I Encontro Temático da ABFHiB
Utilização da História da Biologia no Ensino
Médio
Campos do Jordão, SP
Este evento, promovido pela ABFHiB, com apoio da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Centro de Ciências Biológicas e da Saúde; Curso de Biologia), teve o objetivo de propiciar discussões e proporcionar condições para a publicação de um livro contendo textos referentes à história da biologia que pudessem ser utilizados por estudantes e professores no ensino médio. O evento foi realizado na Colônia de Férias Umuarama, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, localizada em Campos do Jordão. Foi destinado um tempo de uma hora e meia (1:30) para a discussão detalhada de cada trabalho.
O evento e o livro não têm o objetivo de discutir questões gerais sobre educação, nem sobre a importância do uso de história da biologia no aprendizado e sim de apresentar resultados práticos que possam ser aplicados diretamente no ensino. O livro produzido pretende ser uma primeira resposta da ABFHiB à carência de material sobre história da biologia que possa ser utilizado pelos professores em sala de aula e para seu próprio estudo.
Programa:
13 DE NOVEMBRO DE 2008 – 5a
FEIRA
12h00 – Recepção na Colônia e almoço
14h00 – 14h10 Boas vindas
14h10 – 15h30 – Reunião de trabalho
15h30
– 16h00 – CAFÉ
16h00 – 17h30 – Reunião de trabalho
17h30 – 18h10 – Reunião de trabalho
14 DE NOVEMBRO DE 2008 – 6a
FEIRA
09h00 – 10h30 – Reunião de trabalho
10h30
– 11h00 – CAFÉ
11h00 – 12h30 – Reunião de trabalho
12h30
– 14h30 – ALMOÇO
14h30 – 16h00 –
Reunião de Trabalho
16h00
– 16h30 – CAFÉ
16h30
– 18h00 – Reunião de trabalho
15 DE NOVEMBRO DE 2008 – SÁBADO
09h00 – 10h30 – Reunião de trabalho
10h30 – 11h00 – CAFÉ
11h00 – 12h30 – Reunião de trabalho
12h30 - Encerramento
Resumos:
As estruturas celulares: o estudo histórico do núcleo
e sua contribuição para o ensino de Biologia
Caroline Belotto Batisteti (Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência/ Faculdade de Ciências / Universidade Estadual Paulista – Campus Bauru), carolbatisteti@fc.unesp.br
Elaine Sandra Nabuco de Araújo
(Pesquisadora do Centro de Divulgação e Memória da Ciência e
Tecnologia/bolsista PRODOC/CAPES/ Programa de Pós-Graduação
João José Caluzi (Departamento de Física da Faculdade de Ciências – Universidade Estadual Paulista - Campus Bauru), caluzi@fc.unesp.br
O problema mais comum encontrado nos livros didáticos de Biologia relacionado ao conteúdo de citologia refere-se à abordagem e apresentação das estruturas celulares. Em geral, prioriza-se a função desempenhada pela estrutura em detrimento de informações sobre os procedimentos científicos empregados que levaram à sua observação e descrição e o contexto histórico em esta ocorreu. Nesse artigo, abordamos o núcleo celular, mais especificamente a identificação do núcleo em plantas, por meio de uma discussão pautada no contexto histórico dos fatos, tendo em vista a sua importância para o Ensino de Biologia. O botânico escocês Robert Brown (1773-1858), por volta de 1833 observou em tecidos de orquídea uma única auréola circular em cada célula, geralmente de coloração mais opaca do que a membrana celular. Denominou a auréola observada de núcleo celular. Brown verificou que muitos tipos de plantas apresentavam essa estrutura, porém parece não ter realizado especulações sobre a sua importância. Nos livros didáticos de Biologia do Ensino Médio por nós analisados não constam informações referentes aos estudos de Robert Brown. Os trabalhos de Robet Brown, estudados no seu contexto histórico, evidenciam, entre outros aspectos, que a descrição do núcleo e a sua presença em todos os tecidos de todos os seres vivos não era de forma nenhuma evidente. Isso possibilita aos estudantes compreender o processo de construção do conceito científico acerca do núcleo celular, remetendo à idéia de ciência dinâmica, ou seja, que se modifica ao longo do tempo.
