalidade de aplicação da História da Ciência no ensino de ciências que favorece a apropriação pelos estudantes dos conceitos abordados na disciplina de Ciências ao mesmo tempo em que possibilita abordagens explícitas sobre o modo como o conhecimento científico é produzido, incrementando as concepções sobre a Natureza da Ciência. A reprodução de experimentos históricos em sala de aula dá a oportunidade de os alunos reviverem os passos da ciência na prática (Allchin, 2004) e analisarem o fazer científico historicamente contextualizado. Nesta pesquisa, levou-se em conta a tipificação da replicação de experimentos históricos proposta por Hasok Chang em quatro categorias, das quais foram adotadas as duas que mais se coadunam com o âmbito da educação em ciências, a saber, a “replicação física de experimentos históricos” e “replicação por extensão”. Nos dois casos ocorre a reprodução do fenômeno estudado, sem se prender no detalhe histórico, de modo a permitir, por exemplo, a utilização de materiais atuais em substituição aos que foram efetivamente utilizados no passado. Além disso, permite-se a variação e ampliação das observações e experimentos para responder a novos problemas que emergem da pesquisa original (Chang, 2011). O princípio da replicação de experimentos históricos sugere que as indagações do pesquisador do passado sejam retomadas pelos alunos que irão executar a replicação, reproduzindo o mais possível o contexto da época – dessa forma pretende-se que as observações realizadas conduzam a conclusões semelhantes às obtidas pelo pesquisador do passado.

O público alvo deste trabalho são alunos do oitavo ano do Ensino Fundamental II (sétima série) de uma escola municipal da cidade de São Paulo – EMEF Presidente Campos Salles. Os temas selecionados para a intervenção didática foram a célula e a construção da teoria celular. A abordagem escolhida foi a da replicação das observações de cortiça de Robert Hooke (1635-1703). A execução do trabalho com os alunos se deu a partir da elaboração de uma sequência didática (Méheut, 2005) norteada pelas questões levantadas por Hooke a respeito da cortiça: “Por que ela é tão leve?”, “Por que ela flutua?” e “Por que ela é elástica?”.

A sequência didática proposta contém sete aulas arranjadas em 4 blocos que correspondem aos 4 momentos principais de atividades de ensino-aprendizagem propostos nas Orientações Curriculares e proposição de expectativas de aprendizagem para o Ensino Fundamental, Ciclo II, Ciências Naturais, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (São Paulo, 2007, p. 76).

O primeiro bloco, correspondente ao “Momento de Sensibilização e levantamento inicial”, é uma prática a respeito da flutuabilidade de diversos objetos: cilindro de madeira, cilindro de metal, bola de gude, bola de ping-pong e a referida cortiça. Na execução, os alunos levantam hipóteses prévias a respeito dessa capacidade dos materiais – flutuam ou não e por que – e, posteriormente, testam essas hipóteses inserindo cada um dos materiais em um recipiente com água. São também calculadas massa, volume e densidade, com discussão final sobre esses conceitos.

No segundo bloco, correspondente ao “Momento de Problematização”, é feita a observação microscópica da cortiça, procurando responder às questões da investigação realizada por Hooke. Além disso, os alunos são incitados a aprender a utilizar o instrumento e a prepararem lâminas para a observação, bem como a registrarem, em forma de desenho, o que vêem.

No terceiro bloco, correspondente ao “Momento de Organização do conhecimento e desenvolvimento”, é feita uma contextualização do episódio histórico em questão, mediante leitura e discussão de fontes primárias e secundárias preparadas como material instrucional para esses alunos. São trabalhados a tradução do trecho da obra Micrographia em que Robert Hooke relata as suas observações e textos curtos de história da biologia. Nesse bloco o objetivo da intervenção é o de mostrar que, apesar do uso do termo “célula” pelo autor, a concepção atual de célula que é abordada nas escolas decorre de um longo processo de investigações de plantas e animais e que envolveu diversos pesquisadores até o século XIX.

No quarto bloco, correspondente ao “Momento de Síntese e Finalização”, solicita-se aos alunos que redijam um texto no qual descrevem as indagações iniciais, as etapas das observações realizadas, as anotações das mesmas e as conclusões obtidas. A ideia para esse texto é haja o processo de síntese pelos alunos de todo o processo realizado e os registros oriundos dele, além da documentação da experiência vivenciada.

Por meio de intervenção didática mediante utilização de recursos históricos espera-se alcançar uma melhor compreensão do conceito de célula e da construção da teoria celular, bem como dos processos envolvidos na atividade científica. O aprendizado desses conceitos torna-se mais pessoal, contextualizado e significativo – preceitos muito relevantes quando se analisam as habilidades que se espera desenvolver em alunos da educação básica. Além disso, o aprendizado torna-se mais natural e mais divertido para os alunos. Observa-se que a motivação e o interesse dos alunos aumentam, contribuindo para despertar a curiosidade sobre as ciências.

A sequência didática será aplicada nos meses de abril e maio de 2013, e os dados serão registrados mediante triangulação sugerida por metodologia de pesquisa em ensino de ciências (aulas gravadas, anotações de observações realizadas pelos licenciandos-pesquisadores, produtos elaborados pelos alunos). Desse modo, no Encontro de História e Filosofia da Biologia 2013 será possível apresentar uma discussão parcial dos dados obtidos.

 

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio do Programa Institucional de Bolsa à de Iniciação à Docência – PIBID, da CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil.

 

Referências bibliográficas:

ALLCHIN, Douglas. Appreciating classic experiments. Carolyn Schofield (ed.), 2004-2005 Professional Development for AP Biology. New York: College Entrance Examination Board, 2004.

ARAUJO, João Paulo F. T.; SILVA, Caio G. C.; PRESTES, Maria Elice B. Micrografia, de Robert Hooke. São Paulo, no prelo.

CHANG, H. How historical experiments can improve scientific knowledge and Science Education: the cases of boiling water and electrochemistry. Science & Education, 20: 317-341, 2011.

MÉHEUT, Martine. Teaching-Learning Sequence tools for learning and/or research. Pp. 195-207, in: BOERSMA, Kerst; GOEDHART, Martin; JONG, Onno de; EIJKELHOF, Harrie (eds.). Research and the quality of science education. Dordrecht: Springer, 2005.

PIMENTA, Selma Garrido; LIMA, Maria Socorro Lucena. Estágio e Docência. 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2011.

SÃO PAULO. Secretaria Municipal de Educação. Diretoria de Orientação Técnica. Orientações curriculares e proposição de expectativa de aprendizagem para o Ensino Fundamental, ciclo II, Ciências Naturais. São Paulo: SME/DOT, 2007.

 

Stanley Lloyd Miller e a origem da vida, um episódio histórico para discutir aspectos sobre a natureza da ciência

 

Caroline Avelino de Oliveira

Mestranda da pós graduação em Educação para a Ciência

Universidade Estadual Paulista, Bauru

caroline_avelino@hotmail.com

 

João José Caluzi

Doutor em Física, Professor Livre Docente

Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista, Bauru

caluzi@fc.unesp.br

 

Resumo: A ciência é considerada no senso comum como um conhecimento verdadeiro e cientificamente comprovado. Para um entendimento mais real sobre a Ciência estão sendo feitas diversas propostas como, por exemplo, a utilização de episódios históricos no ensino e aprendizagem de ciências. Um obstáculo é a sua utilização ou a utilização de forma inadequada. O presente trabalho tem como objetivo discutir um episódio histórico que auxilie o ensino de ciências, que possa ser utilizado na formação de professores, com os alunos em sala de aula, e assim tornando possível discutir sobre aspectos da natureza da ciência procurando também desmistificar alguns mitos sobre a mesma. O episódio escolhido discute alguns aspectos da origem da vida. Mais especificamente, o trabalho do químico americano Stanley Lloyd Miller (1930-2007). A escolha se justifica, pois a pesquisa realizada por ele é apresentada em vários livros didáticos. Além disto, o objeto de estudo da Biologia são os seres vivos, sendo assim, é fundamental a compreensão de como os mesmos se originaram. Pode-se discutir nesse episodio mitos como, a ciência ser uma busca solitária e de que as idéias surgem espontaneamente na cabeça dos cientistas; podemos discutir, por exemplo, que existe um trabalho em equipe entre Miller e seu orientador Harold Clayton Urey (1893-1981), e pela complexidade do experimento, percebemos que Miller jamais teria conseguido fazer algo tão elaborado sem ter o mínimo conhecimento em química/bioquímica, ou seja, não surgiu espontaneamente.

 

A ciência é considerada no senso comum como um conhecimento verdadeiro e cientificamente comprovado (Caldeira & Caluzi, 2005, p.13). Para um entendimento mais real sobre o desenvolvimento da Ciência estão sendo desenvolvidos diversos estudos para alunos e professores, com o objetivo de discutir a Natureza da Ciência (Breno, 2008). William McComas (1998) apresenta alguns “mitos” sobre a Natureza da Ciência que estão nos livros didáticos, na sala de aula, entre eles podemos destacar três crenças:

(1)    De que existe um método geral e universal com os seguintes passos

a)       definir o problema,

b)       coleta de informações de fundo,

c)      a formação de uma hipótese,

d)      fazer observações,

e)      testar a hipótese e

f)       tirar conclusões,

(2)    A ciência e seus métodos podem fornecer a prova absoluta, quando na verdade ela é sujeita a revisão e mudanças;

(3)    As idéias surgem espontaneamente na cabeça do cientista, alguns estudos apontam que isso não é real, pois muitos cientistas trabalham em equipes, e estão assim inseridos em uma comunidade científica.

(4)    A ciência como uma busca solitária.

 

Tais crenças assim como outras citadas no trabalho (McComas, 1998) poderiam ser mais bem compreendidas pelo estudo da Natureza da Ciência, este pode ser feito por meio de debates de episódios históricos quase tem tornado alvo de discussões no ensino e aprendizagem de ciências (Martins, 2007). Um obstáculo é a falta de episódios consistentes para a utilizaçãoem sala de aula e na formação inicial de professores (Boss, 2011).

O presente trabalho tem como objetivo discutir um episódio histórico que auxilie o ensino de ciências, que possa ser utilizado na formação de professores, com os alunos em sala de aula, e assim tornando possível discutir sobre aspectos da natureza da ciência procurando também desmistificar alguns mitos mencionados.

O episódio escolhido discute alguns aspectos da origem da vida. Mais especificamente, o trabalho do químico americano Stanley Lloyd Miller (1930-2007). A escolha se justifica, pois a pesquisa realizada por ele é apresentada em vários livros didáticos, e.g., (Sasson, 2002); (Uzunian, Pinseta, Sasson, 2002) e (Lopes, Rosso,2008). Além disto, o objeto de estudo da Biologia são os seres vivos, sendo assim, é fundamental a compreensão de como os mesmos se originaram.

Stanley Miller em seu experimento (Miller, 1953) supôs que a atmosfera primitiva era composta de carbono, oxigênio, nitrogênio e hidrogênio, nas formas de água (H2O), metano (CH4), amônia (NH4) ou nitrogênio (N2) e hidrogênio (H2). Na hipótese utilizada por ele houve uma fuga do hidrogênio e a atmosfera passaria de redutora a oxidante. A base de seu trabalho foram as pesquisas de seu orientador de doutorado, o físico-químico americano Harold Clayton Urey (1893-1981). As hipóteses Urey estão sintetizadas no artigo On the early chemical history of the earth and the origin of life, (Urey, 1952), o mesmo também utilizou os estudos do bioquímico russo Alexander Ivanovich Oparin (1894-1980) publicado em 1952 no livro A origem da vida.

Para testar sua hipótese, Miller (Miller, 1953) utilizou três propostas de aparelhos. Em geral, os livros didáticos apresentam somente um design da aparelhagem. As substancias foram colocadas nos aparatos e como resultado do procedimentofoi produzido uma substância de cor marrom. Ela foi analisada por diferentes técnicas químicas, por exemplo, análises cromatográficas. Na análise foi constatada a presença de compostos orgânicos, como aminoácidos, ou seja, esses compostos poderiam gerar aminoácidos que são fundamentais na constituição dos seres vivos.

McComas destaca como mito a ciência ser uma busca solitária e de que as idéias surgem espontaneamente na cabeça dos cientistas; podemos discutir que existe um trabalho em equipe entre Miller e seu orientador, pois Miller utiliza alguns dos resultados de Urey para o seu trabalho, e o ultimo recebeu influencia de Oparin, ou seja, é nítido que a idéia de que o experimento e seus pressupostos não surgem espontaneamente na cabeça de Miller, que existe um trabalho em conjunto, e pela complexidade do experimento, percebemos que Miller jamais teria conseguido fazer algo tão elaborado sem ter o mínimo conhecimento em química/bioquímica, não seria possível o experimento surgir sem nenhuma base pelo motivo da complexidade.

Tais aspectos poderiam ser trabalhados para se discutir a Natureza da Ciência e desmistificar tais mitos, tornando a compreensão da ciência mais efetiva, para que a população se torne mais esclarecida de como é a ciência, tal episodio pode ser utilizado na formação inicial e continuada de professores, com os alunos da educação básica com o objetivo de melhorar a visão cientifica dos mesmos.

 

Referências Bibliográficas:

MEGLHIORATTI, Fernanda Aparecida; BORTOLOZZI, Jehud; CALDEIRA, Ana Maria de Andrade. História da Biologia:aproximações entre as possíveis categorias históricas e as concepções sobre ciência e evolução apresentadas pelos professores de biologia. Pp. 11-28, in: CALUZI, João José; CALDEIRA, Ana Maria de Andrade. Filosofia e história da ciência: contribuições para o ensino de ciências. Ribeirão Preto: Kayrós, 2005.

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MARTINS, A. Ferrer. História e filosofia da ciência no ensino: há muitas pedras nesse caminho. Caderno Brasileiro de  Ensino de  Física, 24 (1): 112-131, abr. 2007.

McCOMAS, William.The principal elements of the nature of science: dispelling the myths. Pp 53-70, in: McCOMAS, William. The nature of science in science education. Amsterdam: Kluwer, 2002.

BOSS, S. L. Bragatto. Tradução comentada de artigos de Stephen Gray (1666-1736). Reprodução de experimentos históricos com materiais acessíveis – subsídios para o ensino de eletricidade. Tese (Doutorado em Educação para as Ciências) – Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista, Bauru, 2011.

SASSON, Sezar. Biologia. São Paulo: Anglo, 2002.

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UREY, Harold Clayton. On the early chemical history of the earth and the origin of life. Proceedings of the National Academy of Sciences USA, 38 (4): 351- 363, Apr, 1952.

 

 

O princípio da divergência na argumentação darwiniana

 

Claudio Ricardo Martins dos Reis

Graduando em Ciências Biológicas na UFRGS

claudiormreis@gmail.com

 

Resumo: O objetivo deste estudo é reconstruir a argumentação de Charles Darwin sobre o princípio da divergência de caracteres. Seu argumento é estruturado de forma clara e precisa em premissas e conclusão, de modo a relevar o valor verdade de suas proposições; além disso, é dado destaque às suas estratégias argumentativas. A tese que Darwin sustenta é aquela segundo a qual variedades e espécies de um mesmo ambiente tendem a se tornar cada vez mais distintas, ao que ele denomina princípio da divergência. As estratégias de Darwin são apresentadas por meio de exemplos e analogias – uma em relação aos efeitos da seleção artificial e outra a respeito dos benefícios da diversidade de estruturas nos sistemas fisiológicos. É ressaltada, também, a possibilidade de que Darwin tenha percebido a atuação da seleção natural sob o nível de comunidades, na medida em que seu argumento requer a premissa segundo a qual a competição entre espécies diminui a aptidão dos organismos. Além disso, é apresentado que, para Darwin, o princípio da divergência é resultado do princípio de seleção natural.

 

O objetivo deste estudo é reconstruir a argumentação de Charles Darwin sobre o princípio da divergência, baseado na seção intitulada Divergência de Caracteres, pertencente ao capítulo IV de sua obra principal, A Origem das Espécies. Seu argumento será estruturado de forma clara e precisa em premissas e conclusão, de modo a relevar o valor verdade de suas proposições; além disso, serão enfatizados o uso da linguagem por Darwin e suas estratégias argumentativas.

Darwin se propõe a responder a seguinte pergunta:

Como [...] a diferença pequena que existe entre as variedades aumenta até converter-se na diferença maior que há entre as espécies? (Darwin, 1872, p. 86)

Aqui, a seleção artificial será uma analogia importantíssima. Ele a exemplifica através das diferenças entre os cavalos de corrida e os de tração, as distinções entre as raças de pombos e as diferenças entre as raças do gado bovino. Em todos os casos, o produtor teria continuamente selecionado aqueles animais com as diferenças mais marcantes e obtido cria a partir deles ao longo de várias gerações. Além disso, aquelas variedades com características intermediárias, que não foram selecionadas artificialmente, seriam extintas. Isto faria com que as variedades fossem se diferenciando cada vez mais entre si e do tronco comum. Existiria nas produções domésticas, portanto, um princípio de divergência gerado pela seleção artificial.

Mas, nas palavras de Darwin, “como se pode aplicar à natureza um princípio análogo?” (Darwin, 1872, p. 87). Para responder a essa questão, ele se baseia principalmente na suposição que espécies mais próximas, ou indivíduos da mesma espécie, estão sujeitos a uma grande competição devido a seus hábitos e constituição similares, o que indicaria necessidades semelhantes.

Darwin exemplifica esta questão com o caso hipotético de um quadrúpede carnívoro. Supondo que esta espécie possui há bastante tempo um número de indivíduos médio para manter-se em seu ambiente, ela só poderá aumentar significativamente em número se deslocar seu nicho de alguma forma. Segundo Darwin, as variedades pertencentes a essa espécie poderiam se beneficiar pela diminuição da competição, se, por exemplo, passassem a se alimentar de outras presas, habitassem novos lugares ou se tornassem menos carnívoras. As variedades mais bem adaptadas a essas mudanças de nicho seriam mantidas, e o princípio de divergência continuaria a atuar, especializando cada variedade em seu novo ambiente. Assim, para Darwin, as variedades se diferenciarão e ocuparão novos e diferentes postos na “economia da natureza”, até alcançarem um nível de variação bem marcado que faça com que as chamemos de espécies.

Darwin utiliza este exemplo para fortalecer sua argumentação de que a diversidade proporciona menor competição. Na verdade, ele dá a entender que a biodiversidade de um ambiente seria o resultado da constante “tentativa” das espécies ou variedades em diminuir os efeitos das interações competitivas.

Além disso, Darwin apresenta mais uma analogia. Ele compara a necessidade de sistemas ecológicos e sistemas fisiológicos possuírem tipos variados, ao afirmar que:

[A] vantagem da diversidade de estruturas nos habitantes de uma mesma região é, no fundo, a mesma que a da divisão fisiológica do trabalho nos órgãos de um corpo individual [...]. Nenhum fisiologista duvida de que um estômago adaptado a digerir só materiais vegetais, ou só carne, retira mais alimento destas substâncias. De igual modo, na economia geral de um ambiente, quanto mais extensa e perfeitamente diversificados estejam os animais e plantas para diferentes hábitos, tanto maior será o número de indivíduos que possam manter-se. (Darwin, 1872, p. 89-90)

Nota-se, portanto, que Darwin se utiliza de estratégias argumentativas, como exemplos hipotéticos e analogias – uma em relação aos efeitos da seleção artificial e outra a respeito dos benefícios da diversidade de estruturas nos sistemas fisiológicos – para apresentar sua argumentação sobre a divergência de caracteres. Estruturando-o de maneira sintética, seu argumento pode ser expresso da seguinte forma:

(P1) existe variação entre os indivíduos de qualquer espécie (princípio de variação);

{P2} parte desta variação pode ser herdada (princípio da hereditariedade);

(P3) existe competição entre os indivíduos que habitam um mesmo ambiente (princípio da luta pela existência);

{P4} a competição diminui a aptidão dos organismos (princípio da variação na aptidão);

(P5) a competição é menor entre indivíduos com maiores diferenças nas estruturas ou hábitos;

(C) as variedades e espécies de um mesmo ambiente se tornarão cada vez mais distintas (princípio da divergência de caracteres).

Embora não explicitadas por Darwin, foram incluídas duas premissas, {P2} e {P4}, necessárias para sua conclusão.

Esta argumentação para se inferir o princípio da divergência de caracteres (PDC) é muito semelhante àquela para se inferir o princípio de seleção natural (PSN) (os mesmos quatro princípios são utilizados como premissas). No entanto, seus argumentos trazem algumas diferenças quanto a estes dois princípios. Na comparação entre o princípio da divergência e o princípio de seleção natural, para inferir PDC ele inclui mais uma premissa, (P5), segundo a qual a competição é menor entre indivíduos com maiores diferenças nas estruturas ou hábitos. Além disso, nota-se que o princípio de variação na aptidão não se limita a variações do indivíduo, de modo que pode ser aplicado a variações na interação, como fica claro com {P4}, segundo a qual a competição diminui a aptidão dos organismos. Se indivíduos adaptados a ambientes distintos que possuem função ecológica semelhante passam a compartilhar um mesmo ambiente, é esperado que haja um forte efeito deletério da competição entre eles. Isto é, apesar de possuírem variações individuais favoráveis no seu ambiente, uma alteração nas interações, sem qualquer modificação na estrutura dos indivíduos, pode produzir uma queda na sua aptidão. Neste caso, a seleção natural atuaria de modo a diminuir o efeito da interação competitiva, porque beneficiaria os organismos em questão.

Desta forma, nota-se que o princípio da divergência de caracteres foi analisado por Darwin num nível acima do princípio de seleção natural. Para o primeiro caso (PDC), Darwin enfatiza a interação num sistema ecológico, enquanto para o segundo (PSN) destaca as características individuais ou populacionais. De qualquer forma, para Darwin, a divergência cumulativa e “direcional” de caracteres só ocorre mediante ação da seleção natural. Isto é, para avançarmos de uma explanação fenomenológica para uma explanação mecanísmica é necessário que tratemos o princípio da divergência junto ao princípio de seleção natural, porque PSN => PDC. Além disso, isto nos permite notar como a seleção natural poderia agir em diferentes níveis. Darwin parece estar de acordo com esta posição, devido a seu argumento da divergência de caracteres em nível de comunidades, na medida em que vincula esse princípio a questões de diversidade e interações, temas típicos da ecologia de comunidades. A premissa de que a competição diminui a aptidão dos organismos mostra como a seleção natural pode atuar sobre interações; além disso, a abordagem de Darwin para a relação entre diversidade biológica e interações competitivas elucida como a estrutura de uma comunidade é resultado de interações que afetam a aptidão dos organismos. Não se trata de uma visão holística, tampouco reducionista, mas de uma abordagem sistêmica.

 

Referências Bibliográficas:

DARWIN, Charles Robert. The origin of species by means of natural selection or the preservation of favoured races in the struggle for life. 6ª ed. London: John Murray, 1872.

 

 

Concepções de Futuros Professores de Ciências/Biologia e Pedagogia sobre Criacionismo e Evolução

 

Daiana Evilin Gibram

Graduanda em Ciências Biológicas, Centro Universitário de Formiga, MG, Pesquisadora bolsista FAPEMIG

daianagibram@yahoo.com.br

 

Heslley Machado Silva

Doutorando pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Vinculado ao Centro Universitário de Formiga-MG e Universidade de Itaúna, MG, Pesquisador FAPEMIG

heslley@uniformg.edu.br

 

Elaine S. Nicolini Nabuco de Araujo

Doutora em Biologia, vinculada à Faculdade de Tecnologia, FATEC/Jahu,

enabuco@netsite.com.br

 

Paloma Rodrigues da Silva

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, Unesp/Bauru

paloma.bio@hotmail.com

 

Resumo: Este estudo teve como objetivo analisar e comparar o posicionamento dos alunos de Biologia e de Pedagogia diante do tema Criacionismo e Evolução. Considerou-se importante conhecer tais concepções, pois o pedagogo (professor generalista) poderá ser responsável pelos primeiros saberes sobre Evolução Biológica, cujo aprofundamento caberá ao professor de Ciências/Biologia. Utilizou-se o questionário elaborado no âmbito do projeto europeu de investigação BIOHEAD-CITIZEN como coleta de dados. Sobre a origem da vida, as assertivas: Com certeza a origem da vida resultou de um fenômeno natural e A origem da vida pode ser explicada através de um fenômeno natural, e não preciso da hipótese de que a vida foi criada por Deus, consideradas mais evolucionistas, foram assinaladas por 8,2% (4,1% para cada) dos alunos de Pedagogia e 21% ( 12% e 9%) dos alunos de Biologia. Já as opções: Com certeza a vida foi criada por Deus e A origem da vida pode ser explicada por um fenômeno natural, mas outra hipótese possível é a criação da vida por Deus, entendidas como mais criacionistas, corresponderam a 91,8% (44,9% e 46,9%) das respostas dos alunos da Pedagogia e 79% (20% e 59%) das respostas dos alunos da Biologia. Em ambos os grupos, mas notadamente entre os alunos do curso de Pedagogia, as convicções religiosas influenciaram fortemente nas respostas dadas.

 

A influência da religião nas aulas de Ensino de Evolução é fato gerador de vários estudos a respeito de seu impacto na formação científica dos alunos. As dificuldades de aceitação e os debates gerados pelo tema são diversos. A influência cultural e familiar que os alunos são submetidos pode se tornar um obstáculo no ensino/aprendizagem em sala de aula, e como se não fosse suficiente, na maioria das vezes, o professor tem de lidar com seus próprios conflitos. “Sendo assim, os alunos que se negam a aceitar as teorias científicas em nome da religião e das leituras bíblicas reforçam a ideia do relato do Gênesis” (Souza, 2008, p.10), que propõe a criação dos seres vivos, da Terra e de todo universo, por um ser divino (Deus) num período de mais ou menos 10 mil anos atrás.

O presente estudo assenta-se no âmbito do projeto europeu “Biology, Health and Environmental Education for better Citizenship” (BIOHEAD-CITIZEN; CIT2-CT2004-506015), que pretende explorar a multiculturalidade relacionada com o ensino de temas importantes e controversos ligados a Biologia, em destaque a Origem do Homem e da Humanidade. Segundo Carvalho e Clément (2007) o projeto BIOHEAD-CITIZEN tem por objetivo analisar as diferenças existentes entre diversos países, tendo-se por isso selecionado países europeus com diferenças geográficas, históricas, políticas e socioculturais, bem como países exteriores à Europa. O conjunto desses países é formado por 13 Europeus: Portugal, França, Reino Unido, Itália, Malta, Alemanha, Polónia, Hungria, Roménia, Lituânia, Estónia, Finlândia e Chipre, 5 Africanos: Senegal, Marrocos, Argélia, Tunísia e Moçambique e um do Oriente Próximo: Líbano. Para tanto, foi construído um questionário estruturado contendo 144 questões que foi respondido, nos anos de 2006 e 2007, por professores de Biologia, Língua Nacional e do Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano) em exercício e em formação, isto é, professores e estudantes dos cursos de Biologia, Letras e Pedagogia, de 19 países.

