ISSN 1982-1026

Boletim de História e Filosofia da Biologia

Publicado pela Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB)

Luana Beatriz Xavier Nunes
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação Interunidades de
Ensino de Ciências da USP
luanabeatriz@usp.br

Maria Elice de Brzezinski Prestes
Departamento de Genética e Biologia Evolutiva, Instituto de Biociências, USP
eprestes@ib.usp.br

 

Ao longo da história, o acesso das mulheres ao conhecimento científico foi marcado por inúmeros obstáculos institucionais e culturais. Durante séculos, os espaços universitários permaneceram predominantemente masculinos, excluindo a participação formal das mulheres. No entanto, o ambiente italiano do século XVIII, particularmente o de Bolonha, ofereceu oportunidades singulares para que algumas mulheres obtivessem algum destaque no campo acadêmico. Essas figuras não apenas forneceram contribuições significativas para a ciência, como, desafiando as normas de gênero da época, reconfiguraram o papel social e intelectual da mulher na ciência.

Um exemplo importante é Anna Morandi Manzolini (1714-1774), anatomista e escultora de Bolonha que produziu uma gama de modelos de cera de órgãos humanos, performou demonstrações anatômicas e redigiu manuscritos com suas observações que dialogavam e até desafiaram teorias da época (Messbarger, 2010). Após a morte do marido, Morandi assumiu o controle do ateliê onde ambos trabalhavam em parceria na dissecação de cadáveres e na criação dos modelos anatômicos. Segundo Messbarger (2009, p. 260), com apenas 41 anos e mãe de dois filhos pequenos, ela manteve o estúdio doméstico como espaço de produção científica e educação, recebendo estudantes e visitantes ilustres. Seu trabalho técnico, altamente sofisticado, permitiu representar estruturas anatômicas nunca antes observadas a olho nu (Messbarger, 2001, p. 74). Assim, ela não apenas deu continuidade ao projeto científico do casal, como o ampliou de maneira inovadora.

A projeção internacional de figuras como Anna Morandi, se deu principalmente devido ao chamado Grand Tour realizado por aristocratas intelectuais que, para complementarem seus conhecimentos, saiam em viagens com duração de dois a três anos, retornando para casa quando a sua educação cultural estivesse completa (Black, 2003, p. 4). Sua condição de mulher investigadora atraía visitantes que viam em sua figura uma curiosidade, por vezes, exótica. De acordo com Messbarger (2010, p. 98), seu gênero era um atrativo poderoso. Ela não era apenas uma anatomista, mas “a Senhora Anatomista”, cuja habilidade em dissecar corpos e modelar em cera era reforçada por sua presença pública notável.

Seu autorretrato em cera, produzido em 1755, é considerado uma autobiografia visual. A escultura, representa sua feminilidade e simultaneamente enfatiza sua autoridade de anatomista, desafiando as convenções que tradicionalmente separavam os domínios do saber e do feminino (Corrain, 2020, p. 10).

Como argumenta Marsha Richmond (2007, p. 901), compreender a história das mulheres na ciência exige não apenas reconhecer suas contribuições, mas também analisar sua agência dentro dos contextos sociais e intelectuais em que estavam inseridas. Nesse sentido, Anna Morandi Manzolini não foi uma exceção isolada, mas parte de uma geração que incluía outras figuras conterrâneas notáveis como Laura Bassi (1711-1778), Maria Gaetana Agnesi (1718-1799) e Clotilde Tambroni (1758-1817), mulheres que simbolizaram o renascimento intelectual de Bolonha e atraíram a atenção de estudiosos e viajantes internacionais.

Evocar a trajetória de Anna Manzolini e suas contemporâneas é fundamental para repensar as narrativas tradicionais da história da ciência, que frequentemente silenciam as contribuições femininas. Além disso, relatos como este também oferecem ferramentas pedagógicas potentes para a aplicação da história da ciência no ensino. Ao integrar essas vozes na educação científica é possível fomentar uma perspectiva mais inclusiva, crítica e plural sobre o desenvolvimento do conhecimento, evidenciando que a ciência sempre foi, e continua sendo, uma prática moldada por dinâmicas sociais e sobretudo, atravessada por questões de gênero.