O ensino de genética no nível médio: a importância dos
experimentos de Mendel para o raciocínio sobre os mecanismos da hereditariedade
Gilberto Oliveira Brandão, gilbertobrandao@pop.com.br
Louise Brandes Moura Ferreira; ferreira.lbm@gmail.com
O Mendelismo é um conjunto de princípios que procuram explicar os mecanismos da hereditariedade e que foram propostos por Gregor Mendel no século XIX. Normalmente, ao iniciar o estudo de Genética no Ensino Médio perde-se a oportunidade de contextualizar a época do mendelismo e a relevância do raciocínio que orientou os experimentos de Mendel para o desenvolvimento da Biologia. Objetivamos nesse texto enfocar a importância do mendelismo no estudo da hereditariedade. A principal tese na época era a da herança por mistura, ou seja, quando dois pais possuindo variações para uma determinada característica se cruzassem haveria uma mistura dessas variações nos descendentes. Mendel sabia que havia plantas puras e plantas híbridas para determinada característica e acreditava que deveria haver uma unidade física (fator) que carregasse a informação biológica e que, esta deveria estar presente no pólen e nos óvulos das plantas. Para cada variação existente haveria um fator diferente, ou seja, a chave para a nova tese de herança unitária seria a característica presente nos organismos híbridos provenientes de organismos puros, porque nestes os dois fatores estão presentes. No desenho experimental de Mendel, o primeiro cruzamento tinha de ser realizado entre plantas puras para determinada característica. A seguir, haveria a auto-fecundação controlada dos híbridos. Se a tese da herança por mistura estivesse correta, uma característica intermediária deveria surgir nos híbridos. Se a tese unitária estivesse correta os híbridos da segunda geração dos filhos teriam a mesma característica dos híbridos auto-
Pasteur e a geração espontânea: uma história
equivocada
Lilian Al-Chueyr Pereira Martins (Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Grupo de História e Teoria da Ciência, Unicamp), lacpm@uol.com.br
O objetivo deste trabalho é estudar detalhadamente as contribuições de Louis Pasteur relativas à geração espontânea, bem como o seu contexto, esclarecendo equívocos muito comuns a respeito do tema, como a idéia de que Pasteur provou através de experimentos que a geração espontânea não existe. Na verdade, Pasteur não provou (nem poderia provar) que a geração espontânea é impossível. Ele apenas mostrou que, em alguns casos que estudou, não surgiam microorganismos observáveis em condições nas quais outras pessoas haviam afirmado que surgiam. No entanto, havia outros experimentos contrários aos seus; e a idéia de geração espontânea não foi abandonada após os trabalhos de Pasteur, tendo importantes defensores depois disso. As descrições históricas equivocadas sobre a contribuição de Pasteur transmitem uma concepção errônea sobre a ciência. Uma descrição mais adequada deste episódio, fugindo à pseudo-história e baseando-se no estudo aprofundado da documentação existente sobre o período, permite transmitir mensagens importantes a respeito da natureza da ciência, como a impossibilidade de provar uma teoria e a dificuldade de interpretação de experimentos, o que leva à existência de desacordos na prática científica.