O estudo realizado em Formiga, Minas Gerais, teve como objetivo analisar o posicionamento dos alunos de Biologia e Pedagogia diante do tema Criacionismo e Evolução, e analisar as possíveis semelhanças e diferenças de concepções a cerca deste tema. Os dados foram coletados no Centro Universitário de Formiga-MG, no ano de 2012, tendo como base um questionário, traduzido para o português, elaborado no âmbito do projeto europeu de investigação BIOHEAD-CITIZEN. Seguindo orientações do projeto BIOHEAD-CITIZEN, um total de 50 estudantes de Biologia e 50 estudantes de Pedagogia responderam ao questionário.

Os resultados obtidos mostraram que os dois cursos possuem grande percentual de alunos criacionistas, sendo este número notadamente mais elevado entre os estudantes de Pedagogia. É notória também, a aceitação, por parte dos respondentes, tanto à teoria da evolução quanto ao criacionismo, visto que, em ambos os cursos, o percentual de alunos que consideram ambas as concepções é elevado. Apesar de parecer que estes alunos aceitam a Teoria da Evolução Biológica, os mesmos não descartam a existência de um criador responsável por ela. Podemos perceber isso quando os alunos foram colocados diante de opções como: A64. Com qual das quatro afirmações seguintes concorda mais? (Assinale apenas UMA resposta) 1)Com certeza que a origem da vida resultou de um fenômeno natural; 2)A origem da vida pode ser explicada através de um fenômeno natural, e não preciso da hipótese de que a vida foi criada por Deus; 3)A origem da vida pode ser explicada por um fenômeno natural, mas outra hipótese possível é a criação da vida por Deus; e 4)Com certeza que a vida foi criada por Deus, e a opção que prevaleceu foi a que considera a criação da vida por ambas as teorias (Pedagogia 46,9%; Biologia 59%). Acreditamos que estes alunos possam ser adeptos do Design Inteligente. Sugerido pelo Bioquímico norte-americano, Michael J. Behe, em 1996 com o lançamento de A caixa preta de Darwin, a teoria do Design Inteligente defende que a teoria Darwiniana é insuficiente para explicar a complexidade biológica e que a vida não alcançaria o estágio atual sem um direcionamento planejado.

E novamente o índice de criacionistas se acentua, quando as análises das questões mostraram que em ambos os cursos foi baixo o percentual daqueles que consideraram apenas a Evolução Biológica, se comparada com o número de alunos que aceitam ambas as concepções.

Estes cursos foram escolhidos devido à influência que estes futuros professores poderão exercer sobre os seus alunos, e por constarem no protocolo do projeto que originou o questionário BIOHEAD-CITIZEN. No entanto, não podemos afirmar que estes futuros professores irão influenciar na construção dos conhecimentos de Evolução de seus alunos, pois, apesar de suas concepções estarem voltadas para o Criacionismo não significa que suas crenças irão intervir no assunto ministrado em sala de aula. Porém,

[...] trabalhar uma concepção evolutiva em sala de aula ancorando-se em noções contrárias ao conhecimento científico, de forma intencional ou não, não é desejável, uma vez que os professores de biologia são os interlocutores entre o conhecimento biológico produzido e os alunos, e é no interior do processo de argumentação e construção do pensamento biológico que essas compreensões inconsistentes se revelam e contribuem para distorções conceituais nos alunos. (Silva, Andrade e Caldeira, 2010)

 

Referências Bibliográficas:

ARAÚJO, Elaine S. N. N.; CALDEIRA, Ana Maria de Andrade; CALUZI, João José;  CARVALHO, Graça Simões. Concepções criacionistas e evolucionistas de professores em formação e em exercício. VII ENPEC Encontro Nacional de Pesquisa em Ciências. Florianópolis, 8 de novembro de 2009.

BEHE, M. A caixa-preta de Darwin. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

CARVALHO, G.S.; CLÉMENT, P. Projecto “Educação em biologia, educação para a saúde e educação ambiental para uma melhor cidadania”: análise de manuais escolares e concepções de professores de 19 países (europeus, africanos e do próximo oriente). Biology, Health and Environmental education for better citizenship project: analyses of text books and teachers conceptions from 19 countries, 7 (2), 2007.

CLÉMENT, P.; QUESSADA, M. P.; LAURENT, C.; CARVALHO, G. S. Science and religion: evolutionism and creationism in education. A survey of teachers conceptions in 14 countries. Proceedings of t XIII IOSTE Symposium – The use of science and technology education for peace and soustainable development. Ankara: Palme Publications & Book shops. 2008: p.1148-1155. Disponível em: http://hdl.handle.net/1822/8934. Acesso em: 30 de abril de 2013.

SOUZA, C. M. de A. A presença do evolucionismo e do criacionismo em disciplinas do ensino médio (Geografia, História e Biologia): um mapeamento de conteúdos na sala de aula sob a ótica dos professores. Campinas, 2008. Dissertação (Mestrado em Ensino e História das Ciências da Terra) – Instituto de Geociência, Universidade Estadual de Campinas.

SILVA, P. R. da; ANDRADE, M. A. B. S. de; CALDEIRA A. M. de A. Concepções de professores de biologia a respeito da diversidade dos seres vivos: uma análise, considerando o desenvolvimento histórico das ideias evolucionistas. Scielo Books: 147-167, 2010.

 

 

Carl Von Martius: contribuições históricas para a pesquisa etnobotânica

 

Daiane Martins Freitas

Mestre em Biologia Vegetal, Universidade Federal de Santa Catarina

Professor, Secretaria de Educação do Estado de Santa Catarina

 martinsf.daiane@gmail.com

 

Resumo: As informações sobre as espécies vegetais e suas utilidades, para as civilizações humanas, podem ser obtidas em várias fontes históricas como bibliografias antigas, exsicatas, fotografias, cartas, artefatos e também em diários de viagens escritos por naturalistas europeus, documentos ricos em descrições sobre o uso de espécies vegetais. Os documentos históricos podem ser utilizados como fonte de pesquisa em etnobotânica, pois através deles o ser humano foi listando as plantas úteis e descrevendo seus valores terapêuticos, comerciais, artesanais, etc. Este artigo tem como objetivo investigar quais informações podem ser extraídas a partir de uma análise de material bibliográfico histórico. O documento histórico selecionado para a pesquisa foi publicado no ano de 1939, intitulado “Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros”, uma tradução do livro do naturalista alemão Karl F. P. von. Martius: Das Naturell, die Krankheiten, das Arztthum und die Heilmittel Brasiliens Urbewohner, publicado em 1844.

 

Em tempos remotos, os naturalistas eram enviados para áreas ocupadas por grupos culturais tradicionais, com o objetivo de estudar e coletar plantas, animais e minerais úteis, e exportá-los para o mundo moderno. Essas viagens e estudos eram pensados, sobretudo, como forma de exploração comercial.

O naturalista alemão Carl F. P. von Martius percorreu o território brasileiro durante o século XIX, tornando-se um dos mais importantes pesquisadores alemães que estudaram o Brasil, especialmente a região Amazônica, também se destacou como médico, botânico e antropólogo. O seu maior legado reconhecido até os dias atuais foi a publicação de sua notória obra Flora Brasiliensis, produzida entre os anos de 1840 e 1906 em colaboração com os editores August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban, e que contou com a participação de 65 especialistas de vários países. O contexto da viagem do naturalista ao Brasil se deu após a invasão de Napoleão Bonaparte a Portugal, que expulsou a família real portuguesa e sua corte para o Rio de Janeiro, no início de 1808. No final de 1816, com o início das negociações para o casamento de D. Pedro I com a arquiduquesa da Áustria, D. Carolina Josefa Leopoldina, forma-se uma comitiva que a acompanhará ao Brasil. O rei da Baviera, interessado na possibilidade de participar do comércio de produtos tropicais, aproveitou a ocasião para incluir na comitiva a comissão da Academia Real de Ciências da Áustria com uma missão científica e artística ao Brasil; integravam esta missão tanto Martius, pela Academia de Ciências da Baviera, quanto Johann Baptist von Spix, pelo Museu Zoológico de Munique. A comitiva de D. Leopoldina partiu de Trieste, hoje na Itália, em 10 de abril de 1817. Martius chegou ao Brasil em 15 de julho de 1817 e realizou suas primeiras observações na cidade do Rio de Janeiro e arredores.

Ao contrário de outros países latino-americanos, o Brasil obteve sua independência sem grandes conflitos, um dos motivos foi por ter servido de exílio para a família real portuguesa, o que tornava a viagem mais segura. Isso despertou o interesse de outros países e naturalistas europeus, outro motivo foi à imensa vontade em conhecer a exuberante natureza brasileira a fim de coletar plantas úteis e exportá-las para o mundo europeu. Alem destes, as ideias do Iluminismo influenciaram na formação acadêmica dos naturalistas desta época, as novas concepções da ciência tornavam os homens cada vez mais proprietários das terras, dos objetos, do mundo. É nesta ânsia intensa pela apropriação de novos lugares que as expedições ao Novo Mundo se introduzem, promovendo um redescobrimento do mundo. Neste contexto, os trabalhos realizados foram descrições físicas detalhadas dos índios e listagens e coletas de plantas, animais, insetos, minerais, entre outras substâncias que eram utilizadas para remédios, alimentação, construções, etc. Na introdução do seu livro, Martius (1844, p. 2) explica: “Pairava no espírito da época, e interessava ao descobridor de então, descrever muita coisa referente à constituição física dos habitantes do continente descoberto, como extravagante, maravilhosa e destoando dos tipos da organização humana, conhecidos naquele tempo”.

Nos dias atuais, a etnobotânica é a área da ciência que trata de estudos voltados para o conhecimento dos grupos culturais tradicionais, abordando as inter-relações entre as sociedades e os recursos naturais, considerando o ecossistema dinâmico e conectado. Para Medeiros (2009) “Etnobotânica é a ciência que se preocupa em estudar as inter-relações passadas e presentes que se estabelecem entre as pessoas e as plantas, em sua dimensão botânica, antropológica, ecológica e histórica”. Neste sentido, os documentos históricos podem ser utilizados como fonte de pesquisa em etnobotânica, pois através deles o ser humano foi listando as plantas úteis e descrevendo seus valores terapêuticos, comerciais, artesanais, etc. Ou seja, o uso das espécies vegetais se perpetuou na história da humanidade chegando até os dias de hoje, sendo amplamente utilizadas por grande parte da população mundial. Segundo Noelli (1998), a pesquisa histórica desempenha um importante papel no desenvolvimento de estudos de etnofarmacologia, ampliando a capacidade de coleta de dados sobre as plantas empregadas como remédios, bem como os métodos curativos e os seus significados.

Tendo em vista a grande possibilidade de estudos em documentação histórica, este trabalho teve por objetivo investigar quais informações podem ser extraídas a partir de uma analise de material bibliográfico histórico. A publicação selecionada para a análise foi: “Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros”. Trata-se de uma versão em português, da obra escrita originalmente por Martius em 1844 (Das Naturell, die Krankheiten, das Arztthum und die Heilmittel Brasiliens Urbewohner), publicada pela Companhia Editora Nacional no ano de 1939, com a tradução, prefácio e notas realizadas por Dr. Pirajá da Silva. A obra é um apanhado geral sobre a vida, costumes, fisiologia, características físicas, doenças, medicina e remédios dos índios brasileiros do século XIX, o marco inicial da etnografia científica brasileira.

Foram encontradas 77 citações de vegetais utilizados pelos ameríndios da época. Os epítetos encontrados pertencem a 39 famílias e 71 gêneros, a maioria das espécies nativas, no entanto há algumas originárias de outros continentes, que foram introduzidas desde o início da colonização europeia. As famílias mais citadas foram Euphorbiaceae com 12 espécies mencionadas, seguida de Araceae (oito espécies), Myrtaceae (seis espécies), Fabaceae e Solanaceae cinco espécies cada uma das famílias. As espécies citadas por Martius foram divididas em quatro categorias de uso: Alimentícias que apresentaram 29 citações; Medicinais com 28 citações; Cultivadas cinco citações; Exóticas com cinco citações e Outras Utilidades (caça, pesca, utensílios, corantes, óleos, resinas, venenos, etc.) com 18 citações. Algumas das espécies foram citadas em mais de uma categoria de utilidade. Mesmo existindo grandes diferenças ideológicas dentro de cada período histórico e de cada sociedade, é possível fazer uma compilação das informações de séculos passados com intuito de auxiliar trabalhos recentes em etnobotânica. Muitas questões podem ser trabalhadas baseadas nos documentos históricos, como por exemplo, as espécies vegetais cultivadas. Na obra analisada o inhame (Colocasia antiquorum Schott) é utilizado como legume quando cozido, também o aipim (Manihot aypi Pohl) utilizado na alimentação e o milho (Zea mays L.) utilizado na alimentação e fabricação da Chichia bebida fermentada muito apreciada entre os índios, entre outras. Estes dados revelam a importância que cada espécie apresentava para a tribo, conforme Martius algumas espécies eram vistas como “Míticas”, ou seja, possuíam um maior valor para a cultura indígena.

A análise demonstrou que os povos ameríndios, de épocas remotas, domesticavam e cultivavam as espécies de interesse, através de suas roças. Ou seja, ao longo da história o homem tem interagido com seu ambiente, gerando e aumentando a variabilidade genética das espécies; não apenas pelo manejo da área, mas também, porque esse manejo pode promover a oportunidade para que as espécies, capazes de se reproduzir sexualmente, gerem outros tipos de variedades de plantas (Martins, 2001). Segundo Noelli (1998, p. 179) “A pesquisa histórica das fontes documentais publicadas ou depositadas em arquivos é um meio tão eficiente quanto os empreendidos pelos etnofarmacólogos que atuam entre os povos indígenas da Amazônia na atualidade”. E ainda, Brandão (2008) diz que grande parte da informação disponível sobre o uso de plantas medicinais nativas do Brasil foi compilada por naturalistas europeus que viveram ou viajaram por todo o país. Nesta perspectiva, as informações resgatadas nos documentos históricos não devem ficar restritas apenas as listas de espécies úteis, mas devem também, procurar sempre que possível, relacionar o contexto histórico em que os documentos foram escritos. Estas análises podem auxiliar o pesquisador, em etnobotânica, a entender e perceber as relações das sociedades com a natureza no decorrer da história, podendo relacionar as concepções de mundo existentes no passado histórico com as concepções construídas nos dias atuais.

 

Referências Bibliográficas:

MARTIUS, Karl F. P. Von. Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros, in: SILVA da P. (Trad.). Brasiliana, 154, 2 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939.

MEDEIROS, M.F.T. Etnobotânica Histórica: Princípios e Procedimentos. Recife: NUPEEA, 2009.

NOELLI, F. S. Múltiplos usos de espécies vegetais pela farmacologia Guarani através de informações históricas. Revista Diálogos, 2: 177-199, 1998.

MARTINS, P. S. Dinâmica evolutiva em roças de caboclos amazônicos. Pp. 369-384, in: VIEIRA, I. C. G.; SILVA, J. M. C.; OREN, D. C. & D´INCAO, M. A. (eds.) Diversidade biológica e cultural da Amazônia. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2001.

BRANDÃO, M. G. L.; ZANETTI, N. N. S.; OLIVEIRA, P.; Grael, C. F. F.; SANTOS, A. C. P. & MONTE-MÓR, R. L. M. Brazilian medicinal plants described by 19th century European naturalists and in the Official Pharmacopoeia. Journal of Ethnopharmacology, 120: 141–148, 2008.

 

 

Colecionismo e princípio da vida na obra de Charles Gaudichaud-Beaupré (1789 - 1854): configurações e controvérsias do campo francês da Botânica no século XIX

 

Daniel Dutra Coelho Braga

Mestrando em História Social no PPGHIS, Universidade Federal do Rio de Janeiro

daniel.dutra@bol.com.br

 

Resumo: O presente trabalho analisa a trajetória e as formulações científicas de Charles Gaudichaud-Beaupré (1789-1854), farmacêutico e botânico francês cuja formação se deu parcialmente nos quadros da Marinha francesa. Integrando posteriormente esta instituição, Gaudichaud participou de viagens científicas de volta ao mundo, junto a Freycinet, entre 1817 e 1820, e junto a Vaillant, entre 1836 e 1837. Suas publicações referentes a tais viagens denotam uma mudança, ao longo de sua trajetória, na base teórica de suas formulações. Em publicações de 1851, referentes à viagem de 1836, Gaudichaud imputa à Botânica o estudo do princípio da vida, estabelecendo uma distinção entre a História Natural do final do século XVIII e a Botânica tal como reconfigurada em meados do século XIX. Além disso, adere a uma nova forma de colecionismo, comprometida com a identificação de tal princípio, diferentemente do que veiculou nas publicações de 1826 referentes a sua primeira viagem. Finalmente, sua participação na Academia de Ciências francesa demonstra o quanto o botânico interagiu com controvérsias científicas de sua época, sobretudo ao estabelecer uma relação direta entre o princípio da vida e a vontade divina. Além disso, destaca-se o inventário de famílias botânicas caras à indústria e economia tropicais, uma constante em suas publicações. O estudo da obra de Gaudichaud aponta, portanto, para a ampla relação entre a Botânica francesa oitocentista e quadros mais amplos de interações científicas, políticas e econômicas.

 

Charles Gaudichaud-Beaupré nasceu em setembro de 1789. Em 1808, Gaudichaud se muda para Paris, no intuito de finalizar seus estudos de farmácia, iniciados em âmbito familiar (Chassaigne, 1953; Courcou, 1999). Após a mudança, parte de sua formação se deu em meio aos quadros da Marinha francesa, o que favoreceu seu ingresso em expedições científicas. A tendência a recrutrar naturalistas formados pela própria Marinha foi preponderante nas primeiras décadas do século XIX, o que reconfigurou a forma de realização deste tipo de viagem de coleta científica (Kury, 2001). A primeira viagem de circunavegação de Gaudichaud se deu na corveta “Uranie”, comandada por Louis de Freycinet, entre 1817 e 1820. Posteriormente o botânico integrou a expedição de Auguste Vaillant na corveta “La Bonite”, entre fevereiro de 1836 e novembro de 1837 (Taillemite, 1999: 482-485, 576). Além disso, Gaudichaud se tornou membro da Academia de Ciências francesa (Chassaigne, 1953; Courcou, 1999).

Tendo em vista as informações supracitadas, o presente trabalho analisa a especificidade das formulações científicas de Gaudichaud-Baupré no tocante à Botânica, com base sobretudo nas publicações referentes à viagem “La Bonite”. Para tanto, compara-se, mediante análise historiográfica, tais formulações a algumas oriundas do campo da História Natural do final do século XVIII. Além disso, analisa-se a trajetória científica de Gaudichaud, mediante recurso aos conceitos de trajetória e campo científico tal como formulados por Pierre Bordieu (1994; 2004).

Os estudos referentes a Botânica feitos com base na viagem “La Bonite só foram publicados por Gaudichaud a partir de 1851, sendo a série de publicações encerrada somente em 1866, após a morte do botânico. No prefácio da publicação, o viajante reitera que a finalidade principal de suas últimas duas viagens foi a de realizar pesquisas nos campos da anatomia, fisiologia e organogenia, sendo essa a condição sob a qual a administração superior da Marinha francesa teria permitido o uso de navios do Estado na viagem. O prefácio indica ainda a presença de uma controvérsia científica no seio do campo botânico francês do século XIX. No intuito de replicar os fundamentos de uma obra elementar publicada com a aprovação do Conselho real de instrução pública, Gaudichaud se dedica à publicação de 1851, opondo-se a obras e cientistas que chegavam até mesmo a integrar a própria Academia de Ciências (Gaudichaud, 1851a, p. 5-14).

Para o viajante, a Botânica não se resumiria a enumerar ou descrever os orgãos vegetais, suas raízes e folhas, ou a identificar padrões e relações simétricas que possibilitassem a dedução de classificações naturais. Nesse sentido, evidencia-se um afastamento do botânico em relação à configuração da disciplina História Natural, sobretudo em sua matriz do século XVIII (Gaudichaud, 1851a, p. 17). O próprio Gaudichaud evidencia compreender a disciplina História Natural nesses termos. Logo, os textos do viajante corroboram interpretações historiográficas – tal qual a de Foucault (1966) - que identificam na História Natural do século XVIII a primazia da classificação de elementos naturais a partir de quadros, além de identificar uma ruptura entre tal concepção da História Natural e as concepções que viriam a emergir no século XIX, baseadas no princípio da ideia de vida.

Uma análise comparativa das publicações de Gaudichaud confirma a hipótese segundo a qual o viajante se situou de maneira diferenciada, ao longo de sua trajetória, nos campos da História Natural. No intuito de se contrapor à mera História Natural, Gaudichaud evidencia, em 1851, sua adesão às novas ciências, dentre as quais destaca: a organogenia, concebendo-a como a formação dos diversos tecidos de todas as partes das plantas; a anatomia, a qual indicaria a ordem e a repartição de tais tecidos, diversos nos órgãos especiais; e, finalmente, a fisiologia, a qual precisaria as funções gerais e particulares dos tecidos. Tais novas ciências buscariam dar compreender o princípio da vida, indo além da mera possibilidade de estabelecer classificações (Gaudichaud, 1851a: 18-19, 26). Todavia, essa adesão acontece em um momento específico da trajetória do viajante, posto que não há nenhuma menção ao princípio da vida e à organização disciplinar dele decorrente no tomo “Botanique” referente à primeira expedição científica da qual Gaudichaud fez parte, entre 1817 e 1820 (Gaudichaud, 1826). Cabe ressaltar que, a pedido do próprio comandante Freycinet, Gaudichaud foi inteiramente responsável por tal publicação (Taillemite, 1999).

Ainda assim, é possível identificar um ponto de continuidade em relação ao programa demonstrado por Gaudichaud e algumas formulações do campo da História Natural oitocentista: a ordem natural é concebida como fruto da ação divina. Nas palavras do botânico, o princípio da vida revelaria uma vontade divina (Gaudichaud, 1851a: 29). Embora a ideia de princípio da vida e as concepções acerca das transformações na natureza dele decorrentes sejam específicas do período de Gaudichaud, o fato de o botânico oitocentista não excluir a religião do domínio de suas formulações científicas permite que o estabelecimento de uma relação entre seus trabalhos e os de gerações anteriores. Nesse ponto específico, cabe compará-lo a naturalistas renomados do século XVIII, tais como Lineu - o qual formulou, mediante a ideia de economia da natureza, uma ideia de natureza sob a qual haveria elementos interdependentes mediante relações funcionais concebidas pela providência (Koerner, 1996a, 1996b; Kury, 2001) - ou até mesmo Buffon, o qual, em determinado momento de sua trajetória, terminou por incluir a referência a uma ordem divina em sua compreensão da História Natural e das transformações dos elementos naturais ao longo do tempo (Gusdorf, 1972; Roger, 1997). Ainda no tocante a Lineu, contudo, evidencia-se que as novas formulações no campo da Botânica permitem a identificação de uma distinção radical entre o naturalista setecentista e o botânico francês: o programa de viagens científicas, bem como o papel do colecionismo botânico nestas, foi concebido de maneira diferente por cada um.

Finalmente, é possível relacionar as preocupações de Gaudichaud, ao final de sua vida, a um quadro mais amplo de relações sociais, no qual estaria em jogo não apenas a eficácia epistemológica das formulações em torno da Botânica, mas sim os usos dos elementos naturais e a visão de mundo a eles atrelada, sobretudo se constatarmos que a Academia de Ciências francesa foi um locus de atuação e influência política, no qual as formulações referentes a valores religiosos eram alvos de intensa disputa. A Botânica, ao receber seção específicana Academia, embora tenha tido a chance de se desenvolver autonomamente em relação a outras disciplinas, não foi afastada de tais controvérsias (Crosland, 2002).

 

Referências Bibliográficas:

BOURDIEU, Pierre. Pour une science des œuvres, in: Raisons pratiques. sur la théorie de l’action. Paris: Éditions du Seuil, 1994.

–––––. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

CHASSAIGNE, P. Un grand pharmacien méconnu: Charles Gaudichaud-Beaupré, botaniste, voyageur et protecteur des lettres. Revue d'histoire de la pharmacie, 41e année, 136: 1-5, 1953.

COURCOU, Guy. Charles Gaudichaud, pharmacien de la Marine au temps des voyages de circumnavigation (1789-1854). Revue d'histoire de la pharmacie, 87e année, (321): 37-48, 1999.

CROSLAND, Maurice. Science under control: the French Academy of Sciences, 1795-1914 [1992]. Cambridge: Cambridge University Press, 2002.

FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses. Paris: Gallimard, 1966.

GAUDICHAUD-BEAUPRÉ, Charles. Voyage autour du monde, entrepris par ordre du Roi: botanique. Paris: Pillet Aîné, 1826. Disponível em <http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k96690q/> Acessos em: 25 de fevereiro de 2013.

GAUDICHAUD-BEAUPRÉ, Charles. Voyage autour du monde : exécuté pendant les années 1836 à 1837 sur la corvette "la Bonite" commandée par M. Vaillant. Botanique. Introduction. Preimière Partie. Paris: Arthur Bertrand, 1851a. Disponível em:<http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k969760> Acesso em: 25 de fevereiro de 2013.

GAUDICHAUD-BEAUPRÉ, Charles. Voyage autour du monde : exécuté pendant les années 1836 à 1837 sur la corvette "la Bonite" commandée par M. Vaillant. Botanique. Introduction. Seconde Partie. Paris: Arthur Bertrand, 1851b. Disponível em <http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k96977b> Acesso em: 25 de fevereiro de 2013.

GUSDORF, Georges. Dieu, la nature, l’homme au siècle des lumières. Paris: Payot, 1972.

KOERNER, Lisbet. Purposes of Linnaean travel: a preliminary research report, in: MILLER, David Philip; REILL, Peter Hanns (eds). Visions of empire: voyages, botany, and representations of nature. Cambridge/New York: Cambridge University Press, 1996 (a).

