ISSN 1982-1026
Boletim de História e Filosofia da Biologia
Publicado pela Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB)
Resenha de livro traduzido: “Uma minhoca pensa como você?”, por Nelio Bizzo
Nelio Bizzo
Presidente da ABFHiB
presidente@abfhib.org
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Referência do livro traduzido:
DARWIN, Charles. A formação da terra vegetal pela ação das minhocas, com observações sobre seus hábitos. Trad. Sofia Nestrovski. Posfácio Reinaldo José Lopes. São Paulo: Fósforo, 2025. 232 p. ISBN: 978-65-6000-119-0. ISBN e-book: 978-65-6000-120-6.
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A primeira tradução do último livro do naturalista inglês que mudou nossa visão da dinâmica da vida na Terra chega em tradução brasileira, ampliando a prateleira de Charles Darwin em nossas bibliotecas. A tradução de Sofia Nestrovsky é elegante e precisa, e o cuidado editorial da editora Fósforo é elogiável.
Ao contrário do que parece, o livro oferece ao leitor um horizonte muito mais elevado que o rés do chão, limite próprio dos vermes da terra. De certa forma, o foco da atenção de Darwin ao final da vida não se concentrava na aplicação de sua teoria evolutiva ao ser humano (como muitos afirmam), mas havia se voltado para seres considerados insignificantes, ou até mesmo prejudiciais, os “vermes da terra”, como as minhocas são chamadas em inglês.
Publicado em 1881, apenas seis meses antes de sua morte, o livro não é resultado de uma iniciativa senil repentina, muito ao contrário. O livro foi sucesso de vendas superando as vendas de “Origin of Species” à época, e poucos se dão conta que evoca a temática evolutiva – e em grande estilo. Na verdade, as minhocas e a produção de matéria orgânica do solo haviam sido tema de um dos primeiros artigos científicos de Darwin publicado ainda em 1837. Portanto, as minhocas eram objeto da curiosidade de do naturalista antes de conceber a seleção natural e se mudar com a família da fumarenta Londres para uma chácara em elegante e bucólico subúrbio, em Downe (Kent), em 1842.
Ele havia construído uma estufa, com uma sala de preparação, onde ele cultivava suas orquídeas e plantas carnívoras, que seriam alvo de escritos logo após a publicação de seu livro mais famoso (e ainda inéditos em tradução brasileira). No jardim em que cultivava as mais variadas plantas, realizava experimentos de cruzamentos, onde encontrou a proporção 3 x 1 na segunda geração, mas sem lhe conferir importância. Lá ele chegou a projetar e construir, em 1870, com a ajuda de seu filho físico, Horace, um engenhoso artefato, que ficou conhecido como “Pedômetro de Darwin” (ou “Stone Gage”), mas poderia ser chamado de “minhocômetro”. Ele pretendia medir a gradual elevação da superfície do solo pela ação das minhocas, que se faria perceber ao cabo de poucos anos com medição cuidadosa, comparando o comprimento de uma vara de aço fincada profundamente no solo protegido por uma pesada pedra de moinho com o nível da superfície circundante.
Darwin já havia percebido que as pedras no campo pareciam “afundar” com o tempo. Na verdade, não eram as pedras que se “enterravam” como um siri na areia, mas era a terra que subia, graças ao fértil material depositado pelas minhocas na superfície. O dispositivo implantado por Darwin em 1870 está até hoje disponível para visitação no Memorial de Down House, sua antiga casa, e parece ter, de fato, “afundado” na terra. Mas muito antes ele já examinava a questão com atenção.
