ISSN 1982-1026

Boletim de História e Filosofia da Biologia

Publicado pela Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB)

LIMA, Bruno Fancio. Lidando com a complexidade dos seres vivos: As diferentes explicações para a origem do olho e o ensino de evolução. São Paulo, 2024. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências – ênfase Biologia) – Programa Interunidades em Ensino de Ciências – Universidade de São Paulo.

Defesa em 13/12/2024.

Orientadora: Maria Elice de Brzezinski Prestes

Disponível aqui: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/81/81133/tde-13032025-172629/pt-br.php

Resumo: Uma das importantes contribuições do livro Origem das Espécies (1859) de Charles Darwin (1809-1882) foi oferecer uma nova possibilidade de se entender a origem das estruturas complexas dos seres vivos em contraposição à explicação mais corrente no meio acadêmico do naturalista, baseada na teologia natural, de que tais órgãos foram projetados e construídos por um designer divino. Um dos autores que defendiam essa explicação, muito popular na época de Darwin, era o clérigo William Paley (1743-1805), que comparava, em sua obra mais conhecida (Natural Theology, de 1802), os olhos a um relógio; as duas estruturas teriam sido projetadas por um artífice, divino no primeiro caso e humano no segundo. A partir da teoria da evolução por seleção natural, porém, era possível agora entender tais estruturas como resultado de um processo histórico, contingencial, de aumento da complexidade a partir de órgãos mais simples, presentes nos ancestrais dos seres vivos atuais. Para fazer um contraponto a Paley, Darwin também utilizou os olhos como modelo para argumentar a favor da seleção natural. Um dos críticos contemporâneos ao naturalista, George Mivart (1827-1900), extremamente religioso, era defensor da evolução, mas acreditava que alguma força sobrenatural deveria ter atuado para guiar o surgimento de órgãos complexos, utilizando também como exemplo os olhos. Dentro do campo da história da ciência, esta dissertação reconstruiu os argumentos de Darwin, Paley e Mivart, destacando que Darwin mantém muito da linguagem e dos conceitos da teologia natural, mas sua estratégia argumentativa de se analisar órgãos visuais de seres vivos atuais de diferentes complexidades fornece ao leitor a possibilidade de vislumbrar como pode ter ocorrido a evolução de uma estrutura muito simples até outra, mais complexa; em sua controvérsia científica com Mivart, analisada à luz dos trabalhos publicados dos dois autores e da correspondência de Darwin, o naturalista apela para outros mecanismos que não a seleção natural, como o uso e desuso e a conversão de funções, para explicar a origem de órgãos complexos. Dentro do campo de ensino de ciências, esta dissertação mostrou as semelhanças dos argumentos do Design Inteligente atual com aqueles de Paley e Mivart, defendendo que a argumentação de Darwin fornece subsídios para a superação dos supostos desafios lançados por este movimento neocriacionista; também foi argumentado que a explicação darwiniana possibilita aos professores da educação básica trabalharem, em sala de aula com seus estudantes, a mudança cognitiva de uma teleologia externa, baseada na criação dos órgãos complexos por um agente sobrenatural, para uma teleologia interna, baseada em um processo natural, que não apela para leis de fora dos domínios da natureza. Finalmente, a argumentação de Darwin em relação à evolução do olho foi utilizada para a proposição de uma discussão didática que permita, aos professores, abordarem a evolução por seleção natural em sala de aula em conjunto com diferentes aspectos de Natureza da Ciência (NdC).

Palavras-chave: Teologia natural; seleção natural; olhos; Design Inteligente.