KOERNER, Lisbet. Carl Linnaeus in his time and place. Pp. 145-162, in: JARDINE, N.; SECORD, J.A.; SPARY, E. (eds.). Cultures of Natural History. Cambridge/New York: Cambridge University Press, 1996 (b).

KURY, Lorelai. Histoire naturelle et voyages scientifiques. Paris: L’Harmattan, 2001.

ROGER, Jacques. The life sciences in eighteenth-century french thought. Trad. Robert Ellrich. Stanford: Stanford University Press, 1997.

TAILLEMITE, Étienne. Marins français à la découverte du monde. De Jacques Cartier à Dumont d’Urville. Paris: Fayard, 1999.

 

 

A controvérsia sobre a geração espontânea entre Needham e

Spallanzani

 

Eduardo Crevelário de Carvalho

Mestre em Ensino de Biologia, Professor de Ciências da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, EMEF Luíz Roberto Mga.

edu.carvalho@usp.br / educrevelario@gmail.com

 

Resumo: No século XVIII, houve intensos debates entre defensores de diferentes teorias que procuravam explicar a “geração” dos seres vivos. Dentro desse contexto, é bem conhecida a controvérsia entre o naturalista inglês John Turberville Needham (1713-1781) e o naturalista italiano Lazzaro Spallanzani (1729-1799). As controvérsias científicas oferecem elementos de análise particularmente interessantes, uma vez que explicitam aspectos epistêmicos e não-epistêmicos da pesquisa científica, mais evidentes em situações de conflito que nas de consenso. Dentre as propriedades epistêmicas das controvérsias científicas, Marcelo Dascal destaca: mudança de tópico; questionamento generalizado; preocupação hermenêutica; abertura e fechamento; estrutura flexível e racionalidade soft. A controvérsia Needham-Spallanzani foi pública e contou com participação de naturalistas importantes daquele período. O desenvolvimento da contenda incluiu o questionamento dos pressupostos fatuais (surgimento ou não surgimento de animálculos nas infusões), metodológicos (tempo de fervura ou modo de fechar os frascos) e conceituais (força vegetativa, propriedades do ar) de seus adversários. Além disso, questões de interpretação estiveram presentes em todos os níveis da controvérsia, uma vez que os resultados dos experimentos de Needham e Spallanzani foram interpretados com base em concepções epistemológicas distintas. Quanto ao encerramento da controvérsia, não houve um acordo final a respeito da origem dos animálculos que surgiam nas infusões, pois ambas as explicações eram aceitáveis naquele período.

 

A História das Ciências é pontuada por controvérsias científicas. Durante o desenvolvimento histórico das ciências diversas teorias foram propostas para explicar os mais variados fenômenos. Muitas foram rejeitadas imediatamente ou não foram levadas a sério, outras foram abandonadas mesmo após tentativas para defendê-las. Algumas teorias foram aceitas durante décadas ou séculos e em algum momento da história foram substituídas por outras mais simples ou que apresentavam soluções que suas rivais não contemplavam. Finalmente, outras ainda, permaneceram aceitas desde que foram propostas.

O objetivo deste trabalho é discutir as controvérsias científicas à luz das propriedades epistêmicas indicadas por Marcelo Dascal, aplicando-as à controvérsia sobre a geração espontânea entre o naturalista inglês John Turberville Needham (1713-1781) e o naturalista italiano Lazzaro Spallanzani (1729-1799) sobre o tema da “geração” dos seres vivos.

No século XVIII, o debate sobre a geração espontânea se desenvolveu em meio à contenda epigênese versus pré-formação, principalmente porque os desdobramentos da teoria epigenética implicavam que os organismos pudessem ser gerados espontaneamente a partir da matéria inanimada, enquanto os pré-formacionistas a negavam. Nesse período, as discussões entre as teorias de geração dos seres vivos eram intensas, e até a primeira metade do Setecentos a teoria pré-formacionista prevaleceu em relação à epigênese, em grande medida por conta das contribuições de naturalistas como Charles Bonnet (1720-1793), Albrecht von Haller (1708-1777) e René-Antoine Ferchault de Réaumur (1683-1757). A epigênese, por sua vez, sofreu uma grande reformulação a partir da metade do século XVIII e passou a receber forte apoio, principalmente, devido ao trabalho de naturalistas como Pierre-Louis Moreau de Maupertuis (1698-1759) e Georges-Louis Leclerc de Buffon (1707-1788).

Em 1748, John Turberville Needham enviou um relato bastante detalhado à Royal Society de Londres intitulado A summary of some late observations upon the generation, composition and decomposition of animal and vegetable substances (Um resumo das últimas observações sobre a geração, composição e decomposição das substâncias animais e vegetais). Este continha uma série de experimentos com evidências favoráveis à geração espontânea. “No relato ele apresentou também a teoria de que haveria uma ‘força produtiva’ na natureza que ele chamou de ‘força vegetativa’ ou ‘poder vegetativo’” (Prestes e Martins, 2010, p. 81). A summary of some late observations, de 1748, é, pois, a obra em que Needham critica a teoria pré-formista e propõe sua teoria sobre as “forças ativas” da natureza, “por argumentos derivados não apenas das observações, que são óbvias a todo naturalista, mas experimentos (experiments) feitos com substâncias animais e vegetais, durante todo o verão do presente ano” (Needham, 1749, p. 622). Além disso, criticou a geração espontânea “no modo como foi proposta pelos antigos”, vindo a propor uma formulação distinta, com a intervenção divina sobre a matéria inerte. Needham contou com o apoio de Buffon, pois sua interpretação se harmonizava com a “teoria das moléculas orgânicas” do naturalista francês.

Em 1761, o padre italiano Lazzaro Spallanzani iniciou suas investigações microscópicas levando em conta as objeções apontadas por Réaumur e Bonnet. Os resultados foram publicados quatro anos depois do início dos estudos, em 1765, no Saggio di osservazioni microscopiche concernenti il sistema della generazione de’ Signori di Needham e Buffon (Ensaio de observações microscópicas sobre o sistema da geração dos Senhores Needham e Buffon), livro que conferiu rápida fama a seu autor. Em resumo, o Saggio di osservazioni microscopiche contém uma série de experimentos planejados e executados para refutar as ideias de Buffon e Needham, conforme ilustrado no título da obra. Os argumentos de Spallanzani procuravam refutar a noção de “partes ou moléculas orgânicas” de Buffon e a noção de “forças vegetativas” de Needham. “Unidas essas duas ideias davam uma nova formulação à geração espontânea dos organismos microscópicos” (Prestes, 2003, p. 213). A esse livro se seguiram uma réplica contendo comentários e objeções feitos por Needham em obra publicada em 1769, e uma tréplica de Spallanzani publicada em uma coletânea de trabalhos, Opuscoli di fisica animale e vegetabile (Opúsculos de Física animal e vegetal) de 1776.

Quanto ao encerramento do debate Needham-Spallanzani pode-se dizer que não houve um acordo final a respeito da origem dos animálculos que surgiam nas infusões. Ambas as explicações eram aceitáveis naquele período, pois os resultados obtidos por meio de longas séries de experiências foram interpretados com base em concepções epistemológicas distintas (Prestes e Martins, 2010). Needham manteve sua crença de que na matéria residia uma força vegetativa capaz de produzir os animálculos a partir da decomposição. Spallanzani, por sua vez, concluiu que a força vegetativa de Needham era uma “quimera” e não passava de especulação. A controvérsia não pode ser considerada resolvida, simplesmente porque não foi encerrada definitivamente. De fato, os sistemas defendidos por Needham e Spallanzani, epigênese e pré-formação, respectivamente, foram abandonados no final do Setecentos. Entretanto, o debate sobre a geração espontânea não terminou naquele século, apesar de Lazzaro Spallanzani considerar ter fornecido evidências experimentais suficientes para encerrar a controvérsia. No século XIX o tema voltou a ganhar destaque entre a comunidade científica da época, e foi protagonizado por Félix Pouchet e Louis Pasteur. Mesmo nesse momento, conforme Prestes e Martins (2010), a controvérsia não foi encerrada, uma vez que outros pesquisadores continuaram investigando o tema.

Como se depreende das publicações dos dois autores, a controvérsia sobre a geração espontânea entre Needham e Spallanzani foi pública e contou com intensa participação da comunidade de pesquisadores da época. Durante o desenvolvimento da contenda é possível identificar algumas das propriedades epistêmicas que Marcelo Dascal confere às controvérsias científicas, a saber: mudança de tópico; questionamento generalizado; preocupação hermenêutica; abertura e fechamento; estrutura flexível e racionalidade soft (Dascal, 2005, p. 24). Houve um questionamento generalizado de ambos os lados da contenda, uma vez que a expansão da problemática incluiu o questionamento dos pressupostos fatuais (surgimento ou não surgimento de animálculos nas infusões), metodológicos (tempo de fervura ou modo de fechar os frascos) e conceituais (força vegetativa, propriedades do ar) de seus adversários. Outra propriedade apontada por Dascal é preocupação hermenêutica, uma vez que questões de interpretação estiveram presentes em todos os níveis da controvérsia, elas são percebidas como contendo em si pressuposições distintas (germes presentes na matéria infusa, nas paredes dos frascos, no ar do interior dos frascos) e mal-entendidos (na visão de Needham, Spallanzani teria tomado a sua ideia de “força vegetativa” como semelhante à de “causa vegetativa” de Aristóteles). Esses aspectos permitem identificar o episódio como uma controvérsia entre teorias rivais.

 

Referências Bibliográficas:

DASCAL, Marcelo. A dialética na construção coletiva do saber científico. Pp. 15-31, in: REGNER, Anna Carolina K; ROHDEN, Luiz (Org.); A Filosofia e a Ciência redesenham horizontes. São Leopoldo, RS: Editora Unisinos, 2005.

NEEDHAM, John Turberville. Observations upon the generation, composition, and decomposition of animals and vegetables substances. London: [s.e.], 1749.

PRESTES, Maria Elice Brzezinski. A biologia experimental de Lazzaro Spallanzani (1729-1799). São Paulo, 2003. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

SPALLANZANI, Lazzaro. Dissertazioni due dell’Abate Spallanzani. Saggio di osservazioni microscopiche concernenti il sistema della generazione dei Signori di Needham, e Buffon. De Lapidibus ab aqua resilientibus Dissertatio. Modena: Eridi Bart. Soliani, 1765.

–––––. Opuscoli di fisica animale e vegetabile dell’ abate Spallanzani; aggi untevi alcune lettere relative ad essi Opuscoli dal celebre Signor Carlo Bonnet di Ginevra, e da altri scritte all’autore. Modena: Societá Tipografica, 1776. 2 vols.

–––––. Nouvelles recherches sur les découvertes microscopiques, et la generation des corps organisés. Ouvrage traduit de l’italien de M. l’abbé Spallanzani par M. l’abbé Regley [...] Avec des notes, des recherches physiques et métaphysiques sur la nature et la religion, et une nouvelle théorie de la terre. Par M. de Needham, Londres/Paris: Chez Lacombe, 1769. Disponível em: http://archive.org/details/nouvellesrecherc00spal. Acesso em: 03de julho de 2011.

 

 

Evolução e religião: concepções de professores brasileiros e portugueses em formação e em exercício

 

Elaine S. Nicolini Nabuco de Araujo

Doutora em Biologia, vinculada à Faculdade de Tecnologia, FATEC/Jahu

enabuco@netsite.com.br

 

Ana Maria de Andrade Caldeira

Doutora em Educação, Livre-Docente, Departamento de Educação, Unesp/Bauru

anacaldeira@fc.unesp.br

 

Paloma Rodrigues da Silva

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, Unesp/ Bauru

paloma.bio@hotmail.com

 

Graça S. Carvalho

Professora Catedrática, Universidade do Minho, Portugal

graca@ie.uminho.pt

 

Resumo: No Brasil, a discussão sobre influência da religião no ensino de evolução tem despertado o interesse dos pesquisadores, entre outras razões, pela disseminação de idéias criacionistas e pelo crescimento de grupos evangélicos. Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do Projeto Europeu BIOHEAD-CITIZEN, que considera que o conhecimento científico, os valores e as atitudes dos professores podem influenciar em suas práticas docentes. Um questionário contendo 144 questões sobre saúde, evolução, meio ambiente foi respondido por professores e estudantes de graduação de 19 países da Europa, África e Oriente Médio. O referido projeto foi estendido para o Brasil, com o objetivo de avaliar as concepções evolucionistas e criacionistas de professores de biologia em formação e em exercício. O levantamento de tais concepções pode auxiliar, por exemplo, na compreensão de como os professores lidam com possíveis conflitos, referentes ao evolucionismo versus criacionismo, em sala de aula. Estes dados foram comparados com os obtidos em Portugal. Observou-se, uma forte influência de valores religiosos nos grupos brasileiros quando comparados aos grupos portugueses.

 

Em razão dos 200 anos do nascimento Charles Darwin (1809- 1882) e dos 150 anos do livro A origem das espécies, várias pesquisas nacionais e internacionais de percepção pública foram realizadas, com o objetivo de investigar as concepções dos cidadãos sobre o tema evolucionismo x criacionismo. No Brasil, por exemplo, uma pesquisa de opinião pública (Schwartsman, 2010), publicada pelo jornal Folha de São Paulo, revelou que para a maioria dos brasileiros (59%) “o ser humano é o resultado de milhões de anos de evolução, mas em processo guiado por um ente supremo. Apenas 8% consideram que a evolução ocorre sem interferência divina.” No âmbito internacional, destacou-se o trabalho britânico “Rescuing Darwin” desenvolvido pelos institutos britânicos Theos e Faraday, ambos com forte influência religiosa. No Brasil essa pesquisa foi apresentada e discutida também no jornal Folha de São Paulo (Colombo, 2009), apontando que mais da metade dos ingleses não são favoráveis à teoria da evolução. O sociólogo Antônio Flávio Pierucci interveio, aventando a possibilidade de o resultado da referida pesquisa ser muito diferente no Brasil, pois aqui haveria pouca penetração do movimento criacionista. Bizzo, Gouw e Pereira (2013) criticaram duramente as questões contidas na pesquisa “Rescuing Darwin”, em especial a pergunta “O evolucionismo ateísta, que afirma que a evolução torna desnecessário e absurdo pensar em Deus, é...”, considerando-a capciosa. Estes autores propuseram questões específicas sobre crença em Deus e aceitação da evolução.

Assim, afirmações como “sou uma pessoa religiosa ou uma pessoa de fé” e “participo com frequência das reuniões da minha religião” foram incluídas em um formulário de pesquisa, ao lado de outras como “minha religião me impede de acreditar na evolução biológica” e “as espécies atuais de animais e plantas se originaram de outras espécies do passado” (Bizzo, Gouw & Pereira, p. 29, 2013).

As questões mencionadas na citação anterior, juntamente com outras, foram respondidas por estudantes, de 15 anos, em média. Um resultado interessante, apontado por Bizzo, Gouw e Pereira (2013, p. 30), refere-se à discordância de 80% dos católicos e de 67% dos evangélicos da afirmação “minha religião me impede de acreditar na evolução biológica”. Além disso, segundo os mesmos autores, “fração quase idêntica dos evangélicos (68%) concordou que a evolução ocorre tanto em animais quanto em vegetais – no caso dos católicos, a concordância com essa generalização foi pouco maior (71%)” (Bizzo, Gouw e Pereira, 2013, p. 30). Uma das conclusões da referida pesquisa é que os estudantes brasileiros, independente da religião que praticam (católica, evangélica, etc.), tenderiam a dizer sim à questão “Acredito em Deus e em Darwin”. Esta constatação, segundo os autores, contraria as expectativas de que com o crescimento de evangélicos no país[7] a influência da religião no ensino aumentaria. A influência da religiosidade da política brasileira foi apontada, por exemplo, por Machado e Mariz (2004) ao analisarem o caso do Rio de Janeiro, no qual o governo da época propôs uma série de intervenções no e educacional de cunho dogmático, incluindo o ensino do tema criacionismo nas aulas de ciências, como uma explicação alternativa para os fenômenos naturais.

Tidon e Lewontin (2004) chamaram à atenção para o aumento no número de publicações da Sociedade Brasileira Criacionista, criada em 1972, com traduções de livros com visões distorcidas sobre a teoria evolucionista. Meyer e El Hani (2005) comentaram que, embora haja uma gama de evidências que apoiam a evolução das espécies e de sua incontestável importância para a Biologia, grupos fundamentalistas religiosos do mundo todo (que interpretam literalmente a Bíblia), pertencentes ao movimento criacionista, concebem a diversidade dos seres vivos como uma criação direta de Deus. Um dos argumentos, utilizados pelos criacionistas, para desqualificar a evolução refere-se ao fato de esta ser “apenas uma teoria, portanto não é comprovada”. Isso mostra uma compreensão inadequada de ciência (Meyer e El Hani, 2005)  

O presente trabalho foi desenvolvido no âmbito do Projeto Europeu BIOHEAD-CITIZEN- Biology, Health and Environmental Education for Better Citizenship (Carvalho, 2004; Carvalho & Clément, 2007), que considera que o conhecimento científico, os valores e as atitudes dos professores podem influenciar em suas práticas docentes. Um questionário contendo 144 questões sobre saúde, evolução, meio ambiente foi respondido por professores e estudantes de graduação de 19 países da Europa, África e Oriente Médio. Em 2008, o referido projeto foi estendido ao Brasil, com o objetivo de avaliar as concepções evolucionistas e criacionistas de professores de biologia em formação e em exercício. O levantamento de tais concepções pode auxiliar, por exemplo, na compreensão de como os professores lidam com possíveis conflitos, referentes ao evolucionismo versus criacionismo, em sala de aula. As questões do projeto BIOHEAD-CITIZEN aproximam-se daquelas utilizadas por Bizzo, Gouw e Pereira (2013) e respondidas por estudantes do Ensino Médio. Com o intuito de contribuirmos para as pesquisas sobre o assunto, julgamos pertinente a apresentação de nossos resultados, que analisam respostas de 50 professores brasileiros de biologia em formação e 50 em exercício do interior de São Paulo. Esses dados foram comparados com os resultados obtidos em Portugal.

A Figura 1 apresenta os resultados da análise comparativa entre as respostas de professores de biologia (B) portugueses (PT) e brasileiros (BR) em exercício (In) e em formação (Pre) às questões investigadas.  

Em relação à questão A teoria da evolução contradiz as minhas próprias crenças, nota-se que para a maioria dos quatro grupos investigados, a resposta foi não. Esses dados são semelhantes aos obtidos por Bizzo, Gouw e Pereira (2013) para a questão Minha religião me impede de acreditar na evolução biológica. Por outro lado, exceto o grupo de professores portugueses em formação (In B Br), a maioria dos demais grupos respondeu não à questão O criacionismo (incluindo a criação dos seres vivos por Deus) contradiz as minhas próprias crenças. Em relação às demais questões, de maneira geral, os grupos de professores em formação e em exercício portugueses tendem a ter concepções mais evolucionistas do que os mesmos grupos de brasileiros. Análises comparativas das respostas, levando-se em conta a religião dos respondentes também foram realizadas. A religião (católica, evangélica, espírita, etc) não foi uma variável determinante para estas questões dado que não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas.

Figura 1: Gráficos das frequências das respostas assinaladas pelos respondentes brasileiros e portugueses. Professores de biologia portugueses em formação (Pre-B-PT); Professores de biologia brasileiros em formação (Pre-B-BR); Professores de biologia portugueses em exercício (In-B-PT); Professores de biologia brasileiros em exercício.

 

Referências Bibliográficas:

BIZZO, Nelio; GOUW, A. M. Santos, PEREIRA, H. M. Rios. Evolução e religião: o que pensam os jovens estudantes brasileiros. Ciência Hoje, 300: 27-31, 2013.

CARVALHO, Graça Simões. Biology, Health and Environmental Education for better Citizenship. STREP CIT2-CT-2004-506015, European Commission, Brussels, FP6, 2004. Disponível em: http://projectos.iec.uminho.pt/projeuropa/. Acesso em: 14 de abril de 2013.

CARVALHO, G. Simões; CLÉMENT, Pierre. Projecto “Educação em Biologia, educação para a saúde e Educação ambiental para uma melhor cidadania”: análise de manuais escolares e concepções de professores de 19 países (europeus, africanos e do próximo oriente). Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 7 (2): 1-21, 2007.

COLOMBO, Silvia. Darwin nas mãos de Deus. Folha de São Paulo. São Paulo, 8 fev. 2009. Caderno Mais!, p. 4.

MACHADO, M. D. Campos; MARIZ, C. Loreto. Conflitos Religiosos na Arena Política: o caso do Rio de Janeiro. Ciencias Sociales y religión/Ciências Sociais e religião, Porto Alegre, 6 (6),  outubro: 31-49, 2004.

SCHWARTSMAN, Hélio. 59% dos brasileiros acreditam em Deus e também em Darwin. Folha online São Paulo, 2 de abril de 2010. Caderno Cotidiano (Ciência) Disponível: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u715507.shtml. Acesso em: 14 de abril de 2013.

TIDON, Rosana; LEWONTIN, Richard C. Teaching Evolutionary Biology. Genetics and Molecular Biology, 27 (1): 124-131, 2004.

 

 

A carta de Cuvier à J.-C. Mertrud: uma introdução à Anatomia Comparada

 

Felipe Faria

Pós-doutorando do PPG em Filosofia, Universidade Federal de Santa Catarina, Grupo Fritz Müller-Desterro de Estudos em Filosofis e História da Biologia, Grupo de Pesquisa de Paleoinvertebrados e Icnofósseis do Brasil (História da Paleontologia brasileira e as coleções geopaleontológicas do Museu Nacional-UFRJ)

felipeafaria@uol.com.br

 

Resumo: Na busca para dotar a História Natural de métodos capazes de possibilitar a compreensão das formas de organização corporal dos seres vivos, Georges Cuvier (1769-1832) publicou em 1805 o livro Lições de Anatomia Comparada (Leçons de anatomie comparée). Nesta obra Cuvier reuniu os ensinamentos lecionados em aulas dos cursos de anatomia comparada que havia ministrado desde 1795, após sua chegada à Paris. Tais aulas fizeram-no perceber que havia uma acentuada demanda “de uma obra elementar, que apresentasse aos mestres e aos alunos, de uma maneira resumida, mas sólida, o estado atual dessa ciência”. Objetivando suprir esta demanda, Cuvier publicou o livro abrindo-o com uma dedicatória à Jean-Claude Mertrud (1728-1802), antigo detentor da cadeira de Anatomia dos Animais do Museu de Paris, a qual Cuvier assumiu em 1802 após o falecimento de Mertrud. A dedicatória, em forma de carta, está baseada em um discurso que Cuvier proferiu ao abrir os cursos de anatomia comparada no Museu de Paris. Em poucas páginas, Cuvier conseguiu não somente homenagear seu antecessor, mas também expor pontos de suas ideias, agenda e programa de pesquisas para a História Natural, que serão apresentados nesta comunicação. E como era de seu feitio, fez isso de uma maneira eloquente e erudita, que intensificam ainda mais a homenagem à Mertrud.

 

Em sua incessante busca para dotar a História Natural de métodos capazes de possibilitar a compreensão das formas de organização corporal dos seres vivos, Georges Cuvier (1769-1832) publica em 1805 o seu primeiro livro, o “Lições de Anatomia Comparada” (Leçons de anatomie comparée). Nesta obra Cuvier reuniu as os ensinamentos lecionados em aulas dos cursos de anatomia comparada que havia ministrado desde 1795 após sua chegada à Paris. Estas aulas ocorreram na Escola Central do Panteão (École Centrale du Panthéon) e no Museu Nacional de História Natural (Muséum National d’Hisoire Naturelle). De fato, em 1798 Cuvier já havia publicado o “Quadro elementar da história natural dos animais” (Tableau élémentaire de l’histoire naturelle des animaux), que foi imediatamente bem recebido nos meios acadêmicos e científicos, mas que funcionava mais como um manual do que como um livro (Faria, 2012, p. 109-110).

As aulas de Cuvier fizeram-no perceber que havia uma acentuada demanda “de uma obra elementar, que apresentasse aos mestres e aos alunos, de uma maneira resumida, mas sólida, o estado atual dessa ciência”, a anatomia comparada (Cuvier, 1798, p. v.). Abordando a classificação zoológica, Cuvier expôs claramente suas idéias para um sistema classificatório, que poderia servir inclusive para os vegetais, visto que se baseava na organização anátomo-fisiológica de todos os seres vivos. Como os caracteres taxonômicos diagnósticos devem ser os mais constantes possíveis, Cuvier defendeu que fossem utilizados aqueles mais básicos da fisiologia do organismo, ou seja, caracteres que se alterados, implicariam em uma mudança radical de toda a organização, visto que o corpo organizado tem todas as suas partes funcionando em conjunto e em mútua implicação (Cuvier, 1798, p. 17-22).

Após dois anos da publicação do seu Tableau élémentaire, Cuvier consegue reunir mais material para a publicação de dois volumes de suas lições de anatomia comparada, na forma de notas coletadas e editadas por André Marie Constant Duméril (1774-1860) e em 1805, por meio da coleta e edição de suas notas, feitas por Georges Louis Duvernoy (1777-1855), publica os três volumes restantes, completando a obra (cf. Smith, 1993, p. 169-170).

O livro é dedicado à Jean-Claude Mertrud (1728-1802), detentor da cadeira de Anatomia dos Animais do Museu de Paris, até Cuvier assumi-la, após um período, de pouco mais de seis anos (1795-1802), trabalhando como assistente de Mertud. Entretanto, durante este período Cuvier assumiu todos os cursos ministrados, tendo a oportunidade de avançar com suas ideias sobre a anatomia comparada.

A dedicatória foi feita em forma de carta, a qual está baseada em um discurso que Cuvier proferiu ao abrir os cursos de anatomia comparada no Museu de Paris, logo após assumir o posto de assistente de Mertrud. Já nesta carta introdutória, escrita cinco anos antes da publicação do livro, Cuvier apresenta um delineamento de um método que permite ao fisiólogo superar o obstáculo da inextricável complexidade dos seres vivos (Caponi, 2008, p. 29). Sabendo da impossibilidade de se experimentar em fisiologia, ele defende que para se alcançar a compreensão das possíveis formas de organização corporal a comparação anatômica deveria ser o método. Uma compreensão fundamental para toda a história natural e particularmente para os trabalhos de reconstruções paleontológicas com os quais Cuvier pôde, fazendo uso também do conhecimento fisiológico produzido, construir um sistema de classificação natural, que contemplasse todos os seres vivos, atuais e extintos, uma vez que isso não ocorrera até aquele momento.