A classificação dos seres vivos: uma história bem mais
antiga que Lineu
Maria Elice Brzezinski Prestes (PEPG História da Ciência da PUC-SP; GHTC Unicamp), eprestes@dialdata.com.br
Patrícia Oliveira (Mestranda no PEPG História da Ciência da PUC-SP), paty.maschio@yahoo.com.br
Gerda Maísa Jensen (Mestranda no PEPG História da Ciência da PUC-SP), maisajensen@ig.com.br
A classificação dos seres vivos é
um dos componentes curriculares de Biologia no Ensino Médio e é introduzida nos
livros didáticos com uma breve abordagem histórica, a qual, freqüentemente,
remete-se ao trabalho “pioneiro” de Carl von Linné (1707-1778). Linné é
indicado como o criador da nomenclatura binomial e do sistema de classificação
dos seres vivos, sem que sejam mencionadas as suas outras contribuições ao
estudo dos seres vivos. Além disso, os livros didáticos aqui analisados
apresentam diversos erros referentes a aspectos biográficos de Lineu, à grafia
de seu nome, à sua formação, às datas de edição de suas principais obras, e
omitem que ele adotou a nomenclatura pelo uso do binômio latino, já utilizada
por autores dos séculos XVI e XVII, quase vinte anos depois da sua proposta de
classificação. De conseqüências mais sérias para a transmissão da natureza do
empreendimento científico, esses manuais de ensino não mostram o contexto
A construção histórica do modelo de DNA e sua
importância para a constituição da Biologia Molecular
Mariana Ap. Bologna Soares de Andrade (UNESP – Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência e membros do Grupo de Pesquisa em Epistemologia da Biologia), marianabologna@yahoo.com.br
Ana Maria de Andrade Caldeira (UNESP – Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência e membros do Grupo de Pesquisa em Epistemologia da Biologia)
A introdução dos estudos moleculares sobre o gene em livros do Ensino Médio ocorre, de maneira geral, na unidade de Citologia, sem apresentar seção específica sobre trabalhos históricos da área. Essa lacuna mais do que um erro histórico constitui-se em um obstáculo para a compreensão do dinamismo do campo cientifico.
No campo da biologia molecular a integração entre morfologia e fisiologia tornou-se tão intima que acabaram por fundir seus campos de investigação (De Robertis, 1972). Tem-se, pois na origem dessa junção uma nova epistemologia biológica que deverá possibilitar a compreensão de que o objetivo da Biologia Molecular é apresentar como a estrutura genômica se expressa na estrutura funcional que constitui os seres vivos.
O capitulo a ser apresentado procurará discutir os debates sobre o período da construção do modelo de DNA por Watson e Crick. A partir destas discussões apresentaremos, por meio de reconstrução histórica, os desdobramentos das pesquisas nessa área enfatizando os diferentes modelos que eram cogitados para o DNA, mostrando a distância entre o modelo proposto e os estudos experimentais. Um estudo aprofundado desse episódio pode exemplificar importantes questões sobre a natureza da ciência, bem como apontar as mudanças teóricas que potencializaram a constituição da Biologia Molecular.
O Arranjo Curricular do Ensino de Evoluçăo e
Pressupostos Epistemológicos das Relaçőes entre os Trabalhos de Charles
Darwin e Gregor Mendel
Nelio Bizzo (Faculdade de Educaçăo, USP), bizzo@usp.br
Charbel Niño
El-Hani (Departamento de Biologia – UFBA), charbel@ufba.br
Diversos estudos focalizaram o ensino de evoluçăo em diversos
lugares do mundo, tendo apontado algumas características comuns. Uma das situaçőes
invariantes é o baixo desempenho de estudantes que completam seus estudos antes
da universidade, no que seria o ensino médio brasileiro. Até mesmo estudos com
estudantes universitários de cursos de biologia tęm demonstrado resultados
parecidos, no Brasil e em outros países. Isso indica haver relaçőes
causais complexas, para além da simples destreza do professor e de habilidades
cognitivas do aluno. Neste artigo pretendemos investigar os pressupostos
epistemológicos do currículo de Biologia, em relaçăo ŕ
compatibilidade entre a Genética Clássica e a formulaçăo básica de Charles
Darwin considerada válida no contexto da atualidade. Para tanto, serăo
utilizados os relatos originais de Mendel e de Darwin buscando compreender as
relaçőes possíveis de coeręncia e contrariedade entre as duas formulaçőes.