O texto traduzido neste número do Boletim, faz parte de um Sourcebook que reúne biografias de mulheres da História da Ciência. Resultados de pesquisa, os capítulos do livro têm como objetivo ampliar as noções de participação e investigação na produção do conhecimento, tornando mais visível a atuação de mulheres e de figuras menos celebradas na História da Ciência. As organizadoras de Women in the history of science: A sourcebook identificaram a carência de materiais introdutórios voltados a estudantes iniciantes no ensino superior que contemplassem as novas abordagens da História da Ciência. No contexto dos cursos de graduação, em particular, observaram uma escassez de recursos que apoiassem um ensino alinhado às práticas historiográficas mais atuais e o compromisso com uma representação mais inclusiva das narrativas históricas. O livro nasceu do esforço coletivo das organizadoras, somado à colaboração de outros 53 autores e autoras para investigar como as mulheres participaram da criação, difusão e vivência do conhecimento científico.

As fontes históricas reunidas – que vão desde 1200 a.C. até o início do século XXI – permitem uma revisão crítica das narrativas tradicionais. Além disso, os capítulos possuem uma seção final com questões que podem orientar a leitura ou o debate em sala de aula, seguida por referências bibliográficas indicadas para aprofundamento.

 

Referências

BLACK, Jeremy. Italy and the grand tour. New Haven: Yale University Press, 2003.

CORRAIN, Lucia. Tra arte e scienza a Bologna. Anna Morandi Manzolini. Pp. 1-11, in: CAMPANA, A.; GIUNTA, F. Natura Società Letteratura, Atti del XXII Congresso dell’ADI – Associazione degli Italianisti (Bologna, 13-15 settembre 2018). Roma: Adi editore, 2020.

MESSBARGER, Rebecca. Waxing poetic: Anna Morandi Manzolini’s anatomical sculptures. Configurations, 9 (1): 65-97, 2001.

MESSBARGER, Rebecca. As Who Dare Gaze the Sun: Anna Morandi Manzolini’s Wax Anatomies of the Male Reproductive System and Genitalia. Pp.251-271, in: FINDLEN, Paula; ROWORTH, Wendy Wassyng; SAMA, Catherine M. Italy’s eighteenth century: Gender and culture in the age of the grand tour. Palo Alto: Stanford University Press, 2009.

MESSBARGER, Rebecca. The lady anatomist: The life and work of Anna Morandi Manzolini. Chicago: University of Chicago Press, 2010.

RICHMOND, Marsha L. Opportunities for women in early genetics. Nature Reviews Genetics, 8 (11): 897-902, 2007.

 

Tradução de: DORIA, Corinne. Anna Morandi Manzolini (1714-1774): Self-portrait in wax (1755). pp. 133-136, in: WILLS, Hannah.; HARRISON, Sadie.; JONES, Erika.; LAWRENCE-MACKEY, Farrah.; MARTIN, Rebecca. Women in the history of science: A sourcebook. London: UCL Press, 2023.

Tradução publicada com consentimento da autora e da UCL Press Publishing.

Anna Morandi Manzolini (1714-1774): Autorretrato em cera (1755)

 