Por meio desta obra, Cuvier procurou divulgar a aplicação de seus métodos da Anatomia Comparada de uma maneira mais profunda do que a empregada em seus trabalhos precedentes, como, por exemplo, no Tableau élémentaire. Para tanto ele apresentou um dos fundamentos de suas leis, o princípio das “condições de existência” ou das “causas finais”, como era conhecido informalmente, e que ele mais tarde definiria explicitamente (Cuvier, 1817, p.7). Ele também apresenta os princípios subsequentes, necessários para avançar em sua metodologia, que objetivava produzir dados capazes de atingir a compreensão das relações existentes entre as partes de um organismo, vivo ou extinto, delineando assim, um sistema de classificação baseado na organização das partes orgânicas. Tais princípios foram denominados, pelo próprio Cuvier, de “correlação das partes” e de “subordinação dos caracteres”. O primeiro estabelece que as alterações ocorridas em uma parte do ser vivo implicam, obrigatoriamente, na alteração de uma ou de várias partes, mantendo-se, assim, sua harmonia funcional. E as alterações, às quais ele se refere, deveriam obedecer ao segundo princípiosubordinação dos caracteresque determinava haver uma hierarquia na organização desses caracteres, baseada na importância de suas funções e na maneira pela qual elas se implicam na própria organização do animal (Cuvier, 1805, p. 47 e 1817 p. 10-11).

Utilizando os métodos, orientado pelas leis e princípios da anatomia comparada, Cuvier pôde reconstruir os animais fósseis e, com isso, empreender seu projeto de compor um sistema natural de classificação que abarcasse todos os organismos, vivos e extintos.

Este é o projeto que ele apresentou na carta à Mertrud, onde também aproveitou a ocasião para reforçar outros pontos constantes de sua agenda para o progresso da História Natural. Entre eles estava seu incessante apelo para a formação de uma rede de colaboração internacional, onde a troca de informações seria o principal fator. Mas, ele alertava que nesta comunidade de naturalistas a observação e o método comparativo deveriam substituir as conclusões especulativas resultantes das discussões de filosofia escolástica que ocuparam, por exemplo, os autores do século XVI, pois só assim as informações poderiam ser utilizadas com o rigor característico exigido pela Ciência (Cuvier, 1805, p. xvi).

Em poucas páginas, Cuvier conseguiu não somente homenagear seu antecessor na cadeira de Anatomia Animal do Museu de Paris, mas também expor pontos de suas ideias, agenda e programa de pesquisas para a História Natural. E como era de seu feitio, fez isso de uma maneira eloquente e erudita, que intensificam ainda mais sua homenagem à Mertrud.

O objetivo deste trabalho é apresentar esta bela homenagem, discutindo quais são as propostas feitas por Cuvier para o desenvolvimento da anatomia comparada.

 

Referências Bibliográficas:

CAPONI, Gustavo. Georges Cuvier: um fisiólogo de museo. México, DF: Universidade Nacional Autônoma de México (LIMUSA), 2008.

–––––. Tableau élémentaire de l’histoire naturelle des animaux. Paris: Baudouin, 1798.

–––––. Leçons d’anatomie comparée de G. Cuvier (recueillies et publiées sous ses yeux par C. Duméril). Tome I. Paris: Baudouin, 1805.

–––––. Le règne animal distribué d’après son organisation, pour servir de base à la Histoire Naturelle des animaux et d’introduction a l’Anatomie Comparée. Tome I. Paris: Deterville, 1817.

FARIA, Felipe. Georges Cuvier: do estudo dos fósseis à paleontologia. São Paulo: Scientiae Studia / Editora 34, 2012.

SMITH, J.C. Georges Cuvier: an annoted bibliography of his published Works. Washington: Smithsonian Institution Press, 1993.

 

 

Seria o termo “exaptação” realmente útil?

 

Felipe Lima Pinheiro

Doutorando em geociências (Paleontologia)

Departamento de Paleontologia e Estratigrafia, Insituto de Geociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

fl_pinheiro@yahoo.com.br

 

Resumo: Revisamos, com base nas definições propostas por Gould & Vrba (1982) a utilidade do termo “exaptação”. Segundo os autores, exaptações seriam caracteres evoluídos para outros usos (ou para uso nenhum) e, posteriormente "cooptados" para seu uso atual. Uma análise cuidadosa tomando, como base, a mesma lógica utilizada por Gould & Vrba (1982) nos revela que tal definição pode ser aplicada virtualmente a qualquer processo evolutivo, atestando a obsolescência do termo. Esta conclusão parte do princípio de que a Seleção Natural é incapaz de moldar uma estrutura para seu uso corrente e, assim, as funções são necessariamente cooptadas a partir de propriedades inerentes à estrutura física das novidades evolutivas.

 

Por vezes, a criação de novas terminologias aprisiona os fenômenos naturais aos quais elas se referem sob suas definições, tendenciando o reconhecimento destes fenômenos a concepções pré-estabelecidas. No entanto, terminologias e definições são necessárias à Ciência, o que torna premente uma constante reciclagem de conceitos e termos, acompanhando o desenvolvimento epistemológico do conhecimento.

Gould & Vrba (1982) reconheciam a importância da taxonomia de fenômenos naturais e, analisando o significado do termo “adaptação” (ad + aptus – em direção a uma aptidão), identificam dois significados distintos. Adaptação pode se referir a uma característica construída pela Seleção Natural para a função que ela desempenha (uma definição funcional) ou adaptação pode denotar qualquer característica que aumente o ajustamento (fitness) evolutivo, independentemente de sua origem histórica (uma definição relativa ao efeito de uma estrutura). Gould & Vrba (1982), então, ao reconhecerem tal conflito de definições, propõem uma nova terminologia para efeitos fortuitos, relativos a estruturas que, apesar de não terem surgido por construção direta da Seleção Natural para uma determinada finalidade, foram “cooptadas” para esta. Ao criar o termo exaptação, Gould & Vrba pretendiam nomear caracteres ajustados (fit) para seu uso corrente (aptus), no entanto, não desenhados para este uso (não ad aptus). Segundo Gould & Vrba, “adaptações possuem funções, enquanto exaptações possuem efeitos” (Gould & Vrba, 1982, p. 6).

Como exemplos de exaptações, Gould & Vrba (1982) citam as penas, surgidas para termorregulação e, posteriormente, cooptadas para o vôo; os ossos, surgidos inicialmente como depósito de fosfato e cooptados para proteção e sustentação corporal; a α-Lactalbumina, cuja precursora, lisozima, tem função bactericida; além do mimetismo sexual em hienas. No entanto, uma análise cuidadosa dos exemplos citados pelos autores revela que todos eles iniciam com um suposto processo adaptativo, seguido por posteriores exaptações. No entanto, Gould & Vrba (1982) escolhem, na verdade, um evento evolutivo arbitrário e o denominam adaptação, como se a Seleção Natural (com seu suposto poder criativo) pudesse moldar, a partir do nada, uma estrutura para uma posterior função específica. Assim, esses autores assumem um papel claramente teleológico para a Seleção Natural, sugerido diversas vezes no trabalho por meio de sentenças como “a Seleção Natural molda o caráter para o seu uso corrente” (Gould &Vrba, 1982, página 5, tabela 1).

Assim, sem prejuízo algum à proposta do trabalho, podemos definir diferentes pontos arbitrários nos exemplos apresentados por Gould & Vrba (1982) e chamá-los de adaptações, propondo que os eventos evolutivos subsequentes sejam exaptações. Como a Seleção Natural é incapaz de moldar uma estrutura para uma determinada função, qualquer novidade evolutiva necessariamente surge sem qualquer função específica. As funções são, desta forma, sempre cooptadas a partir de aptidões inerentes à estrutura física das novidades evolutivas. A estrutura tubular primitiva que, posteriormente, daria origem à imensa diversidade anatômica e funcional observada em penas atuais não pode ter surgido para desempenhar a função de isolamento térmico. Assim, o isolamento térmico foi uma cooptação fortuita de uma estrutura sem função ou com uma função desconhecida. Desta forma, ainda sem prejuízo ao raciocínio de Gould & Vrba (1982), o próprio isolamento térmico pode ser definido como exaptação. O mesmo pode ser extrapolado para os outros exemplos. No caso da α-Lactalbumina, é errôneo imaginar que sua predecessora, a lisozima, tenha sido moldada pela Seleção Natural para a função bactericida, sem a participação de estágios intermediários que, necessariamente, desempenhariam outras funções. Assim, a função bactericida da lisozima pode, facilmente, ser considerada uma exaptação.

É difícil imaginar que, ao surgir, uma estrutura possa desempenhar um papel pré-determinado. Assim, qualquer adaptação, da forma como este termo é definido por Gould & Vrba (1982) pode ser considerada uma exaptação surgida a partir de uma não-aptação. Seguindo estritamente as definições propostas pelos autores, então, qualquer novidade evolutiva pode ter sua origem explicada por processos exaptativos, o que denota a obsolescência do termo exaptação.

A idéia de que o conceito de exaptação não seria suficientemente distinto do conceito de adaptação, a ponto de justificar sua cunhagem, foi previamente proposta por Dennett (1995), segundo o qual “se retrocedermos o suficiente, descobriremos que toda adaptação se desenvolveu a partir de estruturas predecessoras, que já possuíam alguma utilidade ou utilidade nenhuma” (p. 281). Segundo autores como Buss et al. (1998), a distinção entre as duas terminologias estaria associada ao grau em que exaptações se desenvolveriam a partir de estruturas que já possuíam funções bem estabelecidas. Tal distinção, segundo Buss et al. (1998), poderia ajudar na compreensão da origem de estruturas biológicas. No entanto, no ponto de vista do presente trabalho, a distinção entre os dois termos mascara o fato de que ambos se referem, essencialmente, ao mesmo processo evolutivo.

Embora o termo exaptação seja, por si, obsoleto, já que a divisão dos eventos evolutivos entre adaptações e exaptações mascare os processos reais, o conceito a que ele remete, ou seja, cooptação de estruturas para novas funções, é de importância crucial para a compreensão dos processos evolutivos. O principal problema conceitual parece estar no sentido de adaptação, como empregado por Gould & Vrba (1982). Este conceito é fortemente teleológico e presume um potencial criativo para a Seleção Natural (ad aptus – em direção a uma aptidão). Assim, etimologicamente, adaptação já parece uma nomenclatura inapropriada. O termo aptação, entretanto, é desprovido de significados teleológicos e parece mais apropriado para se referir a qualquer característica de um organismo que interage operacionalmente com o ambiente, de forma que o organismo tenha seu ajustamento (fitness) aumentado, em uma definição semelhante à já proposta por Bock (1979) para adaptação.

 

Referências Bibliográficas:

BOCK, W. J. A synthetic explanation of macroevolutionary change – a reductionistic approach. Bulletin of the Carnegie Museum of Natural History, 13: 20-69, 1979.

BUSS, D. M.; HASELTON, M. G.; SHACKELFORD, T. K.; BLESKE, A. L.; WAKENFIELD, J. C. Adaptations, exaptations, and spandrels. American Psychologist, 53 (5): 533-548, 1998.

DENNETT, D. C. Darwin’s dangerous idea. New York: Simon & Schuster, 1995.

GOULD, S. J. & VRBA, E. S. Exaptation – a missing term in the Science of Form. Paleobiology, 8 (1): 4-15, 1982.

 

 

 

O lago como objeto de investigação ecológica, uma contribuição: Stephen A. Forbes (1887)

 

Fernanda da Rocha Brando Fernandez

Doutora em Educação para a Ciência pela UNESP-Bauru

Professora do Departamento de Biologia da FFCLRP-USP

ferbrando@ffclrp.usp.br

 

Lilian Al-Chueyr Pereira Martins

Especialista em História da Ciência; Doutora em Ciências Biológicas na área de Genética -UNICAMP

Professora do Departamento de Biologia da FFCLRP- USP, Pesquisadora CNPq

lacpm@ffclrp.usp.br

 

Resumo: A história da Ecologia mostra alguns ambientes que foram objeto de investigação cujo resultado foi a construção de importantes conceitos ecológicos. Estes ambientes foram três: a montanha, o lago e a ilha. O objetivo desta comunicação é discutir um estudo clássico dentro da história da ecologia cujo objeto é o lago. Trata-se do artigo intitulado “The lake as a microcosm” (“O lago como microcosmo”) de autoria de Stephen Alfred Forbes (1844 – 1930), publicado em 1887. A análise desenvolvida mostrou que Forbes se baseou em estudos anteriores que mostravam a existência de estratificação de flora e fauna em determinados ambientes e introduziu aspectos novos como as interações entre essas formas de vida e o ambiente, considerando todas as relações existentes em um lago como condição necessária para uma compreensão satisfatória de qualquer uma de suas partes.

 

Assim como a Genética, a Ecologia é uma ciência que pode ser considerada historicamente recente e tanto sua constituição em termos conceituais como seu processo de formação são bastante complexos. Embora possamos encontrar precedentes anteriormente, ela se estabeleceu e se institucionalizou durante o século XX. O caminho percorrido para se chegar à conceituação de Ecologia como “o estudo das relações mútuas que os seres vivos estabelecem entre si e com o ambiente externo, com base nas interações que ocorrem no mundo natural” (Brando et al, 2009) foi longo e envolveu muitas contribuições.

A história da ecologia mostra alguns ambientes que foram objeto de investigação cujo resultado foi a elaboração de importantes conceitos ecológicos. Estes ambientes foram três: a montanha, o lago e a ilha (Drouin, 1991, p. 93).

Os estudos que consideraram a montanha como unidade ecológica diziam respeito à botânica, relacionando-se especificamente à estratificação da vegetação. Tal enfoque já aparecia no Essai sur la geographie des plantes (Ensaio sobre a geografia das plantas) de autoria Alexander Von Humboldt (1769-1859) e Aimé Goujaud Bonpland (1773-1858), publicado em 1805. Posteriormente, este enfoque foi aplicado a vários estudos locais.

As investigações desenvolvidas no lago ocorreram principalmente em regiões temperadas. Pensava-se inicialmente que as cinturas de vegetação lacustre corresponderiam, em escala diferente, às estratificações de vegetação de montanha quando projetadas em um plano. Contudo, com o decorrer do tempo, a comparação entre os estudos desenvolvidos em montanhas e aqueles realizados em ambientes aquáticos mostrou que havia diferenças entre esses dois processos. Isso fez com que o lago passasse a ser considerado como um tipo de unidade ecológica com características próprias, com elementos que apresentavam fortes interações entre seus diversos componentes (Drouin, 1991, p. 100-101). Com o decorrer do tempo, pode se dizer que os lagos como unidade ecológica, geralmente aqueles de regiões temperadas, foram ambientes que proporcionaram a aproximação entre estudos da comunidade e de ecossistemas.

O terceiro ambiente objeto de investigação ecológica foi a ilha. A partir dos anos de 1960, as ilhas ganharam predileção nos embates teóricos, especialmente no interesse pelas populações que partilham entre si os recursos do meio (Drouin, 1991) e no padrão de colonização e extinção promovido por populações de espécies em uma determinada área (Begon, 2005). Esse enfoque aparece na teoria de biogeografia de ilhas e estão relacionados a esses estudos os nomes de Robert H. MacArthur e Edward O. Wilson (1963). Entre os exemplos estudados evidencia-se o da ilha de Krakatau, na Indonésia, que passou por uma erupção vulcânica, em 1883 destruindo sua fauna e flora e cujo repovoamento ao longo das décadas seguintes pôde ser observado. A generalização de estudos sobre as ilhas foi extrapolada aos meios continentais.

O objetivo desta comunicação é discutir um estudo clássico dentro da história da ecologia, cujo objeto é o lago, o artigo de Stephen Alfred Forbes (1844 – 1930) intitulado “The lake as a microcosm” (“O lago como microcosmo”), publicado em 1887.

Stephen Alfred Forbes nasceu em uma fazenda no Condado de Stevenson, Illinois, em 29 de Maio de 1844, onde passou sua juventude. Além da educação escolar comum até aos 14 anos, seus estudos mais formais no nível secundário foram de poucos meses durante o período de inverno de 1859-1860, na Beloit Academy, em Wisconsin. Depois da Guerra Civil Americana, ocorrida entre os anos de 1861 e 1865, estudou na Rush Medical College, em Chicago, onde quase completou seu curso de medicina, pois, devido à mudanças de planos, foi ser professor em uma escola no sul do Illinois. Durante este tempo, começou seus primeiros estudos em ciências naturais, nas horas de lazer, e teve seus primeiros artigos científicos publicados no American Entomologist and Botanist, em 1870. Foi o primeiro Diretor do Centro de Pesquisas de História Natural de Illinois (1917), sócio da Academia Nacional de Ciências (1918) e presidente da Sociedade Americana de Ecologia (1921). Sua ampla publicação inclui tópicos de Entomologia, Ornitologia, Ictiologia, Limnologia Ecologia e outras áreas da biologia (Ward, 1930).

No artigo (Forbes, 1887), que escreveu no período em que lecionava Zoologia e Entomologia na Illinois State University, o autor propôs relatar as características físicas, fauna e flora dos lagos por ele estudados. Seu objetivo principal era investigar a distribuição de plantas e animais nesses ambientes e suas interações. Procurou descrever de forma detalhada não apenas as características dos seres vivos ali encontrados como a metodologia por ele utilizada para levantar os dados necessários a esta investigação.

Forbes explicou que o lago era o local onde se podia perceber com maior clareza o que ele chamou de “sensibilidade” (sensibility) do complexo orgânico, pois tudo aquilo que afetava cada uma das espécies nele encontradas, acabava rapidamente tendo algum tipo influência sobre o conjunto. Assim, não bastava apenas estudar detalhadamente todas as formas isoladamente. Era necessário considerar a relação existente entre elas. Uma pesquisa abrangente do todo era condição necessária para uma compreensão satisfatória de qualquer parte. Por exemplo, se uma pessoa desejasse se familiarizar com o black bass (uma espécie de peixe) iria aprender pouco, caso se limitasse apenas ao estudo dessa espécie. Era preciso estudar também as espécies das quais dependia para sua existência e as várias condições envolvidas nessa dependência. Além disso, dever-se-ia estudar as espécies com as quais aquela competia e o conjunto de condições que afetavam a sua prosperidade. A seu ver, um estudo que levasse em conta esses aspectos levaria à descoberta do mecanismo de vida aquática de uma localidade (Forbes, 1887, p. 77). Além disso, ao traçar as conexões entre cientistas e pescadores locais subjacentes à pesquisa em lagos de várzea, Forbes teria mostrado como seus estudos estavam conectados ao conhecimento local e as políticas locais de transformação ambiental (Schneider, 2000).

A análise do trabalho desenvolvido por Forbes (1887), particularmente, e de outros autores tendo o lago como unidade ecológica ou aqueles desenvolvidos por outros autores cujo objeto de estudo foi a montanha ou a ilha, permitem que se tenha uma ideia de como conceitos, modelos e teorias que constituem a ecologia foram construídos. Estudos como esse podem ser aproveitados pelo professor em sala de aula, no ensino de ecologia. Eles desvelam aspectos sobre a natureza da ciência (Lederman, 2007) ou características da ciência (Matthews, 2012), podendo contribuir para uma melhor compreensão da ciência atual.

 

Referências Bibliográficas:

BRANDO, Fernanda R.; CAVASSAN, Osmar; CALDEIRA, A. M. Andrade. Ensino de Ecologia: dificuldades conceituais e metodológicas em alunos de iniciação científica, in: CALDEIRA, A. M. A. (Org.). Ensino de ciências e matemática II: temas sobre a formação de conceitos. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009, p. 13-31.

DROUIN, Jean-Marc. Reinventar a natureza: a ecologia e a sua história. Trad. Armando Pereira da Silva. Lisboa: Instituo Piaget, 1991.

FORBES, Stephen A. The lake as a microcosm [1887]. Bulletin of Illionois State Natural History Survey, 15: 537-550, 1925.

HUMBOLDT, Alexandre Von; BONPLAND, Aimé Goujaud Bonpland. Essai sur la géographie des plantes, 1805.

LEDERMAN, Norman G. Nature of science: past, present and future. Handbook of science education. New York: Routledge, 2007.

MATTHEWS, Michael R. Changing the focus: From nature of science (NOS) to features of science (FOS), in: KHINE, Myint S (ed.). Advances in nature of science research: concepts and methodologies. Netherlands: Springer, 2012.

McINTOSH, Robert P. The background of ecology: concept and theory. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

SCHNEIDER, Daniel W. Local Knowledge, Environmental Politics, and the Founding of Ecology in the United States: Stephen Forbes and "The Lake as a Microcosm" (1887). Isis, 91 (4): 681-705, 2000. Disponível em:  http://www.jstor.org/stable/236820. Acesso em: 17 de julho de 2012.

WARD, Henry B. Stephen Alfred Forbes - A Tribute. Science, New Series, 71 (1841): 378-381, 1930. Disponível em http://www.jstor.org/stable/1656242. Acesso em: 17 de julho de 2012.

 

 

A epistemologia do genoma: o determinismo genético como fio condutor

 

Fernanda Peres Ramos

Doutoranda do Programa de Ensino de Ciência e Educação Matemática, Uel

 Professora Assistente-Universidade Tecnológica Federal do Paraná, UTFPR, Campus Dois Vizinhos

fernandaramos@utfpr.edu.br

 

Marcos Rodrigues da Silva

Doutor em Filosofia, Professor Adjunto

Departamento de Filosofia, Uel, Londrina

mrs.marcos@uel.br

 

Resumo: Nas últimas décadas do século XX, cientistas envolvidos com a genética molecular direcionaram suas pesquisas na busca em compreender o funcionamento humano por meio da proposição de um projeto intitulado Projeto Genoma Humano (PGH). Dentre as divulgações sobre as expectativas do projeto estava a compreensão da composição do ser humano e o desenvolvimento de várias produções científicas de alcance popular como a cura de doenças, terapias gênicas e intervenções genéticas. O PGH teve suas conclusões no início do século XXI por meio de publicações da esfera pública e privada. Com os resultados surgiram dados distintos dos apontamentos publicados no início da pesquisa, trazendo para o âmbito epistemológico discussões sobre conceitos consagrados como o gene. Faz parte dos objetivos dessa pesquisa identificar o viés epistemológico que contornou todo o percurso do projeto e ainda compreender de que modo isso alcançou o público leigo por meio de suas publicações. Tais questões permitem uma triagem nas pesquisas contemporâneas realizadas no cenário pós-genômico de modo a identificar possíveis reincidências da estrutura epistemológica permeada ao longo do PGH. Observou-se neste estudo histórico-epistemológico a presença de um determinismo genético reincidente na atualidade por meio das perspectivas pós-genômicas.

 

Nas últimas décadas do século XX, cientistas envolvidos com a genética molecular direcionam suas pesquisas na busca em compreender o funcionamento. Nessa atmosfera social e científica, em meados da década de 1980, cientistas iniciam discussões sobre o desenvolvimento desse projeto com o objetivo de mapear o genoma humano e identificar todos os nucleotídeos. Constituía-se em cena científica o denominado PGH e se iniciava um esforço de alcance mundial para decifrar o genoma humano (Leite, 2007, p. 10).

Em 1990, o projeto foi fundado oficialmente, com um financiamento de 3 milhões de dólares do Departamento de Energia dos Estados Unidos e dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, e tinha um prazo previsto de 15 anos. Para tanto, centenas de laboratórios de todo o mundo se uniram à tarefa de sequenciar, um a um, os genes que codificam as proteínas do corpo humano e também aquelas sequências de DNA que não seriam genes (International, 2001, p. 860).

Em meados de 2000 um primeiro esboço do genoma foi anunciado, dois anos antes do previsto. O PGH teve suas conclusões em 14 de abril de 2003, e em um comunicado de imprensa conjunto anunciou que o projeto havia sido concluído com sucesso, com o sequenciamento de 99% do genoma humano, com uma precisão de 99,99%. Os trabalhos do projeto foram dados como concluídos em 2003 (Watson; Berry, 2005, p. 213).

Entre os resultados surgiram dados distintos dos apontamentos publicados no início da pesquisa, trazendo para o âmbito epistemológico discussões sobre conceitos consagrados como o gene. Ora, não restam dúvidas de que o PGH mostrou-se como um dos maiores projetos da genética na atualidade. Entretanto, dentro desse episódio houve microcenários que ditaram o projeto em âmbito mundial, caracterizando-se por meio do alcance midiático e apropriação do público leigo.

Diante disso surgem algumas questões importantes o desdobramento dessa pesquisa: quais aspectos fomentam tanta comoção pública em relação a esse projeto? Qual o viés epistemológico que contornou o percurso desse projeto alcançando o público leigo por meio de suas publicações?

Infere-se que o ponto de partida para essa compreensão inicia-se a partir da identificação das expectativas veiculadas na época. No que tange a área de saúde havia como expectativas a melhoria e simplificação dos métodos de diagnóstico de doenças genéticas, afirmando-se que seria possível analisar milhares de genes, identificando-se predisposições para doenças como diabete, câncer, hipertensão ou doença de Alzheimer, além de viabilizar o tratamento ante do aparecimento dos sintomas por remédios receitados conforme o perfil genético de cada um (Zatz, 2000, p. 47).

Durante o PGH, as publicações veiculadas apresentavam expectativas baseadas na crença do material genético como detentor de todas as informações codificadas (necessárias e suficientes) para determinar as características, e, logo, preponderantes em relação às interferências microambientais para a expressão gênica (Burbano, 2006, p. 854). É importante enfatizar que todo o rol de expectativas no que se refere ao PGH está baseado na ideia de que o material genético seja um dos mecanismos mais importantes para a compreensão do ser humano e a cura de doenças com carga hereditária.

Todavia a apropriação do público leigo ocorre devido à credibilidade que a maioria das pessoas vincula à ciência como forma segura de produção de conhecimento. O PGH mostra-se como uma ilustração de produção e aceitação desse conhecimento. Porém, com os resultados parciais no ano de 2001 infere-se o início de algumas mudanças conceituais, havendo um deslocamento da redução científica quanto ao sequenciamento gênico como forma de compreensão do ser humano e o desvendamento das doenças, para uma apropriação de níveis de complexidade imersos nesse aglomerado químico denominado de DNA.