Em essęncia, discute-se as repercussőes evolutivas das teses (ou “leis”,
que foram numeradas entre uma e seis – a forma mais freqüente se refere a duas “leis”)
de Mendel expostas em seus trabalhos de 1865 e das hipóteses, ou “leis”
darwinianas, mantęm entre si. A questăo, em síntese, se resume ŕ
seguinte: se a afirmaçăo de que os trabalhos de Mendel e Darwin se
complementam intrinsecamente estiver errada, qual a decorręncia curricular
que disso deve advir? Se estiver errada a afirmaçăo que o conhecimento dos
trabalhos de Mendel teria levado Darwin a antecipar a Nova Síntese, somente
formulada no século XX, isso năo nos deve levar a rever a maneira pela
qual apresentamos os dois conjuntos de idéias a nossos alunos hoje em dia?
Os estudos de Joseph Priestley sobre os diversos tipos
de “ares” e os seres vivos
Roberto de Andrade Martins (Grupo de História e Teoria da Ciência, Unicamp), Rmartins@ifi.unicamp.br
Os livros didáticos costumam mencionar alguns experimentos realizados por Joseph Priestley (1733-1804) na década de 1770 envolvendo combustão, animais e plantas em recipientes fechados. De acordo com alguns livros didáticos, Priestley descobriu a fotossíntese, ou a produção de oxigênio pelas plantas e seu papel na respiração. A apresentação didática dos experimentos atribuídos a Priestley não apresenta nenhuma contextualização, não menciona o que ele estava procurando ou testando, e interpreta de forma anacrônica as conclusões tiradas dessas experiências. Além disso, a própria concepção de ciência que está implícita nessas descrições é equivocada. Este trabalho apresentará uma versão mais adequada das pesquisas de Priestley e de sua relevância para a compreensão de alguns processos vitais, na época. Este episódio histórico, adequadamente exposto, permite apresentar aos estudantes vários conceitos importantes a respeito da natureza da ciência e da pesquisa, como a íntima relação entre estudos de diversos campos (no caso, entre química, medicina e história natural), as influências de idéias preconcebidas na pesquisa, as dificuldades que surgem ao se tentar compreender fatos novos e inesperados, as diferenças entre as interpretações do próprio Priestley e as aceitas hoje em dia, a existência de controvérsias, o contexto mais amplo em que se situavam os experimentos descritos de forma tão simplista pelos livros didáticos.
Viviane Arruda do Carmo (doutoranda, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo) arrudacarmo@ig.com.br
Nélio Bizzo (Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo) bizzo@usp.br
Lilian Al-Chueyr Pereira Martins (Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Grupo de História e Teoria da Ciência, Unicamp), lacpm@uol.com.br
Este trabalho abordará uma lacuna importante dos livros didáticos de biologia: a falta de menção (ou menção distorcida) a Alfred Russel Wallace (1823-1913) no ensino médio. Será apresentada uma análise das principais contribuições de Wallace à teoria da evolução, bem como uma comparação entre suas idéias e as de Charles Darwin. Analisando-se as semelhanças e diferenças entre esses dois autores, podem-se perceber vários aspectos que não costumam ser explorados no ensino de biologia, como o caráter mais ou menos vago e confuso das idéias, quando estão nascendo; as múltiplas influências de idéias que “estão no ar” (influências culturais) no desenvolvimento da ciência; a existência de conflitos e dificuldades na explicação dos fenômenos naturais pelo uso das teorias; e a existência de transformações graduais nas concepções defendidas por cada cientista. Além disso, a análise do surgimento do princípio de seleção natural mostra que alguns princípios fundamentais da ciência não se basearam em estudos empíricos ou em um “método científico” (como se costuma defender nos livros didáticos). Assim, introduzir o estudo de Wallace no ensino de biologia pode trazer muito mais do que resgatar um autor ignorado: pode ajudar a trazer para a sala de aula uma discussão sobre alguns tópicos relevantes a respeito da própria natureza da ciência.

A figura escolhida para ilustrar o material de divulgação do I Encontro Temático é uma gravura do século XVI, do herbário de Leonhart Fuchs, De historia stirpium commentarii insignes, 1542.