Introdução

Esta fonte [Fig. 1] é um autorretrato em cera criado por Anna Morandi Manzolini (1714-1774), uma escultora e anatomista italiana que viveu e trabalhou em Bolonha. Vinda de uma família modesta, ela viveu com sua mãe e irmão até 1740, quando se casou com o escultor Giovanni Manzolini. Ambos eram ex-alunos dos artistas Giuseppe Pedretti (1694–1778) e Francesco Monti (1685–1768). Anna e Giovanni trabalharam juntos fabricando modelos anatômicos de cera para a universidade local, onde o estudo de Anatomia estava em expansão e prática. Após a morte do marido em 1755, Manzolini começou a trabalhar de forma independente, desenvolvendo uma técnica particular de dissecação humana e experimentando um novo composto de cera. Ela também produziu um caderno de anotações com 250 páginas em que registrava suas observações, desafiando algumas das teorias anatômicas dominantes da época. Seus modelos de cera representavam uma variedade de partes anatômicas e incluíam uma série impressionante sobre os sentidos humanos e os órgãos reprodutivos masculinos. Em seu estúdio doméstico, Manzolini oferecia demonstrações anatômicas para estudantes e entusiastas, tornando sua casa um dos locais mais importantes para o aprendizado de anatomia e uma atração significativa para pessoas que faziam o “Grand Tour”. Em 1756, o Instituto de Bolonha nomeou Manzolini como Professora de Anatomia, e quatro anos depois, ela recebeu o título de Modellatrice (Escultora) da mesma instituição. Tornou-se uma escultora de renome internacional, recebendo convites e encomendas da Royal Society de Londres, do Imperador José II da Áustria e da Imperatriz Catarina da Rússia.

 

Figura 1. Autorretrato em cera de Anna Morandi Manzolini, 1755.
Crédito da imagem: com a gentil permissão do Sistema Museale di Ateneo, Museo di Palazzo Poggi.

 

Análise

Manzolini produziu este autorretrato em 1755. Ela representou a si mesma realizando uma dissecção anatômica, um ato incomum para uma mulher da época. Esse autorretrato revela a intersecção entre arte, anatomia e gênero no século XVIII.

Durante esse período, as mulheres começaram a ganhar visibilidade nos domínios intelectual e científico em toda a Europa. Não era incomum que mulheres aristocráticas e instruídas se retratassem vestidas com roupas elegantes, sentadas em uma mesa enquanto manipulavam instrumentos científicos[1]. Manzolini se retratou usando um vestido de tafetá rosa e joias — um traje certamente impraticável para realizar dissecções. Nesse aspecto, a escultura segue as convenções das representações de cientistas mulheres do século XVIII, com roupas aristocráticas e elegantes. No entanto, o refinamento do traje de Manzolini contrasta fortemente com a materialidade do ato que realiza — ela é vista em meio ao processo de uma dissecção. Embora a maioria das mulheres que se retratavam como cientistas fossem aristocratas, Manzolini era de origens humildes. Seu autorretrato apresenta características provocativas: seu gesto intencionalmente recorda os retratos tradicionais de anatomistas homens, como Andreas Vesalius; ela aparece dissecando um cérebro, órgão considerado na época como o centro unificador do corpo humano e a sede da razão; e seus dedos elegantes seguram ferramentas cirúrgicas (uma pinça e um bisturi, agora perdidos). Esse retrato exibe simultaneamente elegância e refinamento, considerados apropriados para uma mulher, enquanto sua ação — a dissecção anatômica — é bem mais intensa.

Essa escultura pode ser vista como um desafio às teorias contemporâneas sobre as diferenças sexuais. No início da década de 1770, em Bolonha, havia uma disputa entre intelectuais sobre as capacidades mentais e racionais das mulheres. Alguns, como o intelectual Petronio Zucchini, afirmavam que a estabilidade mental das mulheres era influenciada pelo útero. Outros, como Germano Azzoguidi, argumentavam que o peso dos fatores sociais e culturais impactava negativamente nas capacidades racionais das mulheres.

Esse autorretrato é profundamente simbólico: produzido no início da carreira de Manzolini, é uma declaração audaciosa de sua identidade profissional. A decisão de se representar realizando uma dissecção implica que ela se via mais como anatomista do que como artista. Também alude à sua visão da anatomia como uma ciência baseada na observação empírica. O autorretrato combina os dois aspectos complementares do trabalho de Manzolini: a fabricação de modelos de cera e a coleta de observações anatômicas registradas em seu caderno.