Afirma-se que ao longo das expectativas direcionadas pelo cenário genômico existe um discurso epistemológico que dita esse projeto tanto na mentalidade dos cientistas quanto na sua reprodução via mídia e até expressa nas relações políticas e econômicas. Mas afinal qual o viés epistemológico que funcionou como fio condutor para a veiculação das expectativas articuladas pelos cientistas e recontextualizadas via divulgação midiática?

Durante o PGH se estabeleceu uma noção causal de conhecimento entre genoma e compreensão do ser humano, ignorando-se um abismo existente entre “informação genética e significado biológico” (Keller, 2002, p. 19). A ilustração mais nítida desse determinismo no projeto pode ser observada pela responsabilidade dada ao material genético como cumpridor de todas as metas direcionadas ao PGH.

Esse formato de credibilidade epistemológica do genoma é denominado por autores como El-Hani (1995) e Leite (2007) de determinismo genético, conceituado como a redução dos processos de desenvolvimento a um simples desdobramento de um programa genético, de forma que as propriedades dos organismos podem ser vistas como preestabelecidas pela informação genética (El-Hani, 1995, p. 16). No PGH o determinismo se revelou presente nas expectativas divulgadas, as quais fomentaram uma crença salvacionista em relação ao mapeamento genético como alternativa única e direta para a compreensão do ser humano, alcançando o publico leigo.

Keller (2002, p. 17) sinaliza que ao longo do projeto vários cientistas foram mudando seu modo de pensar, porém afirma que, no início, “muitos biólogos falavam como se o sequenciamento pudesse, por si só, prover tudo o que era necessário para compreender a função biológica”. Entretanto, apesar de deslocamentos de valores sobre os conhecimentos genéticos, até a publicação dos resultados do PGH apareceram fortes indícios da crença no DNA como detentor direto das expressões gênicas, revelando a persistência de um determinismo genético (Lewontin, 2000).

Para Joaquim e El-Hani (2010), o PGH teve efeitos surpreendentes sobre o pensamento biológico, possibilitando suspeitas com relação à visão reducionista predominante na biologia da segunda metade do século XX. Alguns autores como Keller (2005) inferem que talvez entre os desdobramentos desse cenário esteja à busca por novas abordagens na tentativa de romper o modelo determinista. No que se refere ao viés epistemológico, os resultados genômicos trouxeram a necessidade de novos redirecionamentos para os projetos posteriores e a busca de novas abordagens epistemológicas. Entretanto, o que se percebe é que durante todo o arcabouço das pesquisas genômicas apresenta-se sempre, um modelo ainda reducionista, mesmo que amparado por diferentes nuances deterministas.

 

Referências Bibliográficas:

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LEITE, M. Promessas do Genoma. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

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Darwin e a ascendência do homem a partir de um ancestral primitivo comum na Origem do homem e na Expressão das emoções no homem e nos animais

 

Fernando Moreno Castilho

Mestre em História da Ciência, Professor do Departamento de Biologia, Centro Universitário Anhanguera de Santo André

Pesquisador do Grupo de História e Teoria da Biologia, Departamento de Biologia, FFCLRP–USP

biologo@universo.com

 

Resumo: Na década de 1870, Charles Darwin (1809-1882) trouxe o homem para o seu plano principal de estudo – o que vinha evitando desde a publicação do Origem das espécies (1859). Isso ocorreu com a publicação de duas obras: a Origem do homem e a seleção sexual (1871) e a Expressão das emoções no homem e nos animais (1872). O objetivo desta comunicação é averiguar qual foi a relação estabelecida por Darwin entre homens e macacos nas obras acima mencionadas procurando elucidar quais foram os principais meios de modificação das espécies adotados por ele para explicar a ascendência do homem a partir de um ancestral comum, tendo como base, principalmente, a expressão das emoções. A presente pesquisa levou à conclusão de que Darwin, através da comparação das semelhanças entre o comportamento de macacos e dos humanos, sugeriu que eles seriam provenientes de um ancestral comum. Este ancestral primitivo semi-humano pertencente ao gênero Homo teria originado o homem e os macacos antropomorfos do Velho e do Novo Mundo. Os principais meios de modificação em relação ao comportamento e a expressão das emoções no homem e nos animais, inclusive em macacos antropomorfos, de acordo com Darwin, teriam sido a seleção natural e a herança de caracteres adquiridos pelo uso e desuso.

 

Na década de 1870, Charles Darwin (1809-1882) trouxe o homem para o seu plano principal de estudo – o que vinha evitando desde a publicação do Origem das espécies (1859). Isso ocorreu com a publicação de duas obras: a Origem do homem e a seleção sexual (1871) e a Expressão das emoções no homem e nos animais (1872). Sua intenção inicial era publicar um ensaio sobre a expressão das diversas emoções no homem e nos animais como o terceiro volume da obra A origem do homem. Porém, acabou publicando-a em apenas dois volumes. No primeiro volume discutiu sobre a ascendência ou origem do homem, e no segundo tratou da seleção sexual e características sexuais secundárias nas classes pertencentes ao reino animal, dentre elas, a classe dos mamíferos e do homem (Barlow, 1958, p. 131-132).

O objetivo desta comunicação é verificar a relação estabelecida por Darwin entre homens e macacos nas obras acima mencionadas e procurar elucidar quais foram os principais meios de modificação das espécies adotados por ele para justificar a ascendência do homem a partir de um ancestral comum.

O interesse de Darwin pelo estudo da expressão das emoções teria surgido a partir das observações que fizera das diversas expressões exibidas pelo seu primeiro filho, ainda em fase precoce, logo após o seu nascimento, em 1839. Para ele, todas as formas de expressão exibidas pelo seu filho teriam tido uma origem gradativa e natural. Entretanto, a leitura que fizera, no ano seguinte, da obra An idea of a new anatomy of the brain (Uma idéia de uma nova anatomia do cérebro), publicada em 1811, pelo anatomista escocês Charles Bell (1774-1842) o estimulou a escrever sobre o assunto. Nesta obra, Bell, a partir de cuidadosos estudos do sistema nervoso e cérebro, havia concluído que determinados músculos no homem teriam sido criados especialmente para a expressão de suas emoções. Como essas ideias se opunham à hipótese de que o homem fosse descendente de alguma outra forma inferior, como Darwin pensava, ele decidiu investigá-la (Darwin, 1871, p. 5).

Thomas Henry Huxley (1825-1895) já havia publicado anteriormente (1863) Evidence as to Man's Place in Nature (Evidências quanto ao lugar do homem na natureza). Nesta obra apresentou evidências anatômicas que corroboravam a origem do homem e dos macacos a partir de um ancestral comum. Na defesa de sua teoria concentrou-se na relação do homem com os macacos utilizando argumentos que apoiavam sua hipótese a respeito da origem do homem (Huxley, 1863, p. 74).

Darwin, na Expressão das emoções, comentou sobre a dificuldade encontrada para detectar a origem dos hábitos de expressão dos nossos sentimentos e a maneira pela qual eles teriam sido adquiridos gradualmente através de certos movimentos musculares. Ele defendeu que somente avançaríamos na investigação das possíveis causas da expressão a partir do momento em que deixássemos de considerar o homem e todos os outros animais como criações independentes. Para o naturalista inglês, somente aqueles que admitissem, sob uma nova perspectiva, a evolução gradual da estrutura e dos hábitos de todos os animais e que no passado remoto o homem tivesse existido sob uma forma mais inferior e animalesca, poderiam compreender algumas das expressões nos humanos (Darwin, 1872, p. 12-20).

Em A origem do homem, Darwin comentou sobre a expressão de uma série de emoções que podiam ser detectadas tanto em diferentes animais como no homem como, por exemplo, a afeição materna das fêmeas de todas as espécies; a dor intensa das macacas pela perda dos filhotes; a adoção de macacos órfãos por outros do bando; a generosidade de certas fêmeas de babuínos ao adotarem macacos de outras espécies, além de roubarem cãezinhos e gatinhos para criar. Ele considerava que o princípio da sua ação seria o mesmo no homem e nos animais (Darwin, 1871, p. 33).

Na mesma obra, Darwin comparou as feições humanas com aquelas dos macacos antropoides, percebendo que havia várias semelhanças em relação aos movimentos dos músculos da face ao expressar as emoções. Destacando que algumas expressões como o choro e a risada de certos tipos de macacos, ao franzirem as pálpebras e repuxarem os cantos da boca para trás, seriam idênticas aquelas manifestadas no homem (Darwin, 1871, p. 129).

Ao analisar as diferenças entre o homem e os macacos, com o intuito de desvendar a sua descendência, Darwin considerou que essas características teriam sido provavelmente adquiridas como herança de alguma forma silvestre de parentesco próximo e atualmente extinto. Propôs a existência de um ancestral comum aos homens e macacos, que seria também o mais antigo ancestral comum dos macacos do Velho e do Novo Mundo, chegando até mesmo a sugerir como seria a forma desse antepassado primitivo (Darwin, 1871, p. 198-199).

Entretanto, foi na Expressão das emoções que ele aprofundou o assunto defendendo a descendência do homem e alguns grupos de macacos de um ancestral comum. Para isso, levou em consideração a semelhança encontrada entre algumas de suas formas de expressão. Para ilustrar essa semelhança, Darwin deu alguns exemplos. Um deles foi o modo pelo qual os chimpanzés jovens repuxavam os cantos da boca e enrugavam as pálpebras inferiores, quando eram submetidos a cócegas em suas axilas. Comparou este procedimento com a expressão exibida pelas crianças quando submetidas à mesma condição. Ele atribuiu a semelhança encontrada entre os dois casos à origem dos chimpanzés e humanos a partir de um ancestral primitivo comum (Darwin, 1872, p. 139-140).

Ao observar as reações de choro em seu filho durante determinados períodos de tempo chegou à conclusão de que o funcionamento das glândulas lacrimais teria sido adquirido desde o tempo em que o homem se separou, a partir do ancestral comum do gênero Homo, dos macacos antropomórficos que não lacrimejam (Darwin, 1872, p. 160-161).

As informações oferecidas por tratadores de zoológicos em relação ao carinho e amor de macacas para com suas crias levaram Darwin a comparar sua atitude com o que acontecia nos humanos, entre as mães e seus bebês. Para Darwin, esse comportamento, de gostar de acariciar e receber carinho, teria sido uma herança adquirida (Darwin, 1872, p. 224-225).

No décimo capítulo do livro Expressão das emoções ao abordar a manifestação da emoção da fúria em humanos, em comparação aos macacos, Darwin considerou que ela estaria condicionada a nossa descendência de um animal semelhante ao macaco. Como referência a este ancestral primitivo, Darwin utilizou o termo semi-humano, ao comparar as suas reações com aquelas reações voluntárias de descobrir um dos caninos, na expressão das emoções de ódio e raiva exibidas pelo homem. Ele comentou que esse hábito teria sido adquirido em tempos primitivos, quando esses ancestrais combatiam entre si com seus dentes caninos, como alguns babuínos e outros macacos antropomorfos ainda o fazem hoje em dia (Darwin, 1872, p. 250-254).

A presente pesquisa levou à conclusão de que Darwin, através da comparação das semelhanças entre o comportamento de macacos e dos humanos, procurou mostrar sua descendência a partir de um ancestral comum. Além disso, constatamos que os principais meios de modificação das espécies, foram a seleção natural e a herança de caracteres adquiridos pelo uso e desuso. Como exemplo, ele mencionou a preservação e a transmissão das ações reflexas que pudessem trazer algum benefício e o desenvolvimento pela força do hábito de alguns instintos que teriam sido preservados por meio da seleção natural (Darwin, 1872, p. 43-44). Sugeriu um ancestral primitivo semi-humano do gênero Homo como tendo originado o homem e os macacos antropomorfos do Velho e do Novo Mundo. Vale lembrar que, na Origem do homem ele não tratou das emoções sentidas pelo homem.

 

Referências Bibliográficas:

BARLOW, N. (ed.). The autobiography of Charles Darwin, 1809-1882. New York / London: Norton & Company, 1958.

CASTILHO, Fernando Moreno. Concepções evolutivas de Darwin na Origem das espécies (1859) e na Expressão das emoções no homem e nos animais (1872): um estudo comparativo. Dissertação (Mestrado em História da Ciência) – Pontifícia Universidade Catolólica, São Paulo, 2010.

DARWIN, Charles Robert. The descent of man, and selection in relation to sex. Volume I, 1st ed.  London: John Murray. 1871.

–––––. The descent of man, and selection in relation to sex. Volume II,  1st ed. 1871, London: John Murray..

–––––. The expression of emotions in man and animals. London: John Murray, 1872.

–––––. The origin of species by means of natural selection. 6th edition. London: John Murray, 1872.

HUXLEY, Thomas H. On the Relations of Man to the Lower Animals, in: HUXLEY, Thomas H. Evidence as to man's place in nature. New York: D. Appleton & Company, 1863.

MAYR, Ernst. The growth of biological thought: diversity, evolution and inheritance. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1982.

 

 

Warren Weaver: Presupuestos epistemológicos y axiológicos en la dirección de la División de Ciencias Naturales de la Fundación Rockefeller

 

Francisco Javier Serrano Bosquet

Doctor en Filosofía, Professor Assistente

Departamento de Filosofía y Ética, Escuela de Negocios, Ciencias Sociales y Humanidades, ENCSH, Tecnológico de Monterrey, Mexico

fjavierserrano@itesm.mx

 

Resumo: Warren Weaver, director de la División de Ciencias Naturales y Agricultura de la Fundación Rockefeller entre 1932 y 1955 fue uno de los principales protagonistas de la revolución que experimentaron las ciencias de la vida durante el siglo XX. Con el dinero de la Fundación no sólo equipó laboratorios o financió universidades y carreras, también atrajo la atención de científicos de distintas áreas y puso en marcha números proyectos interdisciplinarios de investigación. Pero Weaver fue, ante todo, clave en el desarrollo y difusión de una concepción de ciencia y tecnología cargada de tintes ideológicos. El objetivo de esta ponencia es poner al descubierto la concepción de ciencia de Weaver, ver en qué forma dicha concepción pudo condicionar su trabajo en la Fundación Rockefeller y, con ello, el desarrollo de la investigación biológica. Para tal fin se mostrará en primer lugar las principales áreas de desarrollo, investigación y cooperación que se desarrollaron bajo su dirección para centrarnos, posteriormente, en su concepción de ciencia, de explicación y metodología de investigación científica. Veremos porqué y en qué sentido consideraba que la ciencia y la tecnología tenían ante todo una extraordinaria responsabilidad y fin social y qué había que hacer ante la urgente necesidad de desarrollar nuevos modelos de gestión y financiación de la investigación científica.

 

Warren Weaver, director de la División de Ciencias Naturales y Agricultura de la Fundación Rockefeller entre 1932 y 1955, y vice-presidente de la misma entre 1959 y 1964, fue uno de los principales responsables del extraordinario desarrollo que las ciencias de la vida experimentaron durante el siglo XX. Con el dinero de la Fundación Rockefeller fue capaz no sólo de equipar numerosos laboratorios o financiar universidades y carreras, también supo atraer la atención de jóvenes científicos de distintas áreas y poner en marcha números proyectos interdisciplinarios de investigación. Su papel fue clave, sin lugar a dudas, para el desarrollo de nuevas formas de investigación, pero también lo fue para la difusión internacional de una concepción de ciencia y tecnología cargada de tintes ideológicos.

Para Weaver la ciencia en general y la biología en particular debían estar al servicio de la gente (Weaver, 1955). Eso significaba ante todo que la ciencia –bajo una clara perspectiva Malthusiana– debía responder a dos de las principales necesidades de una población mundial en constante crecimiento: alimento y energía. Pero, ¿cómo hacerlo? Para Weaver había que pensar y plantear las posibles soluciones siempre desde diversos ángulos y perspectivas. La principal tenía que ser desde luego la científica, y en ese sentido Warren Weaver apostó por el desarrollo de un nuevo tipo de investigación biológica que permitiera utilizar las habilidades, técnicas y tecnologías desarrolladas y aplicadas ya exitosamente en la química y la física. Por otro lado, la ciencia y la tecnología debían también pensarse según Weaver desde una perspectiva política, económica y social. A fin de cuentas, señalaba, ambas –ciencia y tecnología– son una cuestión de Estado. En sus propias palabras, son clave “en la defensa de nuestro país y en la tarea más amplia de velar por aquellos otros lugares del mundo que comparten nuestra filosofía según la cual lo importante es la unión de la responsabilidad colectiva y la libertad individual (…) Una defensa de la democracia moderna que hoy en día no se limita de ninguna manera a la esfera militar. El prestigio de nuestro país y el respeto en todo el mundo de nuestros ideales dependen en gran medida de que nuestra eficacia científica en la solución de problemas planetarios relacionados con la salud y la agricultura, asemeje el éxito que tenemos en zonas tan espectaculares como la física de alta energía, la investigación espacial, la radio-astronomía, la investigación ártica y, de manera más amplia y fundamentalmente, en la riqueza en general, el vigor y carácter imaginativo de nuestra actividad científica nacional” (Weaver, 1961, pág. 67).

Este es sólo un ejemplo de los numerosos presupuestos y predisposiciones bajo las cuales Warren Weaver dirigió la División de Ciencias Naturales y Agricultura de la Fundación Rockefeller. El objetivo de esta presentación es compartir algunos de los primeros resultados obtenidos durante las investigaciones llevadas a cabo dentro del Proyecto de investigación número 168062 financiado por CONACYT. Un proyecto que si bien lleva por título “La influencia de la concepción de ciencia de la Fundación Rockefeller en el desarrollo de la investigación biológica y agrícola mexicana”, nos permite en esta ocasión presentar algunos resultados generales en torno al análisis de la concepción de ciencia de Warren Weaver y la forma en la que ésta pudo condicionar su gestión. Concretamente, mostraremos en primer lugar y a modo de introducción las principales áreas de desarrollo, investigación y cooperación que se desarrollaron bajo la dirección de Weaver para, posteriormente, centrarnos en su concepción de ciencia, de explicación y metodología de investigación científica, así como los principales problemas a los que ésta –la ciencia– debía responder. Unas concepciones que están ligadas, tal y como mostraremos posteriormente, al extraordinario papel social que según el autor la ciencia juega o debería jugar. Ahora bien, para que la ciencia pueda llegar a alcanzar el desarrollo que permita superar los principales problemas que debe resolver, es necesario según Weaver, desarrollar nuevos modelos de gestión y financiación de investigación científica. Desde su posición privilegiada dentro de la Fundación Rockefeller, pudo ser testigo directo de ello, pero también de la extraordinaria importancia de la ciencia y la tecnología, de su creciente complejidad, encarecimiento y, sobre todo, poder. El Proyecto Agrícola México (1943-1965) que se desarrolló en buena parte bajo su dirección es sólo un ejemplo de ello, de la importancia y trascendencia del papel de la ciencia, de la diversidad de factores, bienes e intereses que se mueven detrás de todo gran proyecto científico y de los múltiples factores –desde económicos hasta geopolíticos– que están en juego. Factores todos ello que, a la postre, condicionan todos los niveles y tipos de investigación. Pero dichos proyectos no sólo cambian nuestra concepción del mundo, también –como era su principal interés– lo transforman. De ahí que el estudio de los presupuestos epistemológicos y axiológicos del “principal banquero de la ciencia estadounidense” [Hager, Thomas (1998), p. 58], no tengan como fin sólo poder entender cómo éstos pudieron condicionar el desarrollo de la investigación biológica. Quisiéramos poder concluir con algunas notas –o al menos abrir el debate– en torno a la forma en la que dichos presupuestos pudieron cambiar parte del paisaje científico, político y social que rodeó algunas de las principales investigaciones científicas que se desarrollaron bajo su dirección.

 

Referências Bibliográficas:

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As relações conceituais sobre gene em livros didáticos

 

Francisco Paulo Caires Júnior

Graduando em Ciências Biológicas, UEL

caires88@hotmail.com

 

Eglaia de Carvalho

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Educação Matemática – UEL

eglaia@hotmail.com

 

Mariana A. B. S. de Andrade

Professora Adjunta Departamento de biologia Geral – UEL

mariana.bologna@gmail.com

 

Resumo: A aprendizagem sobre o conceito de gene é um desafio para o ensino de Biologia. Segundo Burian (2005), quando os pesquisadores utilizam o termo gene é possível assegurar que estão tratando da mesma entidade, apesar das diferenças de pontos de vista, terminologia e comprometimento teórico. Para o autor, um conceito é representado como um organismo interconectado de afirmações cujas características empregam alguns conceitos teóricos “básicos”. Buscamos com esse trabalho, utilizando a ideia de Burian (2005), analisar a relação que os livros didáticos estabelecem quando conceituam o termo gene. Procuramos perceber possíveis interconecções conceituais entre os livros analisados. Nos seis livros analisados buscou-se, a definição de gene. Utilizando o trabalho de Gerstein e colaboradores (2007) estipulamos cinco noções sobre o conceito de gene, que foram utilizadas como instrumento de análise dos livros. Percebe-se, que entre os livros didáticos analisados, ainda não há uma rede clara de conceitos/ideias/noções sobre o gene. O único termo existente em todos os livros analisados remete ao gene como uma sequencia de DNA. em duas categorias: transcrição de proteínas e de produtos funionais. Um possível caminho para a apresentação desse conceito seria transpassar o caráter de unidade hereditária, bem como uma sequência de DNA que dependendo do contexto celular, resultaria em diferentes produtos funcionais.

 

A aprendizagem sobre o conceito de gene é um desafio para o ensino Biologia, em especial pela influência do modelo determinista amplamente divulgado pela mídia, material didático e pelo discurso de professores da educação básica (Goldbach e El-Hani, 2008).

Segundo Burian (2005) a análise de como o uso do termo gene é utilizado pela comunidade científica permite afirmar que: é possível para os cientistas assegurarem que estão se referindo à mesma entidade apesar de suas diferenças de pontos de vista, terminologia e comprometimento teórico. Para o autor, um conceito é representado como um organismo interconectado de afirmações cujas características empregam alguns conceitos teóricos “básicos”.

Utilizaremos a ideia apresentada por Burian (2005) para analisar a relação que os livros didáticos estabelecem quando conceituam o termo gene. A pergunta que orienta nosso trabalho é: quais os conceitos básicos apresentados nos textos didáticos quando conceituam o termo gene? Buscamos com esse trabalho perceber quais as possíveis interconecções.

Foram analisados seis livros didáticos de biologia. Em cada livro buscou-se, em partes do texto ou no glossário, a definição de gene. Utilizando como referencial o trabalho de revisão histórica sobre o conceito de gene de Gerstein e colaboradores (2007), estipulamos cinco noções sobre o conceito de gene ao longo da história. Essas noções, algumas excludentes e outras complementares, foram utilizadas como instrumento de análise dos livros didáticos.

Na primeira divisão história apresentada pelos autores, o gene caracterizava-se como uma unidade discreta da hereditariedade (noção 1). As ideias básicas sobre conceito de gene podem ser encontradas desde 1866 com a publicação dos trabalhos clássicos de Mendel sobre a herança de características. O conceito mendeliano caracteriza um gene como “uma unidade física funcional de hereditariedade, a qual carrega informações de uma geração para outra” (Joaquim et al., 2007).

Nos anos de 1940 e 1950, o gene se materializa em uma estrutura física, um código para uma proteína (Gerstein et. al., 2007). A busca pela compreensão do código da vida teve um momento significativo com a publicação do trabalho sobre a estrutura da dupla–hélice da molécula de DNA por Watson e Crick. Esse trabalho possibilitou compreender que a transmissão da informação se dava por meio de especificidades genéticas em termos de propriedades combinatórias, através de um código de informação, contido na molécula de DNA. Para o autor o gene se caracteriza como uma sequência de DNA que possui um código para uma proteína (noção 2).

Em 1960, Charles Yanofsky, Sydney Brenner e colaboradores mostraram que o gene e seu produto polipeptídico eram estruturas colineares, que apresentavam uma correlação direta entre a sequência de pares de nucleotídeos, no gene, e a sequência de aminoácidos no polipeptídeo. Essa ideia foi complementada logo depois, com a descoberta de que alguns genes importantes codificam o RNA ribossômico (rRNA), RNA transportador (tRNA) e RNAs de pequeno tamanho (snRNA). Para Gerstein et al. (2007) esse período caracteriza o gene como uma sequência com um código que transcreve um produto funcional, aminoácido ou polipeptídeo (noção 3).

Segundo os autores, nos anos de 1990 e 2000, um número significativo de aspectos problemáticos como a regulação gênica, gene sobrepostos, o splicing alternativo e tran-splicing, colocaram, novamente, o conceito de gene em discussão. Acumularam-se evidências de que os genes possuem introns e exons (Mattick, 2003), sendo que alguns introns normalmente considerados como lixo molecular, em determinados contextos celulares poderiam fazer parte das proteínas e que, portanto as fitas de RNA deveriam ser processadas pós-transcripcionalmente. Nesta noção, o gene é considerado como um segmento de DNA que contribui, por meio de diferentes processos, para funções do fenótipo (noção 4).

Muitas observações e análises genéticas sobre os íntrons vêm constatando que essa parte do material genético tem papel fundamental na regulação gênica.

Com essa nova visão, a definição ficou resumida na expressão conhecida de um gene, várias proteínas que representava a noção de uma sequência de DNA que possui exons como segmentos independentes e, que estes exons, dependendo do contexto celular poderiam traduzir proteínas diferentes. Desta forma, a definição que atendeu estas mudanças conceituais ficaria como uma sequência de DNA com introns e exons e que, dependendo do contexto celular, ambos podem formar parte de cadeias polipeptídicas diferentes (noção 5) (Keller, 2000).

A partir destas informações elaboramos uma tabela (1) para relacionar qual(is) noções sobre gene os livros didáticos se aproximam quando conceituam o termo.

 

LIVROS

TRECHO DO LIVRO

NOÇÕES

1

2

3

4

5

L1

Gene é uma sequência de nucleotídeos de DNA que pode ser transcrita em uma versão de RNA.”

 

 

X

 

 

L2

“Os genes estão no núcleo das células e influenciam as características dos seres vivos. São transmitidos dos pais para os filhos e formados, em geral, por uma substância química chamada ácido desoxirribonucleico (DNA).”

X

 

 

X

X

L3

“Menor porção do DNA capaz de produzir um efeito que pode ser detectado no organismo, ou, região do DNA que pode ser transcrita em moléculas de RNA.”

 

 

X

 

 

L4

“Trechos da molécula de DNA [...] que funcionam como um código: determinadas sequências correspondem a um determinado aminoácido [...]. Os genes enviam a ‘receita’ para a produção de proteínas [...] Sequência de nucleotídeos em uma região do DNA que contém a informação genética.”