No livro ele menciona que no dia 20 de dezembro de 1842, recém-chegado à sua chácara, ele havia espalhado pedaços de calcário (“broken chalk”) na superfície de um campo que havia servido com pasto por 30 anos ou mais. No final de novembro de 1871 (ou seja, dez anos antes da publicação do livro e 29 anos depois da deposição inicial), uma vala foi cavada para verificar a localização do que restara daqueles fragmentos. Eles estavam a 7 polegadas (quase 18 cm) de profundidade, o que permitia supor que haviam sido soterrados a uma média de cerca de 6mm por ano. E suas observações microscópicas sobre o que restara deles comprovava que a parte solúvel havia sido em parte dissolvida pela acidez da água da chuva (o que justificava a necessidade de calcário nos solos agriculturáveis), restando restos de conchas em seu interior.
Ele envolveu pelo menos três filhos (William, Horace e Francis) ao longo dos anos em suas observações e experimentos, carinhosamente citados ao longo do livro. No entanto, digno de nota, não cita Leonard, que mais tarde (1926) viria a afirmar conhecimento privilegiado dos desígnios de seu pai em seus últimos dias. Ilustrações explicativas foram inseridas no livro (e reproduzidas nesta edição brasileira) mostrando a ação das minhocas no soterramento de pedras depois de “apenas” 35 anos (p. 103), em ruínas romanas e em locais sabidamente muito antigos, como Stonehenge (p. 106).
Mas a parte realmente emocionante de seu livro se refere à investigação dos hábitos das minhocas, com experimentos que causam espécie. As reações às notas musicais de piano, em timbre e intensidade, ao lado de anotações sobre a sensibilidade à luz acabam por revelar que a teoria evolutiva era uma lente intelectual indispensável aos raciocínios de Darwin. Ele deduz que a falta de sensibilidade à luz e ao som não permitia concluir que as minhocas fossem máquinas de escavação desprovidas de razão. Ele buscava a “filogenia da inteligência”, ou seja, se perguntava se nossas “qualidades mentais” poderiam não ser de todo originais do Homo sapiens, mas herdadas de formas tão simples como os vermes da terra.
Darwin especula como exemplo de inteligência notável, desenvolvida sem o auxílio de órgãos da visão e audição, o caso de Laura Bridgman (1829-1889). Ela havia ficado surdo-muda aos dois anos, por decorrência de uma infecção (escarlatina), mas havia sido educada em uma instituição em Boston e aprendera a ler, escrever e se comunicar a tal ponto que recebeu a visita do então já famoso Charles Dickens. Ele lhe havia dedicado uma elogiosa crônica em seu livro sobre sua (frustrante) viagem aos Estados Unidos em 1842. Laura era tão famosa que nem demandava uma nota de rodapé no livro original, mas agora na tradução (p.29), poderia ter merecido algo como na explicação da definição de inteligência do “Sr. Romanes”, ao pé da página 68.
Ali aparece a conclusão de Darwin, após a descrição de experimentos engenhosos com minhocas, de que elas são seres inteligentes, pois se beneficiam de sua própria experiência ao levar folhas (e triângulos de papel engordurado) para dentro de suas galerias. Elas tateiam os materiais antes de “manipulá-los” em seu benefício! E ele menciona o desenvolvimento extraordinário do sentido do tato em pessoas que nasceram surdo-mudas, em outra alusão à história evolutiva comum entre seres vivos tão diversos, mas aparentados.
Darwin estende suas conclusões sobre a ação dos vermes a partir de medições em ruínas antigas, exaltando a diversidade de minhocas mundo afora, incluindo a “minhoca gigante” de Santa Catarina, relatada por Fritz Müller. Ele conclui que esses vermes são tão importantes para a agricultura como os próprios agricultores. Elas “araram” os campos por milênios antes que o primeiro agricultor humano semeasse a terra. Até hoje suas conclusões permanecem válidas não apenas para práticas agrícolas sustentáveis, que tomam as minhocas como bioindicadores de saúde do solo, mas para a compreensão das relações de parentesco entre todos os seres vivos do planeta.
BIZZO, Nelio. Uma minhoca pensa como você? Boletim de História e Filosofia da Biologia, 20 (1): 1-7.