O autorretrato de Manzolini também permite explorar a relação em transformação entre arte e anatomia na Europa do século XVIII. A modelagem em cera possui uma longa tradição, especialmente em Bolonha. Antes do século XVIII, os modelos de cera eram predominantemente feitos para fins artísticos, servindo como modelos para escultores e pintores. O século XVIII trouxe uma mudança radical na concepção e no uso dos modelos anatômicos de cera, que passaram a ser cada vez mais utilizados na educação médica. Na época, o ensino de anatomia enfrentava dificuldades significativas. As autoridades civis e religiosas precisavam autorizar a obtenção de corpos, o que geralmente ocorria apenas uma vez por ano. Devido à falta de técnicas eficientes de conservação, as dissecções eram possíveis apenas no inverno, quando as baixas temperaturas ajudavam na preservação. Também era difícil para os estudantes examinarem as partes do corpo em detalhes; os corpos se deterioravam e eram danificados pelo próprio processo de dissecção.

A introdução dos modelos de cera resolveu a maioria desses problemas, pois os modelos estavam disponíveis o ano todo e não apresentavam risco de putrefação nem de contágio. Além disso, os modelos de cera mostravam as partes do corpo em grande detalhe, permitindo um ensino mais eficaz, já que os estudantes podiam tocá-los. Desde o início de suas carreiras, Manzolini e seu marido conceberam seus modelos como ferramentas para o ensino médico. Eles se preocupavam com a precisão dos mínimos detalhes anatômicos e queriam que seus modelos ilustrassem uma parte viva do corpo e suas conexões com o restante do corpo humano vivo. Dessa forma, seu trabalho contribuiu para estabelecer um padrão de anatomia e fisiologia humana na Europa.

[1]Por exemplo, o retrato de Émilie du Châtelet (1706–1749) feito por Maurice Quentin de La Tour.

Questões para discussão do texto em classe

  1. O que essa fonte revela sobre a profissionalização da medicina e da anatomia na Itália do século XVIII?
  2. De que forma os modelos anatômicos de cera permitiram um ensino mais eficaz da anatomia?
  3. Discuta as maneiras pelas quais o ensino de anatomia combinou o visual, o textual e o oral.
  4. O que modelos anatômicos de cera como esse podem revelar sobre a relação entre arte e ciência e entre realismo e simbolismo?
  5. Como essa representação adere e quebra as convenções das mulheres na ciência durante o período?

 

Sugestões de leitura

FOCACCIA, Miriam. Anna Morandi Manzolini: Una donna fra arte e scienza: immagini, documenti, repertorio anatomico. Florence: Leo S. Olschki, 2008.

MESSBARGER, Rebecca. The Lady Anatomist: The Life and Work of Anna Morandi Manzolini. Chicago: University of Chicago Press, 2010.

MESSBARGER, Rebecca; FINDLEN, Paula. The Contest for Knowledge: Debates Over Women’s Learning in Eighteenth-century Italy. Chicago: University of Chicago Press, 2005.

RIVA, Alessandro; CONTI, Gabriele; SOLINAS, Paola; LOY, Francesco. The evolution of anatomical illustration and wax modeling in Italy From the 16th to early 19th centuries. Journal of Anatomy, 216 (2): 209-222, 2010.

VON DÜRING, Monika; BAMBI, Saulo. Encyclopaedia Anatomica: A Complete Collection of Anatomical Waxes. Cologne: Taschen, 1999.

 

NUNES, Luana B. X.; PRESTES, Maria Elice B. Anna Morandi Manzolini: Uma “dama anatomista” debruçada em dissecções humanas. Boletim de História e Filosofia da Biologia, vol. 19, número 1 (março de 2025). Versão online disponível em: https://www.abfhib.org. Acesso em: dd/mm/aaaa. [colocar a data de acesso à versão online.]