 

 

X

 

 

L5

“Porção (segmento) da molécula de DNA capaz de codificar a síntese de uma determinada proteína”.

 

X

 

 

 

L6

“É a unidade básica da hereditariedade [...]. Pedaço da molécula de DNA que contém as informações para a produção de um tipo de proteína.”

“Segmento da molécula de DNA, no qual está codificada uma característica hereditária”.

X

X

 

 

 

Tabela 1: relações conceituais sobre gene em livros didáticos.

Percebe-se, que entre os livros didáticos analisados, ainda não há uma rede clara de conceitos/ideias/noções sobre o gene. O único termo existente em todos os livros analisados remete ao gene como uma sequencia de DNA, mesmo essa ideia se divide em duas categorias transcrição de proteínas e de produtos funionais.

Ao colocarmos o Livro 2 na categoria 5 não estamos considerando que o conceito apresentado refere-se à toda noção, a escolha deu-se pelo fato dos autores considerarem o contexto celular.

Desta forma, o conceito de gene deve ser compreendido como um objeto que tem sua existência vinculada a outros objetos. Pela análise feita nos livros didáticos, ainda não há nesses materiais um consenso desses objetivos. Um possível caminho para a apresentação desse conceito seria transpassar o caráter de unidade hereditária, bem como uma sequência de DNA que dependendo do contexto celular, resultaria em diferentes produtos funcionais.

 

Referências Bibliográficas:

BURIAN, Richard. M. The epistemology of development, evolution, and genetics: selected essays. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.

GERSTEIN, Mark. B.; BRUCE, Can; ROZOWSKY, Joel, S.; ZHENG, Deyou; DU, Jiang; KORBEL, Jan. O.; EMANUELSSOM, Olof; ZHANG, Zhengdong D.; WEISSMAN, Sherman.; SNYDER, Michael. What is a gene, post encode? History and updated definition. Genome research, 17: 669 – 681, 2007.

JOAQUIM, Leyla Mariane; EL HANI, Charbel Niño. A genética em transformação: crise e revisão do conceito de gene. Scientiae Studia, 08 (01): 93 – 128, 2010.

GOLDBACH, Tania; EL-HANI, Charbel Niño. Entre receitas, programas e códigos: metáforas e idéias sobre genes na divulgação científica e no contexto escolar. Alexandria, 1, (1): 153 – 189, 2008.

KELLER, Evelyn Fox. The century of the gene. Cambridge: Harvard University Press, 2000.

MATTICK, John. S. Challenging the dogma: the hidden layer of non-protein-coding RNAs in complex organisms. Bioessays, 5: 930-939, 2003.

 

 

Uma dificuldade especial de Darwin: a origem dos órgãos elétricos dos Peixes

 

Gerda Maisa Jensen

Doutoranda em Ciências pelo Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Usp

Professora da Rede Municipal de São Paulo

maisajensen@ig.com.br

 

Resumo: Nesta comunicação é apresentada uma análise histórica das explicações sobre a origem dos órgãos elétricos de certos tipos de peixes por dois naturalistas um do início e outro do meio do século XIX. Étienne Geoffroy Saint Hilaire (1772-1844) descreveu a anatomia desses órgãos em 1802, na obra Mémoire sur l’anatomie comparée des organs électriques de la raie torpille, du gymnote engourdissant, et du silure trembleur e estabeleceu a analogia anatômica entre eles e deles com a garrafa de Leyden. Em 1859, a origem desses órgãos foi apresentada por Charles Darwin (1809-1882) como uma das dificuldades especiais para a sua teoria da seleção natural no livro On the origin of species. Darwin fez mais considerações a esse respeito, na quarta (1866) e na sexta (1872) edição. Foram analisadas ainda quinze cartas trocadas com alguns naturalistas seus contemporâneos e publicadas até agora sobre o mesmo tema, entre os anos 1856 e 1869, a fim de compreendermos os argumentos sobre esta dificuldade para a sua teoria. Darwin deixou de considerar impossível saber por quais passos graduais teriam surgido os órgãos elétricos a partir de um ancestral comum em peixes pertencentes a diferentes classes. Depois de discutir a analogia e a homologia com outros órgãos, passou a considerar que a dificuldade tornara-se ainda maior, ou seja a de explicar por quais passos graduais teriam surgido órgãos elétricos em cada um dos diferentes grupos de peixes.

 

Nesta comunicação é apresentada uma análise histórica das explicações sobre a origem dos órgãos elétricos de certos tipos de peixes por dois naturalistas um anterior a Darwin, Étienne Geoffroy Saint Hilaire (1779-1844), e outro do meio do século XIX, Charles Robert Darwin (1809-1882).

A existência de peixes que causam entorpecimento e dor nas presas e nas mãos de quem os toca chegou a ser considerada uma fábula, até que os Filósofos naturais dos séculos XVII e XVIII tomaram-no como objeto de investigação, procurando conhecer as suas causas por meio de estudos anatômicos e morfológicos, bem como por meio de experimentos.

Somente no terço final do século XVIII, em 1773, foi publicado um estudo experimental sobre o fenômeno causado pelo torpedo realizado pelo inglês John Walsh (1725-1795). Ele descreveu seu trabalho em carta endereçada a Benjamin Franklin, e publicou-o nos Philosofical Transactions da Royal Society. A publicação de 1773 consta de duas cartas endereçadas a Benjamim Franklin. Walsh não citou a hipótese de Réaumur em nenhuma das cartas, porém, defendeu desde os primeiros parágrafos, baseando-se na investigação da condução do choque, que o fenômeno do torpedo era um fenômeno elétrico (Walsh, 1773, p. 462). No entanto, na carta de 27 de agosto de 1772, escrita em Paris e que se referia aos torpedos estudados na Ile de Ré, Walsh, após ter descrito seus experimentos, não demonstrou o mesmo entusiasmo, tecendo considerações sobre possíveis contestações que poderiam ser feitas para os que comparavam o fenômeno do torpedo com aqueles da garrafa de Leyden uma vez que, nos peixes, não ocorria através do ar, nem era acompanhada de luz e som (Walsh, 1773, p. 474-75).

A garrafa de Leyden teve um impacto profundo nos estudos acerca da eletricidade à época. Tratava-se de uma garrafa de vidro tampada com uma rolha atravessada por um prego, dispositivo construído por volta de 1745, independentemente, por Ewald Georg Von Kleist (1700-1748), bispo da Pomerânia, em Amsterdã, atualmente pertencente à Província da Holanda do Norte (Países Baixos) e Pieter Von Mussenbroeck (1692-1761), holandês, na Universidade de Leyden, na atual Província da Holanda do Sul. A descarga elétrica da máquina elétrica, obtida pelo atrito, era conduzida por uma corrente de metal para uma vara de metal e desta para a água que estava dentro da garrafa e que era condutora, o vidro era um não condutor. A garrafa acumulava a eletricidade da máquina elétrica. A seguir, aproximava-se o prego da garrafa de um objeto qualquer e surgia uma faísca.

Étienne Geoffroy Saint Hilaire (1772-1844) “depois de tanto sucesso das pesquisas relativas aos fenômenos galvânicos” buscou explicação para o fato de peixes classificados àquela época (e também atualmente) em grupos tão diferentes, apresentarem analogia morfológica e anatômica entre os mesmos órgãos onde se reconheciam as propriedades elétricas (Saint Hilaire, 1802, p. 392) publicado em Paris nos Annales du Muséum National D’Histoire naturelle (Anais do Museu de História Natural) com o título Mémoire sur l’anatomie comparée des organes électriques de la raie torpille, du gymnote engourdissant, et du silure trembleur (Memória sobre a anatomia comparada dos órgãos elétricos da raia torpedo, do gimnoto entorpecedor e do siluro tremante).

Saint Hilaire fez uma descrição e comparação entre os órgãos elétricos dos três tipos de peixes e tudo indica que, pela primeira vez, no caso do siluro tremante. O autor concluiu que os órgãos elétricos apesar de algumas diferenças anatômicas e morfológicas eram a reunião de instrumentos simples comparáveis à reunião de várias garrafas de Leyden, tal qual afirmou o ilustre Lacépede (Saint Hilaire, 1802, p. 404). Ou seja, eram compostos por uma parte condutora de fluido elétrico, as células ricas em gelatina e albumina, e uma parte não condutora, as lâminas aponevróticas, que atravessam essa massa gelatinosa. No caso dos torpedos, suas propriedades dependiam desses elementos que chamou “idio-électriques” e “an-électriques” (Saint Hilaire, 1802, p. 404). Ainda afirmou que tudo se passa sem a influência de outros órgãos essenciais à vida dos peixes, quase no exterior desses animais.

Para Saint Hilaire, portanto, o fenômeno dos peixes não dependia da forma, nem da localização dos órgãos elétricos e nem do ramo nervoso que eram diferentes nos diferentes grupos de peixes estudados. Para ele, a analogia entre os órgãos elétricos, ou seja, a semelhança anatômica entre os órgãos elétricos de peixes pertencentes a diferentes grupos devia-se à presença das células ricas em gelatina e albumina que são condutoras como a água e as lâminas aponevróticas que são não condutoras como o vidro, de modo que o funcionamento delas seria tal e qual ao da garrafa de Leyden.

Em 1859, a origem desses órgãos foi apresentada pelo naturalista britânico Charles Darwin como uma das dificuldades especiais para a sua teoria da seleção natural no livro On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life (Sobre a origem das espécies por meio da selecção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida). Ele se baseou em três argumentos.

Darwin fez mais considerações a esse respeito, na quarta (1866) e na sexta (1872) edição. Foram analisadas ainda quinze cartas trocadas com alguns naturalistas seus contemporâneos e publicadas até agora sobre o mesmo tema, entre os anos 1856 e 1869, a fim de compreendermos os argumentos de Darwin para colocá-los como dificuldade da sua teoria.

Logo no primeiro volume das correspondências de Darwin os editores afirmam que desde 1836 ele questionava a fixidez das espécies enquanto organizava as suas anotações sobre pássaros que havia coletado durante a sua viagem a bordo do H.M.S. Beagle numa sua bem conhecida passagem. A partir de 1837, portanto, ele teria embarcado numa incessante busca de fatos para a construção de teorias para poder explicar esta visão transmutacionista sobre a origem das espécies (Burkhardt & Smith, 1985, p. xix).

Inicialmente Darwin considerou impossível saber por quais passos graduais teriam surgido os órgãos elétricos a partir de um ancestral comum em peixes pertencentes a diferentes classes (1859), mas, depois de discutir a analogia e a homologia destes órgãos com outros órgãos dos peixes, passou a considerar que a dificuldade tornara-se ainda maior, ou seja a de explicar por quais passos graduais teriam surgido órgãos elétricos em cada um dos diferentes grupos de peixes (1876).

 

Referências bibliográficas:

CARUS, J. V. para Darwin, C. R. Letter 6974 de 06/11/1869. Disponível em < http://www.darwinproject.ac.uk/entry-6974>. Acesso em: 15 de abril de 2013.

CLAPARÉDE, J. L. R. A. para Darwin, C. R. Letter 3715 de 08/09/1862. Disponível em < http://www.darwinproject.ac.uk/entry-3715>. Acesso em: 15 de abril de 2013.

DARWIN, Charles Robert. Chapter VI. Difficulties on theory. On the Origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life. [1st ed.]. London: John Murray 1859, p. 171-206. Disponível em http://darwin-online.org.uk. Acesso em: 22 de fevereiro de 2013.

_____. Chapter VI. Difficulties on theory. On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. [2nd ed.]. London: John Murray 1860, p. 176-206. Disponível em http://darwin-online.org.uk.  Acesso em: 22 de fevereiro de 2013.

_____. Chapter VI. Difficulties on theory. On the Origin http://darwin-online.org.ukof Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. [3rd ed.]. London: John Murray, 1861, p. 189-226. Disponível em < http://darwin-online.org.uk>. Acesso em: 22 de fevereiro de 2013..

_____. Chapter VI. Difficulties on theory. On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. [4th ed.]. London: John Murray, 1866, p. 199-247. Disponível em http://darwin-online.org.uk.  Acesso em: 22 de fevereiro de 2013.

_____. Chapter VI. Difficulties on theory. On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. [5th ed.]. London: John Murray 1869, pg. 207-254. Disponível em http://darwin-online.org.uk. Acesso em: 22 de fevereiro de 2013.

_____. Chapter VI. Difficulties on theory. On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. [6th ed.]. London: John Murray, 1872, p. 133-167. Disponível em http://darwin-online.org.uk. Acesso em: 22 de fevereiro de 2013.

_____. Chapter VI. Difficulties on theory. On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life.  [6th ed.rev.]. London: John Murray, 1876, p. 133-167. Disponível em http://darwin-online.org.uk.  Acesso em: 22 de fevereiro de 2013.

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DARWIN, Charles Robert para Lyell, Charles. Letter 2925 de 23/09/1860. Darwin Correspondence Database. Disponível em http://www.darwinproject.ac.uk/entry-2925 . Acesso em: 15 de abril de 2013.

DARWIN, Charles Robert para Bronn, H.G. Letter 2940 de 05/10/1860. Darwin Correspondence Database. Disponível em http://www.darwinproject.ac.uk/entry-2940>. Acesso em: 15 de abril de 2013.

DARWIN, Charles Robert para Huxley, T.H. Letter 2986 de 18/11/1860. Darwin Correspondence Database. Disponível em < http://www.darwinproject.ac.uk/entry-2986>. Acesso em: 15 de abril de 2013.

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DARWIN, Charles Robert para Wymann, Jeffries. Letter 3005 de 03/12/1860. Darwin Correspondence Database. Disponível em < http://www.darwinproject.ac.uk/entry-3005>. Acesso em: 15 de abril de 2013.

DARWIN, Charles Robert para Muller, J. F. T. Letter 4881 de 10/08/1865. Darwin Correspondence Database. Disponível em < http://www.darwinproject.ac.uk/entry-4881>. Acesso em: 15 de abril de 2013.

DARWIN, Charles Robert para Muller, J. Letter 3056 de 03/02/1861. Darwin Correspondence Database. Disponível em < http://www.darwinproject.ac.uk/entry-3056>. Acesso em: 15 de abril de 2013.

DARWIN, Charles Robert para Wymann, J. F. T. Letter 4881 de 10/08/1865. Darwin Correspondence Database. Disponível em < http://www.darwinproject.ac.uk/entry-4881>.  Acesso em: 15 de abril de 2013.

DARWIN, Charles Robert para Lewes, G. H. Letter 6308 de 07/08/1868. Darwin Correspondence Database. Disponível em < http://www.darwinproject.ac.uk/entry-6308>. Acesso em: 15 de abril de 2013.

FREIRE-MAIA, Newton. Teoria da Evolução: de Darwin à teoria sintética. Coleção “O Homem e a Ciência”, volume 2. São Paulo: Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1988.

HOLLAND, H. para Darwin, C.R. Letter 2578 de 10/12/1859. Disponível em < http://www.darwinproject.ac.uk/entry-2578>. Acesso em: 15 de abril de 2013.

PICCOLINO, Marco. Electric fishes research in the nineteenth century, following the steps of Carlo Matteucci and Giuseppe Moruzzi. Archives Italiennes de Biologie, 149 (Suppl.): 10-17, 2011. Disponível em http://www.architalbiol.org/aib/article/viewFile/1452/pdf-24. Acesso em: 05 de março de 2013.

RECHT, Georg para Darwin, C.R. Letter 6656 de 11/03/1869. Disponível em < http://www.darwinproject.ac.uk/entry-6656>. Acesso em: 15 de abril de 2013.

SAINT-HILAIRE, Etienne Geoffroy. Mémoire sur compare des organs électriques de la raie torpille, du gymnote engourdissante, et du silure trembleur.  Annales du Muséum Nationale d’Histoire Naturelle, 1: 392-407, 1802.

SCOTT, J. para Darwin, C. R. Letter 3847 de 06/12/1862. Disponível em <http://www.darwinproject.ac.uk/entry-3847>. Acesso em: 15 de abril de 2013.

 

 

Investigações sobre o conceito de monera de Ernst Haeckel

 

Guilherme Francisco Santos

Doutorando em filosofia

Departamento de filosofia - FFLCH-USP

guilherme.fsantos@usp.br

 

Resumo: O objetivo dessa comunicação é destacar alguns elementos para uma investigação sobre o conceito de monera do zoólogo alemão Ernst Haeckel (1834-1919). Haeckel construiu sob o termo monera um conceito com o qual ele procurou tratar questões relativas à natureza dos elementos orgânicos fundamentais, à forma e composição dos organismos complexos, à individualidade orgânica e à origem da vida e da evolução, dentre outras. Tal conceito, formulado e desenvolvido por ele, ocupa um lugar central dentro de sua proposta de uma morfologia evolucionista. As moneras são para Haeckel os organismos mais simples e primitivos, ou seja, seres vivos cujo corpo se constitui de uma simples massa homogênea e não estruturada de protoplasma. Haeckel destacou na sua obra fundamental de 1866, a Morfologia Geral, e reafirmou em sua Monografia das Moneras de 1868, que ele aplica o termo monera aos seres vivos que exibem uma simplicidade morfológica extrema. Destacam-se desse conjunto de questões dois problemas associados: Por meio dos seus estudos sobre as moneras Haeckel procurou formular uma resposta para a questão referente à origem da vida, defendendo a existência de um caminho natural que conduzia do inorgânico ao orgânico; além disso, Haeckel buscou oferecer com o conceito de monera as bases para uma resposta geral à questão sobre a origem e a natureza da individualidade orgânica. Do ponto de vista teórico, o problema colocado pela perspectiva haeckeliana é o da possibilidade de conceber consistentemente a unidade e a individualidade das formas orgânicas fundamentais sem desconectar a sua gênese e a sua natureza própria do todo natural do qual se originam.

 

O objetivo desta comunicação é destacar alguns elementos para uma investigação sobre o conceito de monera do zoólogo alemão Ernst Haeckel (1834-1919). Haeckel construiu sob o termo monera um conceito com o qual ele procurou tratar questões relativas à natureza dos elementos orgânicos fundamentais, à forma e composição dos organismos complexos, à individualidade orgânica e à origem da vida e da evolução, dentre outras. Tal conceito, formulado e desenvolvido por ele, ocupa um lugar central dentro de sua proposta de uma morfologia evolucionista. As moneras são para Haeckel os organismos mais simples e primitivos, ou seja, seres vivos cujo corpo se constitui de uma simples massa homogênea e não estruturada de protoplasma. Haeckel destacou na sua obra fundamental de 1866, a Morfologia Geral, e reafirmou em sua Monografia das Moneras de 1868, que ele aplica o termo monera aos seres vivos que exibem uma simplicidade morfológica extrema. Trata-se, portanto, das formas orgânicas no seu mais baixo estado de organização, pois “todo o seu corpo, numa condição de desenvolvimento pleno e movimento livre, consiste de uma substância plenamente homogênea e sem estrutura, uma porção viva de albumina capaz de realizar a nutrição e a reprodução” (Haeckel [1868], 1869 p. 28). Essa porção de albumina que se mantém em união constante tem uma forma externa irregular e mutável, mas globular quando em repouso e nela não se detectam internamente partes dissimilares. Nelas está ausente a complexidade morfológica que caracteriza os demais seres vivos os quais, mesmo nas suas formas unicelulares apresentam uma distinção de partes, o protoplasma e o núcleo. Ao contrário destes, nas moneras todas as diferentes funções da existência, nutrição, reprodução, sensação e locomoção se efetuam sem tal diferenciação, pois “cada partícula do corpo de uma monera pode efetuar tudo o que efetua o conjunto do seu organismo” (Haeckel [1876], 1919, p. 26).

Destacam-se desse conjunto de questões dois problemas associados que estão no cerne da formulação do conceito de monera. Em primeiro lugar, por meio dos seus estudos sobre as moneras Haeckel procurou formular uma resposta para a questão referente à origem da vida, defendendo a existência de um caminho natural que conduzia do inorgânico ao orgânico, fenômeno ou processo comumente referido como geração espontânea e que ele denominou autogonia (geração de si mesmo). Dentro dessa linha particular de investigação o autor envidou ainda esforços no sentido de estabelecer a própria natureza fundamental do vivo, isto é, o caráter distintivo do fenômeno vital. Em segundo lugar, Haeckel buscou oferecer com o conceito de monera as bases para uma resposta geral à questão sobre a origem e a natureza da individualidade orgânica. Nesse ponto Haeckel estava interessado em compreender a partir das moneras o fenômeno da individuação biológica ou o processo de geração do indivíduo biológico enquanto um ser morfologicamente definido. Para ele o aparecimento da estruturação morfológica no seu nível mais elementar ou primário, que significa o aparecimento do próprio indivíduo, sempre depende de uma atividade fisiológica primordial que lhe é, portanto, necessariamente anterior. É de se destacar dois aspectos quanto a essa linha particular de investigação. De um lado, Haeckel buscará, coerentemente com seus princípios biogenéticos, envolver tanto a dimensão evolutiva quanto a ontogenética nos seus estudos sobre o processo da individuação. Por outro lado, sua discussão sobre as moneras e o surgimento da individuação orgânica elementar servirá, segundo cremos, como um modelo geral para sua compreensão do processo de individuação em níveis de maior complexidade, por exemplo, na sua conceptualização da forma elementar dos metazoários.

Do ponto de vista teórico, o problema colocado pela perspectiva haeckeliana é o da possibilidade de conceber consistentemente a unidade e a individualidade das formas orgânicas fundamentais sem desconectar a sua gênese e a sua natureza própria do todo natural do qual se originam, isto é, de como desenvolver uma concepção de formas individuais que leve em conta necessariamente a sua íntima ligação com o universo natural, orgânico e inorgânico, e a noção de que tais formas individuais são elas mesmas, em certo sentido, uma expressão desse universo natural. Essa exigência de manutenção de uma unidade geral do meio natural com uma concepção genuína de indivíduo orgânico e de forma orgânica elementar envolverá a construção de um conceito de forma orgânica dentro de uma chave morfológica. O desenvolvimento de tal empreendimento envolve uma combinação de elementos teóricos e empíricos que têm por base as estratégias, as práticas e os resultados das investigações científicas de Haeckel.

 

Referências Bibliográficas:

HAECKEL, E. Generelle morphologie der organismen. Berlin: G. Reimer, 1866.

–––––. Monographie der moneren. Jenaische Zeitschrift für Medicin und Naturwissenschaft, 4: 64-144, 1868.

–––––. Monograph of Monera [1868]. Quarterly Journal of Microscopical Science, IX: 27-42, 113-134, 219-232 e 327-342,1869.

–––––. Natürliche Schöpfungsgeschichte [1868]. Berlin: G. Reimer, 1889.

–––––. Biologische Studien: Studien zur Gastraeatheorie. Jena: Hermann Dufft, 1877.

–––––. The History of Creation [1868]. Nova York: Appleton and Company, 1880.

–––––. História da Creação Natural [1879]. Porto: Chardron, 1930.

–––––. Perigenesis de las plastídulas. Pp. 7-80, in: Haeckel, E.  El Origen de la Vida [1876]. Buenos Aires: Editorial Tor, 1919.

–––––. Maravilhas da Vida [1904]. Porto: Lello & Irmão, 1963.

LENOIR, T. The strategy of life: teleology and mechanics in nineteenth century german biology, Dordrecht: D. Reidel Publishing Company, 1982.

RADL, E. M. Historia de las teorias biológicas. Madrid: Alianza, 1988 [1913].

RICHARDS, R. J. The tragic sense of life, Chicago, UC Press, 2008.

RINARD, R. The problem of the organic individual: Ernst Haeckel and the development of the biogenetic law. Journal of the History of Biology, 14 (2): 249-275, 1981.

SCHLEIDEN, M. Contributions to Phytogenesis. Pp. 229-264, in: SCHWANN, Mathias (org.). Microscopical Researches into the Accordance in the Structure and Growth of Animals and Plants. London: Sydenham Society, 1843.

 

 

Edward Poulton e a polaridade próximo-remoto

 

Gustavo Caponi

Doutor em Lógica & Filosofia da Ciência, Professor Associado do

Departamento de Filosofia, Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisador do CNPq

gustavoandrescaponi@gmail.com

 

Resumo: Sem usar as expressões ‘causas próximas’ e ‘causas remotas’, Poulton mostrou a dualidade epistemológica à qual a polaridade próximo-remoto alude, com uma clareza que apenas se insinua em John Baker e em outros predecessores de Mayr. O que Poulton assinalou é a articulação que pode existir entre esses dois caminhos de indagação que ele também caracterizou em virtude da oposição entre um como e um porquê das estruturas e dos processos biológicos. Mas, além disso, ele também mostrou que, ao acessar-se o plano das causas remotas, pode-se reconhecer e entender essa dimensão teleológica dos fenômenos biológicos que só a Teoria da Seleção Natural permite explicar dentro de uma perspectiva científica. Poulton, neste sentido, foi claramente mais longe que Mayr: ele reconheceu essa teleologia sem rodeios; e ao fazê-lo deixou em evidência a própria genealogia da polaridade próximo-remoto. Ela, conforme Poulton nos faz ver, é uma reformulação, uma naturalização, dessa distinção entre causas primeiras [ou últimas] e segundas [ou próximas] que já parece nos primórdios da ciência moderna. A análise de Poulton é em si própria um momento importante na configuração dessa distinção conceitual cuja história nos importa reconstruir. Mas ademais disso, ela também nos permite enxergar mais claramente aonde é que essa polaridade finca suas raízes mais longínquas.

 

A contraposição entre causas próximas que explicam como os fenômenos biológicos ocorrem, e causas remotas que explicam por que ocorrem, foi enunciada por vários evolucionistas anteriores a Ernst Mayr; quem foi, ainda assim, o verdadeiro responsável pelo fato dessa polaridade vir a se transformar em um marco da Biologia Evolucionaria e da própria Filosofia da Biologia. E entre esses outros naturalistas que já tinham chegado a colocar essa dicotomia, há que elencar a Edward Poulton [1856-1943]: esse influente pioneiro do Programa Adaptacionista ao qual, por diversas razões, os historiadores da Biologia Evolucionaria não deram a atenção que ele certamente merece. Durante o período histórico que Julian Huxley chamou de eclipse do darwinismo, Poulton foi dos principais defensores da Teoria da Seleção Natural e seu trabalho como naturalista forneceu um importante apoio observacional a esse compromisso teórico (cf. Carton, 2011, p.140; Caponi, 2011, p.113).  

Embora os termos usados por Poulton não sejam os mesmos que Mayr utilizou ao delinear sua demarcação entre Biologia Funcional e Biologia Evolucionária, ele tinha uma compreensão dessa distinção entre dois modos de interrogar o ser vivo que era muito próxima daquela que este último autor sempre sustentou. De fato, embora Mayr sempre atribua a John Baker (1938) a primeira enunciação clara dessa partição entre dois modos de interrogar o ser vivo, Poulton chegou a ela antes, e muito mais claramente, que Baker. Sem usar as expressões próximo-remoto, Poulton mostra a dualidade à qual essa polaridade alude com uma clareza que, inclusive, vai além daquilo que o próprio Mayr chegou a enxergar.

O que Poulton (1908, p. xvi) mostra é, em primeiro lugar, a articulação que pode existir entre esses dois caminhos de indagação que ele também caracteriza em virtude da oposição entre um como e um porquê das estruturas e dos processos biológicos: “Os intentos por responder as questões por que e como - a que fim e de que modo - sob nenhum ponto de vista interferem entre si. Esses dois lados da pesquisa, pelo contrário, dão-se mútua assistência e estimulo” (Poulton, 1908, p. xvi). Mas, além disso, Poulton também mostra que, ao acessar-se o plano das causas remotas, pode reconhecer-se e entender-se essa dimensão teleológica dos fenômenos biológicos que só a Teoria da Seleção Natural permite explicar desde uma perspectiva científica. É aí que Poulton vai claramente mais longe que Mayr: ele reconhece essa teleologia sem rodeios; e ao fazê-lo põe em evidência a própria genealogia da polaridade próximo-remoto. Apoiando-se em Whewell (1847, p. 620), Poulton (1908, p. xlvi) reivindica as perguntas por que, dizendo que “a ideia de causa final é uma condição essencial quando se trata de levar adiante nossas pesquisas sobre os corpos organizados”; e isso remete ao que poderia caracterizar-se como a forma primitiva, pré-darwiniana, da polaridade próximo-remoto. Uma forma primitiva cujas raízes fincam nos primórdios da ciência moderna.

Em certo sentido, e como o próprio Mayr o sugere quando a remonta a Boyle, a distinção entre causas próximas e remotas pode ser considerada como um eco distorcido daquela distinção entre causas primeiras e segundas, ou entre causas primeiras e causas próximas, ou inclusive entre causas últimas e causas próximas, que começa a insinuar-se nos começos da ciência moderna. Uma distinção que, sem deixar de aparecer em muitos outros autores, cobra sua formulação mais clara na distinção que Claude Bernard estabeleceu entre causas primeiras que nos explicariam o porquê dos fenômenos naturais, mas que não seriam acessíveis à ciência natural, e causas próximas que, estando ao alcance da observação e das manipulações experimentais, só nos dariam a conhecer o como desses fenômenos. Porém, enquanto nesse contexto as causas últimas ficaram sempre associadas a algo que escapava ao domínio da ciência natural, a dicotomia evolucionista entre causas próximas e últimas (ou remotas) remete, claramente, a duas ordens da causação natural.

Mas, obviamente, a semelhança terminológica, que ao traduzir 'ultimate' por 'remoto' certamente se apaga, não é casual. Nem tampouco ela é um caso de convergência. Ela se explica genealogicamente: por filiação compartilhada. A polaridade evolucionista deriva da polaridade clássica. Os evolucionistas apelaram para ela procurando delimitar e reivindicar seus objetivos cognitivos. E eles tinham um bom motivo para proceder assim: a Teoria da Seleção Natural concedia eficácia causal à razão de ser das estruturas biológicas. Sob sua cobertura, a utilidade, a vantagem, podia ter valor explicativo e significado causal. O que o pensamento teológico adjudicava a causas últimas de caráter sobrenatural, a teoria formulada por Darwin o atribuía a uma causa natural e, nesse sentido, segunda. Mas, na medida em que essa causa se identificava com a razão de ser das estruturas e processos biológicos, ela podia merecer o rótulo de 'causa última'.

Pode-se dizer, neste sentido, que, historicamente falando, a polaridade próximo-remoto é um efeito da naturalização da teleologia operada pelo darwinismo (Caponi, 2012a e 2012b). Desde um ponto de vista puramente epistemológico, seu fundamento é mais geral. Ela tem a ver com o próprio surgimento de uma Biologia de linhagens: uma Biologia cujo objeto privilegiado já não é o organismo. Mas, quando se rastreia como foi que essa polaridade começou a ser reconhecida, constata-se que sua motivação efetiva foi mais limitada. Ela tinha que ver com o fato de que o darwinismo havia instituído um modo não teológico de perguntar por que?.

 

Referências Bibliográficas:

BAKER, John. The evolution of breeding seasons. Pp.161-178, in: DE BEER, Gavin (ed.). Evolution. Oxford: Clarendon Press, 1938.

CAPONI, Gustavo. La segunda agenda darwiniana. México: Centro Lombardo Toledano, 2011.

–––––. Teleología Naturalizada: los conceptos de función, aptitud y adaptación en la Teoría de la Selección Natural. Theoria, 76: 97-144, 2012.

–––––. ¿Fue o no fue Darwin el Newton de la brizna de hierba? Principia 16 (1): 53-79, 2012.

CARTON, Yves. Entomologie, Darwin et le Darwinisme. Paris: Hermann, 2011.

MAYR, Ernst. Cause and Effect in Biology. Science, 134: 1501-1506, 1961.

POULTON, Edward. Mutation, Mendelism and Natural Selection. Introduction to: POULTON, Edward.  Essays on evolution: 1889-1907. Oxford: Clarendon Press, 1908.

WHEWELL, William. The philosophy of the inductive sciences. Volume I, (two volumes edition). London: Parker, 1847.

 

 

O princípio de seleção natural na obra Origem das Espécies: Uma análise em busca da sua função e do seu significado

 

Heloisa Allgayer

Mestranda em Filosofia. Bolsista Capes.

Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos

Orientadora: Dra. Anna Carolina Krebs Pereira Regner

Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos

heloisaallgayer@gmail.com

 

Resumo: A obra Origem das Espécies de Charles Darwin é um marco na ciência, tanto pela sua abordagem evolucionista da origem das espécies, quanto pela sua estratégia argumentativa em favor da hipótese de que a seleção natural seja seu principal mecanismo. Darwin chama sua obra de “um longo argumento”, e este argumento, é estruturado tendo do princípio de seleção natural como seu principal eixo fator constante na natureza que determina quais espécies serão preservadas e quais serão extintas, pela preservação das variações úteis a seus possuidores em face de suas “condições de vida” e extinção das que lhes sejam injuriosas. Os objetivos desse trabalho são: abordar o significado e a função do princípio de seleção natural e determinar as estratégias argumentativas em favor desta tese. As respostas aos objetivos se dão da seguinte forma: o princípio de seleção natural ou sobrevivência do mais apto é o processo de preservação e acúmulo de características benéficas a seus possuidores e de eliminação das nocivas; a principal função do princípio de seleção natural é explicar de que modo forma novas espécies surgem na natureza. Desse modo, refuta o Criacionismo como doutrina segundo a qual cada espécie é fruto de um ato especial de Criação. Duas estratégias argumentativas ganham destaque sendo elas a relação metafórica e a relação todo/parte. A recapitulação no início de cada capítulo caracteriza a forma como Darwin argumenta.

 

A obra Origem das Espécies de Charles Darwin é um marco na ciência, tanto pela sua abordagem evolucionista da origem das espécies, quanto pela sua estratégia argumentativa em favor da hipótese de que a seleção natural seja seu principal mecanismo. Darwin chama sua obra de “um longo argumento”, e este argumento, ou seja, a obra é estruturada tendo do princípio de seleção natural como seu principal eixo fator constante na natureza que determina quais espécies serão preservadas e quais serão extintas, pela preservação das variações úteis a seus possuidores em face de suas “condições de vida” e extinção das que lhes sejam injuriosas.

A metodologia de pesquisa se dividiu em três etapas; levantamento de obras e artigos filosóficos em revistas eletrônicas e periódicos que correspondam ao problema de pesquisa, a fim de servirem como referencial teórico; a partir das obras indicadas na bibliografia, analisar a estruturação da obra-chave, o significado e função do princípio de seleção natural, com auxílio dos “Notebooks” de Darwin, procurar determinar a construção do princípio de seleção natural ao longo do tempo; no final destas duas etapas será iniciada a redação final deste trabalho.

Os objetivos desse trabalho são: abordar o significado e a função do princípio de seleção natural e determinar as estratégias argumentativas em favor desta tese. As respostas aos objetivos se dão da seguinte forma: o princípio de seleção natural ou sobrevivência do mais apto é o processo de preservação e acúmulo de características benéficas a seus possuidores e de eliminação das nocivas; a principal função do princípio de seleção natural é explicar de que modo forma novas espécies surgem na natureza. Desse modo, refuta o Criacionismo como doutrina segundo a qual cada espécie é fruto de um ato especial de Criação. Ou seja, as espécies não são produzidas por algo externo à própria natureza, mas surgem na própria natureza, segundo suas leis e condições.

A seleção natural se relaciona em um estado de interdependência com o princípio de variação, o princípio de luta pela existência, o princípio de variação em aptidão e a hereditariedade. A seleção natural atua sobre as variações dadas pela natureza, fazendo com que sejam herdadas se forem benéficas. A luta pela existência é uma metáfora que visa explicitar diferentes níveis de relação entre os seres vivos que levam a um estado competitivo. Somente os seres vivos que possuírem características que possam torná-lo mais “competitivo” que os outros, fazem com que ele sobreviva. São as complexas relações entre os seres vivos, e a sua capacidade de apresentar e herdar variações que dão sentido e função à seleção natural, sendo esse o meio mais importante para explicar o surgimento e a extinção de espécies na natureza.

A Origem das Espécies foi uma obra que trouxe novidades tanto em seu discurso quanto em sua hipótese chave. A hipótese chave é a seleção natural. Tal hipótese é para Darwin a explicação natural para o surgimento de novas espécies na natureza. Não é possível considerar Darwin um indutivo[8] clássico, em um significado literal de tal termo, pois não seria possível extrair a seleção natural de uma observação. Assim como não é possível considerar Darwin um hipotético dedutivo[9], já que no argumento no qual segue a seleção natural como conclusão não há independência entre pelo menos duas premissas, nem entre a premissa 2 e a conclusão:

1)       Princípio de variação

2)       Princípio de luta pela existência

3)       Princípio de variação em aptidão

4)       Hereditariedade

5)       Princípio de seleção natural

Não há independência entre 2 e 3, enquanto a aptidão não pode ser concebida ser a luta pela existência. Assim como não há independência da premissa 2 e da conclusão (5), uma vez que uma não pode ser entendida sem a outra.

Darwin utiliza variadas estratégias argumentativas que favorecem sua tese. Dentre as quais destaco:

a)      Analogia.

b)      Metáfora.

c)       Relação todo/parte.

A analogia ganha destaque já no primeiro capítulo da Origem que é intitulado “Variation Under Domestication”. Já primeiro capítulo Darwin faz a analogia entre a seleção pelo homem e a seleção natural. A analogia é apresentada mais explicita e contundentemente nos capítulo III e IV. A fim de argumentar favoravelmente para caracterizar a seleção pelo homem, o autor fez um estudo sobre pombos domésticos. Darwin não compara apenas a seleção pelo homem com a seleção natural, ele mostra de que forma elas se relacionam, e como a seleção natural se sobrepõe a seleção pelo homem. A seleção pelo homem é dependente da seleção natural.

A metáfora, ganha “poder”, principalmente no capítulo III intitulado “Struggle for Existence”. Darwin utiliza a metáfora da luta pela existência em um sentido amplo. Tal termo ganha uma gama de significados para que possa comportar as diversas relações naturais. Darwin utiliza a metáfora para elucidar diferentes situações que possam favorecer a sua tese. A metáfora é utilizada em toda a obra.

A relação todo/parte é a principal estratégia argumentativa utilizada na Origem, e é considerada a novidade argumentativa no que concerne o discurso científico. Essa relação consiste no:

a)       Padrão inicial de recapitulação em cada um dos capítulos e de projeção a posteriores.

b)      O uso de uma teia argumentativa onde a seleção natural “defende” o argumento parcial e esse argumento reforça a seleção natural.

O padrão de recapitulação é utilizado em todos os capítulos exceto o primeiro. Essa recapitulação auxilia no convencimento do leitor quanto à tese defendida por Darwin. Para construir a teia argumentativa Darwin tem a preocupação de contar com capítulos que refutam as principais objeções a sua tese. O autor com tal refutação, torna as aparentes objeções como argumentos favoráveis a seleção natural.

Darwin, a partir da estruturação argumentativa utilizada na Origem, consegue convencer o leitor de sua hipótese. A partir da leitura realizada da Origem das Espécies, é possível afirmar que se a teoria darwiniana exibe o status de marco científico, somos levados a rever as exigências de cientificidade em termos de um conjunto fixo e estrito de regras metodológicas e de estruturação matemática. Antes, deparamo-nos com o uso de metáforas explicativas pelo autor, a ausência de uma forte base matemática, e um sofisticado, não imediato, contraste com a experiência.

 

Referências Bibliográficas:

DARWIN, Charles. The origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life. 6 ed. London: John Murray, 1872.

–––––. The life and letters of Charles Darwin. Ed. Francis Darwin. London: John Murray, Albemarle Street, 1887. V. 1-3.

–––––. More Letters of Charles Darwin's. Volumes 1 e 2. Ed. By Francis Darwin. London: John Murray, Albermale Street, 1903.

–––––. Charles Darwin's Diary of the voyage of H. M. S. Beagle. Ed. By Nora Barlow. New York: The Macmillan Company, 1933.

–––––. The autobiography of Charles Darwin. Ed. By Nora Barlow. London and Glasgow: Collins Clear Type Press, 1958.

–––––. Darwin's notebooks on transmutation of species addenda and corrigenda. Ed. Sir Gavin de Beer and M. J. Rowlands. Bulletin The British Museum (Natural History) Historical Series, London, 6 (2): 185 - 200, 1961.

–––––. Charles Darwin's Beagle diary. Ed. By R. D. Keynes. United Kingdom: Cambridge university Press, 2001.

LEAL, Halina M. REGNER A. C. K. Pereira. A racionalidade na explicação darwiniana da Origem das Espécies. Principia, 3 (2): 213-56, 1999.

MUSACCCHIO, Eduardo. A. El darwinismo a mediados del siglo XX y las relaciones entre la filosofia y la biologia. Pp. 113 - 152, in: MARTINS, Lilian A. C. Pereira; REGNER, Anna Carolina Krebs Pereira; LORENZANO, Pablo (orgs.). Ciências da Vida: Estudos filosóficos e Históricos. São Paulo: Associação de Filosofia e História da Ciência do cone Sul, 2006.

REGNER, Anna C. K. P. A natureza teleológica do princípio darwiniano de seleção natural: A articulação do metafísico e do epistemológico na Origem das Espécies. 1995. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de pós graduação em educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1995.

–––––. O conceito Darwiniano de causalidade. Pp. 29 – 66, in: MARTINS, Lilian A. C. Pereira; REGNER, Anna Carolina Krebs Pereira; LORENZANO, Pablo. Ciências da vida: estudos filosóficos e históricos. São Paulo, Associação de Filosofia e História da Ciência do cone Sul, 2006..

RUSE, Michael. Is evolution a social construction? Endeavour, 22: 140 - 142, 1998.

–––––. Charles Darwin's On The Origin of Species. Springer, Topoi, 26: 159–165, 2007.

–––––. Darwin's debt to philosophy: an examination of the influence of the philosophical ideas of John F. W. Herschel and Willian Whewell On the development of Charles Darwin's Theory of Evolution. Studies in History and Phiosophy of Science, 6 (2): 159 – 181, 1975.

–––––. The origin of life: philosophical perspectives. Journal of Theorethical  Biology, 187: 362-371, 1997.

WYHE, John van. Charles Darwin 1809–2009. Elsevier, The International Journal of Biochemistry & Cell Biology, 41: 251–253, 2009.

 

 

A organização da vida na perspectiva de Humberto Maturana: Autopoiesis

 

Herbert Gomes da Silva

Mestre em Ciências – Ensino de Biologia

Vice-coordenador do Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências e Biologia Cultural – EACH/USP

pesquisahgs@gmail.com

 

 María Elena Infante-Malachias

Profª Doutora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo.

Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências e Biologia Cultural – EACH/USP

marilen2810@gmail.com

 

Resumo: O presente trabalho foi resultado da investigação de uma dissertação. Concentra-se na organização do ser vivo na perspectiva da Teoria Autopoiética, que foi uma teoria criada pelos biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela. A autopoiesis, distingue-se em uma rede de componentes estruturais, fechados em si, que produzem processos internos que podem resultar, nos próprios componentes da rede estrutural, isso acontece através de um feedback. A autopoiesis é a realização do ser vivo, sob uma organização estrutural que permite uma identificação dele como unidade, e ao mesmo tempo, sua organização possui em sua estrutura a capacidade de modificações em relação ao meio. Envolve as condições de manutenção da vida do organismo e do fim de sua existência pela desestruturação de sua organização. O questionamento que originou a reflexão a respeito da organização da vida, ocorreu em meados de 1960. O termo tem origem em 1965, quando Maturana, diante da necessidade de uma palavra mais reveladora do que o sentido de “organização circular” ocorreu-lhe uma reflexão a respeito do termo que necessitava, era a nomeação da autopoiesis. A Teoria Autopoiética já possui mais de 40 anos e traz uma perspectiva sobre o conceito de vida que é pouco conhecida pelos biólogos brasileiros.

 

O presente trabalho é resultado de uma pesquisa de dissertação (Silva, 2012) na linha de pesquisa da história, filosofia e cultura no ensino de Biologia. A fundamentação teórica tem base na pesquisa sobre a organização do ser vivo na perspectiva da Biologia do Conhecer, teoria criada pelos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela. Tem como objetivo descrever aspectos históricos e filosóficos a respeito do conceito da organização do vivo de acordo com a teoria proposta pelos autores já citados, e suas implicações para o conceito da Vida.

Humberto Maturana e Francisco Varela (1998, p. 15) definem o conceito de autopoiesis no nível celular como a realização de uma rede de produção de componentes, que resulta fechada sobre si mesma. Porque, desse modo, os componentes produzem, constituem e geram as mesmas dinâmicas para sua produção. Isso implica, por exemplo, no conceito da extensão da célula como um ente circunscrito (identificado por um observador externo como unidade). Pois é através da autopoiesis que há um fluxo contínuo de elementos nessa rede, os quais são componentes dela quando fazem parte; e não são mais componentes ao deixar de participar dessa mesma rede.

Sendo assim, a autopoiesis, distingue-se em uma rede de componentes estruturais fechados em si que produzem processos internos, que podem ter como resultado os próprios componentes da rede estrutural, e isso acontece através de um ciclo auto-produtivo. A autopoiesis é uma condição do ser vivo, sob uma organização estrutural que permite a identificação dele como uma unidade, e ao mesmo tempo, a sua organização possui na sua estrutura uma capacidade de modificações em relação ao meio. Quando um ser vivo e o meio interagem, resultando na perda da organização por uma desestruturação nesse processo, este se destrói e sua vida chega ao fim.

Desse modo, a Teoria da Autopoiesis, envolve uma reflexão sobre a vida e a morte do organismo vivo pela desestruturação de sua organização. Humberto Maturana e Francisco Varela ao tratar sobre a perda de organização, afirmam que os seres vivos, como unidades autopoiéticas, possuem um domínio de trocas e mudanças que os permitem manter sua organização, e ao mesmo tempo, identifica o ser vivo como uma unidade. Maturana (2002, p. 134) a esse respeito afirma: “Na medida em que um sistema autopoiético é definido como uma unidade por sua autopoiese, a única restrição constitutiva que ele deve satisfazer é que todas as trajetórias de estado levem à autopoiese, caso contrário, ele se desintegra”. A história de mudanças de estado buscando manter a organização autopoiética constitui a ontogenia dessa unidade.

A definição de ontogenia, sob essa perspectiva, corresponde a sucessivas transformações estruturais na história de uma unidade autopoiética sem, no entanto, perder a sua identidade enquanto unidade (Maturana e Varela, 1984, p. 49; 2001,  p. 86). E, ao mesmo tempo, ela pode transformar-se estruturalmente no decorrer da sua história, mantendo a organização que constituiu sua identidade, ou seja, o ser vivo conserva sua autopoiesis. Isto é afirmado por Maturana e Varela (1998, p. 90) quando dizem: “la ontogenia de un sistema vivo es la historia de la conservación de su identidad a través de su autopoiesis continuada en el espacio físico”.

O questionamento que originou a reflexão a respeito da organização da vida, ocorreu em meados de 1960; Humberto Maturana, ao lecionar em uma disciplina de Biologia, foi indagado por um estudante do curso de medicina da Universidad do Chile a respeito da diferenciação de características dos seres vivos. Segundo o próprio Maturana, a pergunta consistia em: “Señor, usted dice que la vida se originó en la tierra hace más o menos tres mil quinientos millones de años atrás. ¿Qué sucedió cuando se originó la vida? ¿Qué comenzó con ese momento?”(Maturana e Varela, 1998, p.10; Maturana, 2002, p.6) Ele, Maturana, relata a sua perplexidade ao não ter resposta a esta pergunta e que, após refletir sobre o questionamento, resolveu reformular, e a pôs nos seguintes termos “¿Qué se origina, y se concerva hasta ahora, cuando se originan los seres vivos en la tierra?” (Maturana e Varela, 1998, p.10). Este foi o ponto de partida para a reflexão sobre a teoria da autopoiesis.

O termo tem origem em 1965, quando Maturana, diante da necessidade de uma palavra mais reveladora do que o sentido de “organização circular” e ao ouvir de um amigo filósofo, José Maria Bulnes, o dilema de Dom Quixote entre o caminho da prática (práxis) e o caminho das letras (poeisis), ocorreu-lhe uma reflexão a respeito do termo que necessitava, era a nomeação da autopoiesis.

Maturana e Varela enumeram quatro características na organização dos seres vivos como seres autopoiéticos. Elas são: os seres autopoiéticos são autônomos, possuem individualidade e são definidos como unidades e por último, mas não menos importante, que estes não possuem nem entrada e nem saída, a troca entre o meio externo e interno são manutenções que permitam que sua organização permaneça em casos de perturbações, e esta troca é distinguida pelo observador e não pela unidade autopoiética.

A organização de um dado ser vivo é uma característica importante para sua identificação, e para a compreensão do conceito da vida. Os seres vivos em sua organização autopoiéticas são autônomos e são capazes de manter sua organização mesmo que sua estrutura mude. Outro aspecto é que quando tratamos de seres vivos como máquinas autopoiéticas, estamos tratando de uma organização que, no conjunto geral de seus processos e de sua formação estrutural resulta em sua própria organização.

A Teoria Autopoiética já possui mais de 40 anos e traz uma perspectiva sobre o conceito da vida, e essa é pouco conhecida pelos biólogos brasileiros, geralmente afastados por informações superficiais, conceitos equivocados, poucas publicações no Brasil ou desconhecimento das teorias propostas pelos Professores Humberto Maturana e Francisco Varela.

 

Referências Bibliográficas:

MATURANA R, Humberto. A ontologia da realidade. 3ª edição. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

–––––. Cognição, ciências e vida cotidiana. 2ª reimpressão. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006.

MATURANA, H. R. Autopoiesis, structural coupling and cognition: a history of these and other notions in the biology of cognition. Cybernetics & human knowing, 9 (3-4): 5-34, 2002.

MATURANA R., Humberto & VARELA J., Francisco. El árbol del conocimiento: las bases biológicas del entendimiento humano. Santiago: Editora Universitária, 1984.

–––––. De máquinas y seres vivos – autopoiesis, la organización de lo vivo. Ed. Universitaria: Santiago de Chile, 1998.

–––––. A árvore do conhecimento: as bases biológicas do conhecimento humano. Trad. Humberto Mariotti e Lia Diskin. 8ª edição. São Paulo: Palas Athenas, 2001.

SILVA, Herbert G. O explicar: a explicação humana na perspectiva do observador como ser biológico e cultural. 2012. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências – Ensino de Biologia) – Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

 

 

 

 

 

Uma teoria da referência para os nomes próprios dos táxons biológicos

 

Jerzy Brzozowski

Doutor em Filosofia, Professor Adjunto

Colegiado de Filosofia, Universidade Federal da Fronteira Sul, Erechim, RS

jerzyab@yahoo.com

 

Resumo: O objetivo deste trabalho é propor uma teoria a respeito de como a referência dos nomes próprios dos táxons biológicos é determinada. De acordo com nossa teoria, cada nome de táxon tem um sentido fregeano composto por dois componentes: um critério de aplicação para o nome e um critério de identidade para a entidade nomeada. A partir dessa teoria, explicamos as diferenças entre os chamados sistemas lineanos de nomenclatura (ICZN, ICBN, ICNB) e o PhyloCode, que é uma proposta de código de nomenclatura baseado na sistemática filogenética. No sistema nomenclatural lineano, atualmente aceito, os critérios de aplicação são associados aos nomes por efeito dos códigos de nomenclatura. Os critérios de identidade, por outro lado, são contribuídos pelo contexto teórico circundante. Comparamos esse sistema com o PhyloCode, uma proposta recente de sistema nomenclatural na qual os nomes dos táxons seriam definidos filogeneticamente, isto é, em função de sua posição relativa na árvore da vida. Argumentaremos que a rejeição do PhyloCode por parte da comunidade de biólogos se deve ao fato de que esse código transforma critérios de identidade em critérios de aplicação, o que é heuristicamente indesejável para a sistemática filogenética.

 

Este trabalho pretende responder à pergunta: como é possível que os nomes dos táxons biológicos sejam usados para se referir às entidades a que se referem? Para tanto, partimos da ideia de que os táxons são concebidos como linhagens e que, portanto, seu estatuto ontológico não é o de classes naturais, mas sim o de entidades históricas individuais. Essa tese foi famosamente defendida por Michael Ghiselin (1974) e David Hull (1976), mas o mais importante para os propósitos deste trabalho é o lugar central que ela ocupa na teoria da sistemática filogenética proposta por Willi Hennig (1966).

Uma das consequências da tese da individualidade é a a ideia de que os nomes dos táxons são próprios. Assim, analisamos as teorias filosóficas sobre a determinação da referência dos nomes próprios de modo a extrair elementos que nos permitam resolver o problema sobre o qual nos debruçamos. Há, grosso modo, duas grandes famílias de teorias da referência – a descritivista e a causal-histórica. De acordo com a visão descritivista, a relação entre um nome próprio e seu portador é mediada por um componente epistemológico, em geral entendido como um conjunto de representações (de natureza linguística ou não) do portador. Para a teoria causal-histórica, por outro lado, um nome próprio se refere a seu portador em todos mundos possíveis, ou seja, independentemente do conhecimento que tenhamos das propriedades ou feitos do portador (cf. Kripke, 1980).

Embora Ghiselin e Hull tenham associado a tese da individualidade a uma visão causal-histórica da referência, defenderemos aqui que não é possível prescindir de um componente epistemológico no caso dos nomes próprios dos táxons. Utilizando um termo proposto pelo filósofo Gottlob Frege (2009[1892]), comumente associado ao descritivismo, chamaremos esse componente de sentido. Também faz-se necessário analisar o sentido de um termo em pelo menos dois outros elementos, identificados pelo filósofo Michael Dummett (1973, p. 75) como critério de aplicação e critério de identidade.

Um critério de aplicação é uma regra que nos informa quando um termo pode ser corretamente aplicado. Uma pessoa sabe usar o termo “livro” se aprende o critério de aplicação desse termo, por exemplo, se sabe identificar se está ou não diante de um livro. Por sua vez, um critério de identidade é uma regra que nos informa sob que condições um objeto x é ou não o mesmo que um objeto y. Há dois sentidos para a palavra “livro”, que correspondem, aproximadamente, aos termos “exemplar” e “obra”; a diferença entre esses dois sentidos é uma diferença de critério de identidade, não de aplicação (podemos estar diante da mesma obra sem estar diante do mesmo exemplar).

Na visão de Dummett, diferentes classes de termos expressam combinações desses critérios. Os termos sortais (que correspondem, grosso modo, a substantivos comuns) expressam critérios de aplicação e, ocasionalmente, critérios de identidade. Adjetivos (como “vermelho”) expressam apenas critérios de aplicação. Por fim, nomes próprios expressam critérios de identidade associados aos sortais que os nomeiam (Geach, 1957).

Devido a certa ambiguidade no modo como usamos os nomes próprios das espécies, eles às vezes se comportam como sortais. Isso se dá devido ao fato de que, por mais que Ghiselin impugne afirmações do tipo “Bucéfalo é um Equus caballus”, é possível dizer que os organismos são exemplares das linhagens a que pertencem (Caponi, 2011). Por isso, julgamos lícito supor que os nomes próprios dos táxons têm seus sentidos compostos tanto por critérios de identidade quanto por cirtérios de aplicação.

Vejamos agora como esses dois tipos de critérios se articulam na determinação da referência dos nomes próprios dos táxons. Para tanto, contrastaremos o sistema chamado “lineano”, que embasa os principais códigos de nomenclatura vigentes (ICBN, ICNB, ICZN), com o PhyloCode, uma proposta de embasar a nomenclatura biológica na sistemática filogenética.

No sistema nomenclatural lineano, atualmente aceito, os critérios de aplicação são associados aos nomes por efeito dos códigos de nomenclatura. Os critérios de identidade, por outro lado, são contribuídos pelo contexto teórico circundante. Comparamos esse sistema com o PhyloCode, uma proposta recente de sistema nomenclatural na qual os nomes dos táxons seriam definidos filogeneticamente, isto é, em função de sua posição relativa na árvore da vida. Argumentaremos que a rejeição do PhyloCode por parte da comunidade de biólogos se deve ao fato de que esse código transforma critérios de identidade em critérios de aplicação, o que é heuristicamente indesejável para a sistemática filogenética.

Entretanto, nada disso implica que a ideia de que é possível estabelecer critérios de identidade deva ser rejeitada. Pensamos que a visão mínima de que é possível fornecer critérios de identidade para táxons pode ser apropriadamente chamada de essencialismo sobre táxons biológicos. O ponto é que se costuma entender a tese da individualidade das espécies como tendo refutado definitivamente o essencialismo. Entretanto, pensamos que essencialismo e antiessencialismo são posições sobre critérios de identidade, e não sobre o estatuto ontológico, das entidades. A tese da individualidade, portanto, é insuficiente para a refutação do essencialismo. Para tanto, seria necessário defender que é impossível estabelecer critérios de identidade para os táxons.

 

Referências Bibliográficas:

CAPONI, G. Os táxons como indivíduos. Pp. 71–112, in: STEFANO, W.; PECHLIYE, M. M. (ed.). Filosofia e História da Biologia. São Paulo: Mack Pesquisa, 2011 .

DUMMETT, M. Frege: Philosophy of Language. New York: Harper & Row, 1973.

FREGE, G. Sobre o sentido e a referência [1892]. Pp. 129–158, in: ALCOFORADO, P. (ed.). Lógica e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Edusp, 2009.

GEACH, P. T. Mental Acts. London: Routledge & Kegan Paul, 1957.

GHISELIN, M. A radical solution to the species problem. Systematic Zoology, 23: 536–544, 1974.

HENNIG, W. Phylogenetic Systematics. Chicago, IL: University of Illinois Press, 1966.

HULL, D. Are species really individuals? Systematic Zoology, 25(2): 174–191, 1976.

KRIPKE, S. A. Naming and Necessity. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1980.

 

 

Explorando Características da Ciência na História da Genética: a construção do conceito do crossing-over

 

João Paulo Di Monaco Durbano

Doutorando em Biologia Comparada

Programa de Pós Graduação em Biologia Comparada,

Universidade de São Paulo, campus Ribeirão Preto

joaodurbano@usp.br

 

Lilian Al-Chueyr Pereira Martins

Doutora em Ciências Biológicas,

Departamento de Biologia, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, campus Ribeirão Preto

lacpm@ffclrp.usp.br

 

Resumo: Este trabalho tem como objetivo, explorar Características da Ciência, que possam ser utilizadas no ensino de ciências, em um episódio da história da genética clássica, a construção da teoria do crossing-over. Apresentamos a contribuição que diversos pesquisadores tiveram para a construção do conceito do crossing-over. A partir das pesquisas apresentadas, exploramos algumas Características da Ciência (do inglês Features of Science – FOS), tais como: a utilização de modelos pelos cientistas, o conhecimento científico estar em constante desenvolvimento, a ciência ser movida também por controvérsias científicas, a importância do trabalho coletivo na construção do conhecimento, a utilização da matemática e de experimentos e a participação das mulheres na ciência. Assim utilizamos a História da Ciência como uma ferramenta para discussão sobre a ciência, de forma a contribuir para um ensino da ciência mais interessante e facilitar sua aprendizagem.

 

Este trabalho tem como objetivo, explorar Características da Ciência, que possam ser utilizadas no ensino de ciências, em um episódio da história da genética clássica, a construção da teoria do crossing-over.

William Bateson (1861-1926) e Reginald Crundall Punnett (1875-1967) estudando ervilhas de cheiro (Latyrus odoratus) constataram que algumas características hereditárias eram herdadas juntas, o que eles chamaram de coupling (associação). Para explicar a recombinação das características nos descendentes Bateson e Punnett propuseram a hipótese da reduplicação. Essa não envolvia os cromossomos, e considerava que haveria um maior número de divisões celulares para os gametas onde apareciam as combinações maternas e paternas separadas e um menor número de divisões para os gametas recombinantes. Dessa forma buscaram explicavam o aparecimento de maior número de descendentes semelhantes aos progenitores (Martins, 1997, p. 2.22-2.23).

De um modo geral, no início do século XX, aqueles que aceitavam que os cromossomos eram os portadores das características hereditárias admitiam-se a ideia dos caracteres unitários (unit-characters). Nesse sentido, pensava-se que se os organismos possuíam mais características que o número de cromossomos, então cada cromossomo deveria ser o portador de vários fatores. Esta era a visão adotada, por exemplo, por Carl Eric Correns (1864-1933) em 1902. Assim, ele supôs que os genes são estavam nos cromossomos, e ele apresentou um diagrama que se parece muito com o colar de contas que mais tarde se tornou familiar (Stutervant, 1965, p. 36).

Mais tarde Thomas Hunt Morgan (1866-1945) e seus colaboradores observaram na espécie Drosophila melanogaster, conhecida como mosca da fruta, o mesmo fenômeno. Entretanto, explicaram-no de um modo diferente, no qual haveria uma troca de caracteres entre os cromossomos, mecanismo que foi chamado de crossing-over.

A pesquisa desenvolvida por Hugo de Vries (1848-1933), em 1903, o levou a pensar que poderia haver um intercâmbio das unidades dos cromossomos parentais durante a prófase I da meiose (Mayr, 1982, p. 764). A análise genética confirmou que os genes de um mesmo cromossomo poderiam se separar durante a meiose, isto é, a ligação dos genes no mesmo cromossomo não era completa (Bateson & Punnett, 1905).  

Em 1909 Franz Alphons Janssens (1865-1924), desenvolveu um estudo citológico da espermatogênese em salamandra da espécie Batracoseps attenuatus. Janssens chamou de “quiasma” (o ponto de encontro em que dois cromossomos de um par permanecem em contato, durante os últimos estágios da prófase I da meiose) (Janssens, 1909).

Em 1911 Morgan aventou a hipótese de que a proporção de ocorrências de crossing-over poderia servir de referência para a localização dos fatores nos cromossomos (Morgan, 1911). Posteriormente, Alfred Sturtevant (1891-1970) propôs que a porcentagem de crossing-over poderia servir de base para calcular a distância entre quaisquer dois fatores e baseado nisso construiu os primeiros mapas cromossômicos (Sturtevant, 1913, p. 57).

Hermann Joseph Muller (1890-1967) procurou resolver alguns dos problemas encontrados, propondo um novo método para calcular a porcentagem de crossing-over (Muller, 1916). Segundo Martins (1997, p. 6-8), Muller “apresentou a melhor discussão que o grupo de Morgan publicou, na época, sobre o assunto”. Muller apresentou os experimentos de crossing-over, envolvendo um grande número de fatores ao mesmo tempo, a fim de poder estudar tanto o duplo crossing-over quanto os múltiplos crossing-over, e analisar fenômenos de interferência. Para realizar tais experimentos, ele uniu, em um mesmo individuo um número grande de alelos mutantes. A partir dos seus dados, analisou se o duplo crossing-over ocorriam em distâncias ao acaso, ou se ocorriam mais frequentemente a certas distâncias. A análise não era muito direta, pois alguns dos fatores estavam bastante próximos, e outros estavam muito afastados, por isso era geralmente difícil estimar a distância em que haviam ocorrido os duplos crossing-over. Mesmo assim Muller chegou a conclusão de que a ocorrência de um crossing-over interfereria na ocorrência de outro crossing-over num mesmo par de cromossomos, e denominou este fenômeno como "interferência" (Martins, 1997, p. 6-23).

Na resenha crítica do Mechanism of mendelian heredity, William Bateson fez várias críticas a hipótese do crossing-over, incluindo a falta de evidências citológicas. Ele argumentou que ocorria ausência de qualquer crossing-over no sexo masculino de Drosophila, ao contrário do que acontecia em Batracoseps. Tal fenômeno deveria ser esclarecido e enfraquecia a teoria cromossômica. Bateson considerava a ausência de crossing-over na Drosophila macho como muito difícil de conciliar com a teoria (Bateson, 1916, p. 539; Martins, 2010).

As pesquisas envolvendo o mecanismo de crossing-over continuaram. Anos mais tarde, Edmund Beecher Wilson (1856-1939), um expert em citologia, em 1925 apresentou mais informações para complementar a teoria. Segundo ele o mecanismo de crossing-over ocorria no estágio de paquíteno e ainda que, para o crossing-over ocorrer há um processo de torção e subsequente separação. Porém admitiu que ainda não havia uma evidência citológica (Sturtevant, 1965, p. 77).

Em 1931, Harriet Creighton (1909-2004) e Barbara McClintock (1902-1992), publicaram um trabalho onde apresentaram as evidências citológicas do crossing-over (Creighton & McClintock, 1931).

Esta breve apresentação histórica oferece uma ideia das contribuições de diversos autores e as dificuldades encontradas na construção da teoria do crossing-over. A partir das pesquisas apresentadas, diversas Características da Ciência (Features of Science – FOS) podem ser discutidas. Matthews (2012) propõe como Características da Ciência dezoito aspectos da ciência. Além de buscar mudar a terminologia de “Natureza da Ciência” para “Características da Ciência”, a fim de evitar “armadilhas filosóficas e educacionais” (Matthews, 2012, p. 4).

Vale a pena lembrar que as características selecionadas fazem parte de uma simplificação das complexas características que envolveram as pesquisas em torno da elucidação do conceito do crossing-over. Essa simplificação tem o objetivo de chamar a atenção de professores e pesquisador es para utilizarem a História e Filosofia da Ciência como ferramenta para discutir sobre as características da ciência. Destacamos algumas características da ciência com o episódio histórico.

Por ser provisório, o conhecimento científico está em constante desenvolvimento, sempre buscando por respostas, que por sua vez, geram novas questões. A partir dos estudos apresentados, é possível observar o desenvolvimento de pesquisas que permitiram trazer mais dados e fazer com que avançasse a teoria cromossômica da hereditariedade. Apresentar o conhecimento científico como provisório, mas baseado em evidências disponíveis na época, é importante para evitar uma visão na qual os conhecimentos são transmitidos de forma já elaborados, sem questionamentos, não possibilitando a compreensão de que, tanto o conhecimento científico anterior quanto o atual, possuem limitações que foram ou podem ser superadas.

Outra característica da ciência que pode ser observada é a utilização de modelos. Carl Eric Correns, em 1902, apresentou um diagrama dos genes sendo levados pelos cromossomos, o que se parece muito com o “colar de contas”. Como destaca Matthews (2012) “a onipresença de modelos tanto na história da ciência quanto na ciência atual é amplamente reconhecida, de fato, é difícil pensar em ciência sem modelos”.

Muller criou uma nova forma para calcular a porcentagem de crossing-over. Essa mudança possibilitou a resolução de alguns dos problemas que outros pesquisadores não conseguiram solucionar. Muller utilizou as regras da matemática, a matematização, para tentar compreender os resultados observados nos experimentos.

Outra característica da ciência, a de que a construção do conhecimento científico é determinada por teorias escolhidas pelos cientistas, pode ser observada no episódio já que Bateson e Punnett propuseram a hipótese da reduplicação para justificar o aparecimento de maior número de descendentes semelhantes aos progenitores. O grupo do Morgan não se baseou nessa teoria para seguir com as suas pesquisas.

No episódio também observamos a participação das mulheres Harriet Creighton e Barbara McClintock na ciência. Muitas vezes a ciência é relacionada apenas aos homens e se faz importante apresentarmos a ciência sendo desenvolvida tanto por homens quanto por mulheres.

Outras duas Características da Ciência não ressaltadas por Lederman e nem pelo Matthews, mas que acreditamos serem importantes são: o trabalho coletivo e as controvérsias científicas. No episódio observamos que o conhecimento científico é o resultado de um trabalho coletivo. Diversos pesquisadores estiveram envolvidos nas pesquisas que auxiliaram na elucidação da teoria. Trabalhar essa característica no ensino é importante para evitar que os conhecimentos científicos sejam relacionados a gênios isolados.

A ciência também é movida por controvérsias científicas. As discordâncias entre cientistas são possíveis. Na resenha crítica do Mechanism of Mendelian heredity, William Bateson (1916) fez várias críticas a hipótese do crossing-over, incluindo a falta de evidências citológicas. Ele argumentou que ocorria ausência de qualquer crossing-over no sexo masculino de Drosophila e que tal fenômeno enfraquecia a teoria cromossômica. A descrição de controvérsias científicas possibilita ao estudante associar os conhecimentos científicos com os problemas que originaram sua construção. Revela-se também extremamente útil na aprendizagem dos conteúdos, dos processos e das características da ciência.

Como observado a HFC possibilita uma discussão acerca das características da ciência, e pode ser utilizada como um recurso didático útil, contribuindo para tornar o ensino da ciência mais interessante e facilitar sua aprendizagem.

 

Referências Bibliográficas:

BATESON, William. Review of Morgan et al., The mechanism of Mendelian heredity, 1915. Science, 44: 536-543, 1916. 

BATESON, W.; PUNNETT, Reginald C. Experimental studies in the physiology of heredity. Reports to the Evolution Committee of the Royal Society. Reports 2, 3 and 4, 1905-08. Pp. 42-60, in: PETERS, J. A. Classic papers in genetics, 1959.

CREIGHTON, Harriet B.; McCLINTOCK, Barbara. A correlation of cytological and genetical crossing-over in Zea Mays. Proceedings of the Natural Academy of Science, 17: 485–497, 1931.

JANSSENS, F. A. La théorie de la chiasmatypie. La Cellule, 25: 389–411, 1909.

MARTINS, Lilian A-C. P. A Teoria Cromossômica da herança: Proposta, Fundamentação, Crítica e Aceitação. Tese (Doutorado em Ciências, área de concentração de genética e evolução - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Biologia. 1997.

MATTHEWS, Michael R. Science teaching: the role of history and philosophy of science. New York: Routledge, 1994.

–––––. Changing the Focus: From Nature of Science (NOS) to Features of Science (FOS). Pp. 3-26 , in: KHINE, Myint S (ed.). Advances in nature of science research: concepts and methodologies. Netherlands: Springer, 2012.

MAYR, Ernst. The Growth of Biological Thought: diversity, evolution and inheritance. Cambridge: Harvard University Press, 1982.

MORGAN, T. H. The application of the conception of pure lines to sex limited inheritance and to sexual dimorphism.  American Naturalist, 45: 65, 1911.

MULLER, Hermann J. The mechanism of crossing-over. The American Naturalist, v. 50: 193-221, 284-305, 350-366, 421-434, 1916.

STURTEVANT, A. H. The linear arrangement of six sex-linked factors in drosophila, as shown by their mode of association reprinted by author's and publisher's permission from Journal of Experimental Zoology. Journal of Experimental Zoology, 14: 43-59, 1913.

STURTEVANT, Alfred H. A history of genetics. New York: Cold Spring Harbor Laboratory Press, 1965.

 

 

Progresso Biológico nos Livros Didáticos de Biologia aprovados pelo PNLEM 2012

 

João Vicente Alfaya dos Santos

jaocolorado@gmail.com

Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica-UFSC

 

Resumo: As pesquisas já produzidas sobre o ensino de Evolução Biológica apontam que tanto professores como alunos compartilham pontos em comum, como o de que a Evolução Biológica é linear, visa ao melhoramento dos organismos e possui um propósito último. Esta variedade de interpretações aponta para uma questão central para o entendimento da Evolução Biológica: a existência (ou não) de progresso. Sobre este tema debruçaram-se autores como Francisco Ayala e Stephen Jay Gould, cujos argumentos são debatidos no presente trabalho, constituindo o pano de fundo para uma investigação que visa identificar e caracterizar os entendimentos associados ao progresso biológico/evolutivo presentes em livros didáticos. Com base nas resenhas do Guia do Livro Didático de 2012, foram selecionados e analisados dez livros. O percurso metodológico qualitativo da pesquisa baseou-se na Análise de Conteúdo, elegendo como categorias de análise a priori as definições de progresso propostas em investigações anteriores. A análise dos textos dos dez livros da amostra evidenciou a frequente presença de concepções de progresso que puderam ser relacionadas, a todas as categorias apontadas, com destaque para as encontradas com maior frequência, que foram as de linearidade e de melhoria/aperfeiçoamento. Entendendo que a presença de progresso na Evolução Biológica persiste como um tema controverso, são discutidos os impactos que a presença desses elementos pode trazer ao seu ensino. Reitera-se, também, a necessidade de que a formação dos professores de Ciências e de Biologia contemple aspectos relacionados à História e à Filosofia da ciência, questões fundamentais para o entendimento da Evolução Biológica.

 

O presente trabalho é parte do resultado de uma dissertação de mestrado cujo objetivo é a análise e discussão das concepções de progresso biológico veiculadas nos livros didáticos (LDs) de Biologia do Ensino Médio aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM). As pesquisas já feitas sobre o ensino de Evolução Biológica (EB) mostram algumas complicações. Há fortes evidências de dificuldades no entendimento de alunos (Santos, 2002; Bizzo; Almeida; Falcão, 2007), de professores em exercício (Goedert, 2004; Tidon; Lewontin, 2004; Coimbra; Silva, 2007; Oleques; Bartholomei-Santos; Boer, 2011; Meglhioratti; Caldeira; Bortolozzi, 2006) como de professores em formação (Carneiro, 2004). Nesses trabalhos, a associação de EB com progresso está sempre presente. Chama atenção a pertinência do tópico progresso, não apenas por ter aparecido em todos os níveis de ensino em que foram realizadas as pesquisas, mas, principalmente, pela pluralidade de significados que a expressão abarca, a saber: como sendo sinônimo de modificações que conduzam a um aumento de organismos superiores ou de complexidade; como processo linear; como força diretiva inerente aos organismos; e como meta final (teleologia) (Rosslenbroich, 2006; Meglhioratti; Caldeira; Bortolozzi, 2006).

Se as concepções de alunos e professores se assemelham, isso é um possível indicativo para se investigar os elementos dos processos de ensino e de aprendizagem que sejam comuns a estes atores. Entendendo que esta é uma das vias possíveis para se pesquisar questões como essas, no presente trabalho, considero que os LDs utilizados no ensino de EB, podem fornecer indicativos para responder a essas concepções. O uso do LD continua sendo consensual, constituindo um dos principais instrumentos em sala de aula (Frison; et al. 2009; Garcia; Bizzo, 2010; Delizoicov, Angotti; Pernambuco, 2011).

Para subsidiar a discussão teórica sobre a presença de progresso ou não na EB, são abordados os entendimentos de filósofos e biólogos como Herbert Spencer (1939), Pierre Teilhard Chardin (1966), Julian Huxley (1946), Francisco José Ayala (1988) e Stephen Jay Gould (2001).

A seleção dos LDs analisados foi feita com base nas resenhas do Guia do Livro Didático de 2012, totalizando dez obras. O percurso metodológico da pesquisa baseou-se na Análise de Conteúdo (Bardin, 2011), elegendo como categorias de análise a priori as definições de progresso propostas em investigações anteriores, a saber: finalidade, valoração entre seres vivos, mecanismos diretivos, linearidade e aumento de complexidade, e também incluindo uma nova categoria, denominada de melhoria/aperfeiçoamento.

A análise dos textos dos dez livros da amostra evidenciou a frequente presença de concepções de progresso que puderam ser relacionadas, individual ou coletivamente, a todas as categorias apontadas, com destaque para as encontradas com maior frequência, que foram as de linearidade e de melhoria/aperfeiçoamento. Em muitos casos, as imagens e exemplos incluídos ao longo dos textos contribuíram adicionalmente para o reforço dessas concepções. Estes resultados trazem algumas implicações para o ensino de EB. Por exemplo, um dos maiores reveses do pensamento evolutivo na história da ciência foi, justamente, por acreditar que a EB se pautaria em uma espécie de progresso, valer-se dessa assunção para legitimar a dominação de certos grupos sociais sobre outros, de um gênero sobre o outro e de uma etnia sobre a outra. É o que resultou do uso da proposição de Darwin para explicar o mundo natural, quando estendido às relações sociais, chamado também de darwinismo social (Gould, 1991), e para tornar científica a ideologia do racismo (Magnoli, 2009). Os LDs, ao reforçarem esse entendimento sobre os processos evolutivos, corroboram essa visão. De posse desses resultados, é possível pensar em três possíveis encaminhamentos: para os autores dos LDs, para os professores que atuam na Educação Básica e para os formadores desses professores.

Primeiro, para os autores dos livros. Para isso, um referencial da Didática das Ciências francesa proporcionará esclarecimentos. Sabemos que o processo de educação não se resume a simples repetições de conteúdos consolidados historicamente. A escola é um local de criação de saberes, de produção de conhecimentos. Assim sendo, o material didático por ela utilizado deve atender a esse propósito. Por ver na escola um local de produção de conhecimento e a necessidade que os conteúdos abordados por ela sejam assimiláveis pelos alunos, Yves Chevallard (2009) propôs a teoria da Transposição Didática, que, em resumo, propõe a transformação dos objetos de saberes (conhecimento científico, acadêmico ou saber sábio) em objetos de ensino (ou saber ensinado). Para essa transformação alguns fenômenos serão inevitáveis aos conteúdos para que se tornem “escolarizáveis” e que se adequem, minimamente, ao tempo destinado ao ensino. Um desses fenômenos é a dessincretização, a necessária delimitação dos objetos de ensino em saberes parciais (Chevallard, 2009, p. 69), a sua retirada do contexto epistemológico original e transposta para um novo contexto, neste caso, escolar. Desta forma, entendo que cabe aos autores dos LDs propor uma ressincretização, atentando ao máximo para aspectos e exemplos contidos nos livros que relacionem a Evolução com progresso.

Para o ensino de Biologia, visualizo a questão da seguinte forma: explicações que têm por base finalidade, mecanismos diretivos e linearidade deveriam ser excluídas. Essas explicações assumem, de forma implícita, a ideia da teleologia cósmica (um propósito universal e atemporal), de forças que atuam direcionando as mudanças e da organização linear dos organismos, conforme a scala naturae. No entanto, quanto ao aumento de complexidade e melhoria, creio que se pode ser mais flexível; primeiro porque definir complexidade é uma tarefa difícil para filósofos da Biologia e, por extensão, não deveria estar entre as maiores preocupações dos professores do EM. Segundo, porque a teoria da Seleção Natural proposta por Darwin (2009) admitia esse avanço dos seres para condições melhores. E, conforme o entendimento de autores como Mayr (2005) ela continua atuando dessa forma, embora o seu papel principal seja o de exclusão e não o de favorecimento.

Pensando na formação de professores, é necessário que eles tomem conhecimento de que, nas formulações de Darwin, a questão da existência ou não de progresso da Evolução era dúbia. Que após a publicação de A Origem das Espécies em 1859, essas visões continuaram em conflito e que mesmo proponentes da Síntese Moderna, como Julian Huxley (1946), continuaram a defender a Evolução como um fenômeno progressivo. Possivelmente, ao terem conhecimento dessas diferentes visões epistemológicas sobre a Evolução, os professores estariam mais aptos a exercer a sua vigilância epistemológica (Chevallard, 2009) sobre as explicações evolutivas nos materiais didáticos. A apropriação da História e da Filosofia das Ciências no ensino